sábado, 1 de setembro de 2012

Os Filhos do Afecto

Era Abril, e eu estava numa loja de grande consumo. Eu estava na Fnac do Chiado. Antecipando a realização da Feira do Livro, e numa acção de malabarismo comercial, havia a própria feira do livro da Fnac. Bastava descermos as escadas rolantes e lá estavam todos os livros etiquetados, com uma qualquer percentagem de desconto. No centro de uma estante, um livro, que eu tinha lido recentemente, "A  criança que não queria falar", e que, sobre, já vos escrevi neste blogue. Ao lado, a "Crónica dos bons malandros", de Mário Zambujal. Ainda não li. Peguei. Folheei. Ai os bons malandros, os bons malandros. Entre páginas. Uma mão, um braço. Singelos. Alcançaram um exemplar de "A criança que não queria falar". Eu. Já conhecia a opinião das pessoas sobre este livro mas, mais do que a opinião, eu também já conhecia a recusa das pessoas a estas histórias. Das pessoas? Das pessoas que eu conheço. Por um momento, pensei se, se deveria levantar a cabeça, rodá-la e expressar-me. Folheei mais umas páginas. Levantei a cabeça. Rodei-a.
— É um bom livro, mas é um livro difícil — girei um pouco o meu tronco na direcção daquela mulher e guiei o meu indicador até muito perto do livro que ela segurava, para que, não tivesse dúvidas de que eu me lhe dirigia. — Já li e gostei muito mas nem todas as pessoas gostam — levantei os olhos na sua direcção e. Era uma mulher bonita, mas que, não conseguiu esconder o seu espanto pela minha abordagem. Por um instante, ela, levantou os olhos em frente, voltou a olhar para o livro que prendia na mão e, por fim, tornou-me a fitar, medindo o carácter da minha solicitude.
— Já leu? — inquiriu, revelando alguma timidez, talvez não. Talvez, só, gestos apreensivos.
— Sim, há poucas semanas. Como disse, gostei muito. Mas conheço muitas pessoas que são incapazes de ler uma história destas — as pessoas que eu conheço. As pessoas que eu conheço. —  Por isso, talvez, deva saber que é uma história difícil. Já leu algum livro desta autora? — eu precisava de saber se estava a falar de mais, ou não.
— Não. Mas está com quarenta por cento de desconto. É barato. Eu só ando a ver os livros com maior desconto, não sei se são bons ou não —  e corou.
Eu devo ter esbugalhado os olhos. Ai os saldos, ai os saldos. Não interessa o tamanho, a cor, a estação, está em saldo!
— Isso reduz-lhe um bocado a escolha. Mas já leu a sinopse desse livro?
— Não. Estava a ler sobre a autora — e mostrou-me a badana do livro, aparentando, ainda, uma postura cautelosa. Era uma mulher bonita, com uns olhos de tons escuros, brilhantes. Tinha o cabelo preto e apanhado, que, solto, lhe devia cair até meio do dorso, desprotegendo-lhe as suaves linhas da sua face, um queixo nitidamente feminino, frágil. A pele era clara, o que, contrastando com o seu cabelo escuro, lhe realçava a beleza.
— É uma professora de crianças com necessidades especiais, ou provenientes de famílias problemáticas  —  confirmei. — Aconselho-a a ler a sinopse do livro e, depois, deve conseguir decidir — sugeri, sorrindo ligeiramente e, rodando o tronco para fora, voltei a baixar os olhos para a "Crónica dos bons malandros". Simultaneamente, o gesto dela. Virou o livro para a contracapa.
— É melhor. Obrigada - revelando uma voz já mais descontraída.
Eu estava a tentar voltar a concentrar-me nos bons malandros. Ai os bons malandros, os bons malandros. Um minuto. Pessoas numa loja de grande consumo. Folheavam livros. Os sons das pessoas a procurar livros. 
Livros fora do lugar.
— Parece-me interessante! — Sem me virar, levantei o sobrolho. Aguardei. Segundos. Ela. Murmurou.
— Para mim é — disse, enquanto levantava de novo a cabeça. — Se a senhora se interessar por psicologia , sociologia e afins é muito interessante. Se trabalhar na área ou com crianças também.
 Nem por isso, mas acho que vou levar — os seus olhos adquiriram um brilho cândido que, até hoje, ainda só encontrei numa mulher que também seja mãe. Já é preciso conhecer algo, aquele brilho. Algo.
– Tem a certeza? Olhe que vai ser difícil aguentar emocionalmente os actos bárbaros descritos. É a história de uma menina de seis anos que atou um rapaz de três anos a uma árvore e lhe pegou fogo. Uma menina, abandonada numa estrada pela mãe, e vítima de maus tratos pelo pai. Tem a certeza? — eu não estava convencido de que aquela mulher quisesse mesmo ler aquele livro.
