A mulher das botas doc martens e do chapéu-de-côco estilo homem
Ele, sentado, na cafetaria à saída de um Centro de Exposições. Um copo de uísque entre os dedos, duplo. Duas pedras de gelo. O café é como o interior de um enorme cubo branco, hermético, autónomo. Nas paredes, quadros de coloridas pinturas álacres assemelham-se a janelas. Os visitantes. Esculturas enigmáticas como peças temporárias da exposição. Rostos desconhecidos que o confortam. Sim, confortam. Rostos passageiros.
Não como noutros cafés. Abomina esses lugares a que nós chamamos de
cafés. Lugares de paragem. Mas não este onde ele está. Não é um
lugar de paragem é um lugar de passagem. Como tudo na vida nada se repete, pensa ele. Mais um
trago. A aspereza a descer, o calor a subir. Outros visitantes que terminam. E ele. De copo de uísque na mão, agora vazio. Sobe o braço. Sobe os
olhos. Faz sinal. E. Um vulto desigual que o perturba.
Pressente. Mira o empregado. Uísque?!
Olha o desigual novamente e vê. A mulher das botas doc martens e do
chapéu-de-côco estilo homem.
Ela, senta-se. Acompanhada. Só uma
amiga. Perscruta um empregado. Encontra-o numa mesa a servir um
uísque. Faz sinal. E topa o homem a quem foi servido o uísque. Não reconhece.
Ele disfarça. Ela finge que não liga. Falam com o empregado, fazem o pedido. Ela finge procurar qualquer coisa pelo balcão, tentando topar novamente o homem
do uísque. Tem a certeza que não o conhece. Volta a conversar com a amiga, até
o empregado voltar. Uns sumos, umas sandes. Leves. Não liga ao homem, mas
sabe que ele olha. Até o acha
atraente. Rosto marcante. Mas deixa
transparecer um certo nervosismo que a intimida. Alheia-se observando os quadros expostos, fixando com particular
atenção um quadro bucólico de cores verdes desbotadas pela chuva pintada.
E ele. Ele topa-lhe a distância do olhar trespassado pela janela daquele quadro bucólico. E percebe que as
paredes brancas nos museus transformam os quadros expostos em janelas que nos fazem sentir tanto um sopro de
libertação como um aperto de prisão. Mas não entende se aquela paisagem a prende ou a
liberta, porque o seu olhar é um lugar intangível. Nervoso gira o uísque pelo copo. Beberica. Não sabe o que o atrai. O chapéu-de-côco estilo homem? Não sabe. Mas pressente. Talvez
devesse recordar-se de qualquer coisa, mas nada. O rosto? Também não. Sente-se desconcertado e levanta-se. Paga ao balcão. Saí. Ela.
Já só repara na sua silhueta esquivando-se entre um bando transeuntes.
Na rua, movimento. Caminha acossando o lugar inextríncável da memória. Agudiza. Não encontra. E entre os rostos passageiros dos demais deambulantes o pressentimento exacerba-se. O ar. Toca-lhe. E pressente. Mas afinal, que ubiquidade e safareza o perseguem? Pára para se acalmar. Fecha os olhos e respira fundo. Sente a leve corrente de ar. Está mais calmo. E retoma o caminhar, agora por uma rua menos movimentada onde os rostos não o persigam. Até que. Até que passa por um quiosque e lá dentro, sentada, a mulher do quiosque, de cabeça descaída para a direita tal
como.......... e recorda-se. Há muitos anos. Há muitos anos que ali passou e sentiu. O toque do ar. É essa a indelével presença da mulher das botas doc martens e do chapéu-de-côco estilo homem. Há precisamente 4452 dias, quando ali passou, a
mulher do quiosque estava exactamente naquela mesma posição, com aquele mesmo olhar, com aquele mesmo suspiro. E nesse dia ele sentiu precisamente o que hoje sente. 4452 dias é o tempo que a vida demora a dar a volta ao mundo. Pensou. Hoje respira o
mesmo grão de ar que respirou há. Hoje sente o mesmo toque do vento que. E hoje
o dia repete-se exactamente como há 4452 dias. Devia saber o que vai acontecer, mas ainda não se lembra. Só sabe que tem de continuar a andar porque. Ainda pressente. Sabe que tem de girar o seu corpo e voltar-se para trás. E. O olhar sedutor, quente, meigo, de um vulto desigual que o perturba, e vê. A mulher das botas doc martens e do chapéu-de-côco
estilo homem. Ele. Pára. Ela. Uma expressão dócil nos olhos, um sorriso nos lábios, passando-lhe demasiado perto para o prender no seu
perfume. Ele. Pressente. Também lhe escapa um sorriso, mas não se lembra. Devia lembrar-se.
E ela, enquanto passa por ele, deixa
um rasto de gesto de braço acariciando o ar, provocando-o. Ele começa a sentir o que vai acontecer: talvez o calor dela dentro dele que há demasiado tempo anseia pela redenção? Ele está parado e vê-a a afastar-se. Lentamente, muito lentamente, a névoa das
suas recordações dissipa-se. A nitidez. E agora tudo se passa como a reprodução de um filme em câmara lenta. Começa e estender-lhe a mão e, nela, o sorriso cresce. Lentamente. Mas ela não entende. Ele tenta dizer-lhe, qualquer coisa, porque sabe, sabe o que vai acontecer.
Ela
rodopia sobre si, lentamente, ruborescendo, alegre.E ele, lentamente, sempre muito lentamente, já com o braço estendido, na iminência das suas palavras jamais pronunciadas, sabe, tal como há 4452 dias atrás. Fechou os olhos, descobrindo a
trágica recordação da mulher das botas doc martens e do chapéu-de-côco estilo
homem. Um carro, o despiste. Ela, lentamente rodopiando para ele de sorriso marcado, intemporal, na sua última volta, como
se a vida demorasse 4452 dias a dar
a volta ao mundo. Dentro dele. A gravação de um gesto, a sua assimilação
profunda, e a sua reprodução lenta em sequências de imagens como um dispositivo
fotográfico em velocidade lenta. A intemporalidade manifesta-se na lenta reprodução das imagens das nossas recordações. Tenta reconstituir cada fracção, cada momento, porque, quanto
mais importante é o momento, mais lentamente o reproduzimos. E, 4452 dias depois, as palavras estão-lhe na
boca, os gestos estão-lhe na alma, e, no meio de todos aqueles rostos desconhecidos que se juntaram, curiosos, piedosos, sobrou-lhe um rosto, do qual sabe que tem de contar a história. Novamente. E, quando lhe pedem para testemunhar, ele já o que dizer, tal como disse há............ e explicou:: "A mulher das botas doc martens e do chapéu-de-côco estilo
homem........Ela".
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