terça-feira, 3 de janeiro de 2017

Liliana

Pode-se dizer que ainda não estou recomposto da noite de passagem de ano. O facto é que ainda não percebi se tudo é fruto da minha imaginação se real. Estou no limbo. Seja uma alucinação pintada na tela do Universo pelas cores do fogo de artificio, a realidade projetada pelas cores mirabolantes das luzes da festa a simular as cores do fogo de artificio, uma obsessão sentimental recalcada, um simples efeito nostálgico incendiado pelo copos, ou ainda um pouco de tudo, a verdade é que não durmo há duas noites. Já estávamos em 2017. Festejávamos com copos na mão cheios de champanhe, depois de bebidas brancas ou de cerveja. Já abraçávamos os que conhecíamos, os que conhecemos, os que ainda não conhecíamos e mesmo os que nunca chegámos a conhecer sem ser nas fotografias guardadas na máquina do João. Eu tinha ido buscar duas cervejas ao balcão e foi então. Os seus contornos. Os ombros. O cabelo cor de avelã. Pelos ombros. Liso. Solto. Mágico. De perfil. O rosto. Macio. Gentil. Ela. Liliana.  Como disse, talvez a panóplia de luzes a imitar a paisagem do universo me tenha enganado. Mas. Era ela, a grande paixão mas também todos os problemas da minha adolescência. Só podia ser ela. Ainda a segui para a descobrir mas um toque no braço, por um qualquer  homem que dançava tal e qual como os jogadores de rugby da Nova Zelândia mas que tinha cara de jogador de xadrez, fez-me entornar a cerveja de um copo  e nessa distracção perdi-a. Na verdade, a Liliana é a minha grande paixão platónica. Essas paixões imaginárias da adolescência que nada melhor são do que  assim permanecerem, ilusões que nos mantêm a esperança de que afinal as mulheres não são todas iguais.
Num dia ameno de primavera quando ainda andávamos no secundário, num dos intervalos entre aulas aborrecidas de matemática e de história, ainda lhe acenei com a mão, como a pedir-lhe autorização para a conhecer. Ela viu. Penso que sorriu, não sei. Sei que baixou um bocadinho a cabeça e depois olhou para o lado. Claro que eu fiquei parvo e estático. E acho que ela ainda voltou a olhar para mim e depois começou a falar com uma amiga. Eu devo ter continuado parvo e estático a olhá-la até ao toque de entrada. No mesmo dia, nos corredores do principal edifico da escola, passámos perto um do outro, em direcções opostas. Era um bom momento para os nossos olhos se cruzarem e para eu ganhar confiança para numa próxima ocasião meter conversa com ela. Em vez disso os macaquinhos soltaram-se do sótão  e eu comecei a sentir cambalhotas no estômago e as pernas a tremer e depois.... depois nem me lembro. Era uma rapariga discreta mas presente e que tinha um sorriso bonito, daqueles que sorriem com os lábios, os dentes, os olhos, a face e os cabelos. Não consigo explicar o que me atraía nela mas gosto de pensar que o que me fascinava era o seu brilho cósmico. E como ficar indiferente a essa imensidão? 
Depois da escola secundária fomos para a Universidade. Nunca soube para onde ela foi estudar. Na altura, a Inês disse-me que pensava que ela tinha ido para Braga. Eu estava em Faro! Mais longe seria difícil. Mas isso também não interessa porque mesmo que pudesse provavelmente não ganharia mais coragem do que aquele dia em que lhe acenei um adeus na nossa escola secundária. Durante os dois primeiros anos da Universidade fui todos os fins de semana à nossa terra para ver se a via, o que só aconteceu uma única vez, à noite, num bar, mas ela pareceu-me triste. Não lhe descobri o brilho. Em vez, pareceu-me uma só  partícula cósmica num recanto escuro e longínquo do Universo, o que me criou maior fascínio! Tudo! Assim ela podia ser tudo, uma imensidão de lugares por descobrir e por desvendar, de mistérios insondáveis, de aventuras vernianas! Mas também podia ser apenas um lugar pequeno do Universo, único, de contornos e sentimentos singulares como toda uma energia concentrada num pequeno ponto! Ela era a minha princesa Leia! Nessa noite disse para mim próprio que iria conhece-la. Respirei fundo três vezes. Disse. É agora! Dei um passo. Dei outro passo. E a Liliana levantou-se, acenou um adeus aos amigos que acompanhava e saiu de repente! E eu... nem me lembro. Desde essa noite que nunca mais a tinha visto, a não ser nesta passagem de ano. Agora sei que os próprios pais se mudaram quando fomos para a Universidade. Mas nunca pensei que após tantos anos, após duas namoradas e um casamento falhado, ainda vivesse assombrado, ou iluminado?, pelo brilho cósmico da Liliana. Finda esta estória, desejo a todos um bom ano novo! Um bom ano de 2017! Será que por alguma razão  imperscrutável do Universo a Liliana lê o meu blogue? Liliana?

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