— A sério?? Isso é horrível. Mas é um romance, não é? — perguntou num tom inocente. Por esta altura eu fiquei um bocado atrapalhado. Aquela mulher não tinha lido a sinopse do livro. Não sei o que tinha feito, enquanto me disse que ia ler a sinopse do livro.
— Não, é verídico! — repliquei num tom catastróficamente metafórico— Aconteceu mesmo. Como disse antes, este livro é baseado numa história verídica. Não é a brincar. Por isso é que a maioria das pessoas, que conheço, não pretende ler este livro.
— É capaz de ter razão. Afinal, acho que não vou levar.
— Atenção, eu não estou a dizer para levar ou não levar. Mas como li o livro, só estou a expor o meu testemunho.
— Obrigada — sorriu - Não vou levá-lo.
Abri os braços e a palma da mão que estava livre.
Okey — e voltei a baixar os olhos concentrando-me nos bons malandros.
Comecei a ler um novo parágrafo, a tentar pegar-lhe o ritmo e o estilo. Percorri algumas linhas, concentrado na vontade de, também eu, aproveitar os saldos. Não estava a ficar convencido e comecei a perder a leitura. Ao meu lado uma mulher. Demovido da leitura voltei a tomar consciência das coisas à minha volta. Pessoas numa loja. Muitas pessoas. Os saldos. Os livros em saldo. Páginas. Páginas. E. Ao meu lado uma mulher. Estava a fazer aqueles barulhos de mulher que, só as mulheres discretas sabem fazer: expirava um pouco mais forte, colocava e tirava livros da estante, mais uma vez, e outra vez, e mais uma vez, uns gemidos, murmurava qualquer coisa, uma canção, baixinho. E eu que não estava convencido. Coloquei os bons malandros de volta na estante, quando, uma mulher, bonita, de cabelos escuros e de pele clara, de feições suaves, me interpelou.
— E este? — apontou para o primeiro livro da estante. — Estou a pensar levar este — e esperou pela minha reacção.
Foi a minha vez: levantei a cabeça e os olhos em frente, voltei a baixa-los, olhei para a capa dos bons malandros e, depois, para o livro para o qual ela apontava. Na capa, um dragão. Fogo.
— Não conheço. Ainda não li. Mas está com quarenta por cento de desconto, caso goste do género.
— Estou indecisa.... — murmurios.
Ai, ai. Está indecisa??? Claro que está indecisa. Qualquer mulher nos saldos é indecisa. Não só isso. Distanciei-me um pouco da estante e, verifiquei todos os livros que, ali, estavam com quarenta por cento de desconto.
— Olhe, tem esse livro, e tem mais aqueles dois ali, com quarenta por cento de desconto...... — interrompeu-me.
— Mas acha que este é bom? — corou.
— Não sei, como disse ainda não o li - repliquei num tom suave. Peguei num exemplar, virei para a contra capa e li a sinopse, em voz alta, encarnando o papel de narrador de uma história de ficção fantástica, o género do livro. Gesticulei heroicamente. Por fim, sorri oferecendo-lhe o livro.
— Aqui está, se for o seu género.
Ai, se eu fosse um bom malandro, um bom malandro.
– Como disse, não posso adiantar nada sobre os outros livros nesta estante, porque ainda não os li. Também estou a tentar descobri-los — pensava que assim arrumava a questão. Mais uns segundos. Os barulhos da loja. Outros segundos.
— Devo levar este, está barato — e olhou fixamente nos meus olhos. Esperou. Voltou a corar.
Eu devo ter sorrido um pouco. Sem livros na mão consegui gesticular um pouco mais, frisando o meu ponto de vista.
— Eu não sei se este livro é bom ou não — gestos. — Mas se a senhora está à procura de bons livros com quarenta por cento de desconto, lá em cima — apontei lá para cima — pareceu-me que os livros do Ken Follet também têm quarenta por cento de desconto — gestos, gestos. — Também nunca li, mas acho que está está a ter muito sucesso e muitas pessoas gostam. Talvez seja mais seguro? — inspirei fundo e, numa postura afável finalizei. — Não sei......... a senhora há-de saber certamente do que gosta.
— Não conheço.
— Está lá em cima.
— Sim, se calhar vou ver. Obrigada! Muito obrigada! — e sorriu.
Encolhi os ombros. Reparei que me olhou de soslaio, com uma expressão indecifrável, mas nada incómoda.
— Okey, boa sorte — sorri.
— Adeus.
— Adeus.

Percorri outras prateleiras, outros descontos, outros livros. Como que influenciado pela conversa anterior, decidi comprar um outro livro da mesma autora de "A criança que não queria falar". Só tinha vinte por cento de desconto. Não faz mal. Subi as escadas rolantes. Enquanto me dirigia para a caixa, uma mulher. Bonita. Folheava alguns livros. Tinha as mãos e os braços singelos, os cabelos ......., a pele ....., uns olhos ......., brilhantes. Tinha o cabelo apanhado, que, solto, ........as linhas suaves da sua face, um queixo feminino, frágil. Tinha um livro do Ken Follet na mão. Sorri para mim. Ai se eu fosse um bom malandro, um bom malandro. Continuei até à caixa. Na minha mão, "Os filhos do afecto".

Terminei de ler este livro. Eu gostaria que aquela mulher tivesse razão, e que, esta história fosse um romance, uma ficção. Eu gostaria que todas as palavras impressas fossem apenas e apenas um produto da imaginação de uma escritora imensurávelmente criativa, excessivamente afastada da realidade. Mas todas aquelas palavras são verdadeiras, são uma realidade, que me custa, que te custa. Se a maioria de vocês se recusa, ou prefere, não ler este tipo de livros, alegando factos inconvenientemente cruéis, indolentes, atrozes, é porque, de algum modo, se refugiam nas leituras mais reconfortantes e apaziguadores. Afinal, não é, em certa parte, a leitura uma forma de nos transportar, por momentos, para longe, longe de uma realidade de onde já nos tentamos refugiar? Por vezes. Muitas vezes. Mas nem sempre. Este livro é fantástico e, só me pode ajudar a ser, ainda mais, consciente da iniquidade de uma realidade que desconheço pessoalmente, mas que, não posso ignorar. O livro está extremamente bem urdido: é uma descrição singular, detalhada e profundamente tocante de um universo que, até hoje, não chocou com o meu, felizmente. Contem-me as histórias das crianças problemáticas, das famílias problemáticas e das escolas com crianças problemáticas oriundas de famílias problemáticas. Contem-me as histórias das crianças com deficiências, dificuldades, nascidas em famílias inocentes, de pais honestos e trabalhadores e que, não mereciam tamanha injustiça, tal destino indelével. Injustiça. Merecer. Aqui estão dois conceitos demasiado aleatórios e descoordenados do amor e da grandeza humana. Desalinhados. Merecer: parece-me uma palavra desmedidamente romântica ou, talvez, excessivamente alinhada com um sentimento de frustração: em busca de um vago conforto, um conceito desmarcadamente pueril, ilusório, fantasmagórico. E se, lerem este livro, aprenderão muito sobre a beleza humana, porque aquelas crianças que merecem, mas não têm, não conseguem, ou não podem, têm muito para vos ensinar, para me ensinar. Muitas malandrices. Muitas boas malandrices. Ai os bons malandros, os bons malandros. És capaz de ser um bom malandro? Queres ser? Infelizmente, para sermos um bom malandro, não nos basta merecer.

Sinopse em "Os filhos do afecto" de Torey Hayden (Editorial Presença):

"Depois de A Criança Que Não Queria Falar e A Menina Que Nunca Chorava, Torey Hayden regressa às lides literárias com casos de crianças problemáticas. Agora não é uma, mas são quatro as situações de meninos que sofrem desequilíbrios emocionais e que Hayden ajudou a ultrapassar e a transformar numa família coesa através da entreajuda e da partilha de experiências. As crianças foram deixadas ao seu cuidado porque mais ninguém queria lidar com a sua diferença. O grupo era composto por um rapaz autista que repetia as palavras das outras pessoas e nada mais dizia, uma menina de sete anos com danos cerebrais provocados por maus tratos familiares, um menino de dez anos traumatizado por ter visto a madrasta matar o pai e uma rapariga de doze anos que foi expulsa de uma escola católica quando ficou grávida. Com a ajuda da professora Torey Hayden, estas crianças conheceram o poder do amor e encontraram uma estrutura sólida sobre a qual se puderam desenvolver saudavelmente."

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