sexta-feira, 21 de setembro de 2012

Se Isto é Um Homem


Em 2009 li o livro “O Século XX Esquecido” - Tony Judt - no qual o autor dedicou um capítulo à selecção das pessoas que, na sua análise, definiram, ou contribuíram de forma extraordinária, a passagem do último século. Entre elas, estava Primo Levi. Eu, que nunca tinha lido Primo Levi, e que pouco, ou quase nada sabia, posso hoje compreender esta escolha. E posso, também, afirmar que concordo. Primo Levi, terá sido, eventualmente, o expoente máximo da descrição da alma humana, na sua situação mais deprimente. O seu depoimento, sobre um campo de trabalho e de extermínio nazis, é uma obra que pretende, não julgar a guerra e os seus intervenientes, mas pelo contrário, ser um relato sincero, lucido, transparente, dos meandros da alma humana na sua situação extrema de infelicidade. É, mais que tudo, uma obra de compreensão humana. E susto, susto desta vez não são as atrocidades cometidas, as injustiças, porque essas todos já conhecemos, mas, é para mim, a semelhança do funcionamento da alma na vida no campo, assim como, cá fora, aqui, onde tu e eu estamos, onde tu e eu vivemos. E susto, susto é a capacidade, eloquência, e o discernimento de um homem, sobre condição extrema de sobrevivência.

Em “Se Isto é Um Homem” de Primo Levi (Edições Teorema):

“Se fôssemos capazes de raciocinar, deveríamos resignar-nos a esta evidência, de que o nosso destino é perfeitamente impossível de conhecer, de que qualquer conjectura é arbitrária e perfeitamente carente de qualquer fundamento real. Mas os homens só muito raramente são capazes de raciocinar quando o que está em jogo é o seu próprio destino; preferem em todos os casos as posições extremas; por isso, conforme os caracteres, entre nós uns convenceram-se imediatamente de que tudo está perdido, que aqui não é possível viver e que o fim é inevitável e próximo; outros convenceram-se de que, da extrema dureza da vida que nos espera, a salvação é provável e não está longe e, se tivermos fé e força, voltaremos a ver as nossas casas e as pessoas amadas. As duas posições, dos pessimistas e dos optimistas, não são porém tão distintas: não porque os agnósticos sejam muitos, mas porque a maioria, sem memória e sem coerência, oscila entre as duas posições-limite, conforme o interlocutor e o momento.”

“Toquei no fundo. A apagar o passado e o futuro aprende-se muito rapidamente, se a necessidade empurra.”

“Empurro vagões, trabalho com a pá, canso-me à chuva, tremo ao vento; até o meu próprio corpo já não me pertence: tenho o ventre inchado e os membros emagrecidos, o rosto inchado de manhã e encovado à noite; alguns entre nós têm a pele amarela, outros cinzenta; quando ficamos sem nos ver por três ou quatro dias, temos dificuldades em reconhecer-nos.”
“Tínhamos decidido encontrar-nos, os italianos, todos os domingos à noite num canto do Lager; mas desistimos rapidamente, porque era demasiado triste voltarmos a encontrar-nos cada vez menos numerosos, mais deformados, mais macilentos. E era tão cansativo dar aqueles poucos passos; e, para além disso, reencontrar-nos significaria recordar e pensar, e era melhor não o fazer.”

“Tenho de confessar: depois de uma semana como prisioneiro, desapareceu dentro de mim o instinto de limpeza. Vagueio sem energia pelo lavatório, e aparece Steinlauf, o meu amigo de cerca de cinquenta anos, nu até à cintura, que esfrega o pescoço e as costas com escasso êxito (não tem sabão) mas com extrema energia. Steinlauf vê-me e cumprimenta-me, e sem meias medidas pergunta-me com severidade porque é que não me lavo. Porque é que deveria lavar-me?, estaria melhor do que estou?, alguém gostaria mais de mim?, iria viver mais um dia, mais uma hora? Pelo contrário, iria viver menos, porque lavar-se é um trabalho, um gasto de energia e de calor. Não sabe ele que, passada meia hora trabalhando com sacos de carvão, qualquer diferença entre nós desaparecerá? Quanto mais penso nisto, mais me convenço de que lavar a cara nas nossas condições é uma coisa inútil, fútil até: um hábito mecânico ou, pior ainda, uma lúgubre repetição de um rito extinto. Vamos morrer todos, estamos prestes a morrer: se me sobrarem dez minutos entre o acordar e o trabalho, quero dedica-los a outras coisas, fechar-me em mim próprio, fazer o balanço, ou então olhar o céu e pensar que talvez esteja a vê-lo pela última vez, ou mesmo só deixar-me viver, conceder-me o luxo de um breve ócio.”

No início da Primavera:
“Hoje, é um bom dia. Olhamos em redor, como cegos que readquirimos a vista, e olhamos uns para os outros. Nunca nos tínhamos visto ao sol: alguém sorri. Se não fosse a fome!
Pois a natureza humana é feita de tal forma, que os sofrimentos e as dores que acontecem ao mesmo tempo não se somam inteiramente na nossa sensibilidade, mas escondem-se, os menores atrás dos maiores, segundo uma lei prospectiva definida. Isto é providencial e permite-nos viver no campo. E é esta também a razão pela qual tantas vezes, na vida livre, se ouve dizer que o homem é insaciável: pelo contrário, mais do que uma incapacidade humana para um estado de bem-estar absoluto, trata-se de um conhecimento sempre insuficiente da natureza complexa do estado de infelicidade, pelo que às suas causas, que são múltiplas e hierarquicamente dispostas, se dá um único nome: o da causa maior; até que esta venha eventualmente a faltar, e então fica-se dolorosamente surpreendido ao ver que atrás dela existe outra; e, na realidade, uma série de outras. Por isso, logo que o frio que durante todo o inverno nos parecera o único inimigo, cessou, apercebemo-nos de que tínhamos fome: e, repetindo o mesmo erro, assim hoje dizemos: «Se não fosse a fome!...»”

“Se um Null Achtzehn qualquer vacilar, não encontrará quem lhe estender a mão, mas sim alguém que o deitará abaixo….; se alguém, com um milagre de paciência selvagem e astúcia, encontrar uma nova combinação para escapar ao trabalho mais duro, uma nova artimanha que lhe proporcione alguns gramas de pão, procurará manter secreta a forma como o conseguiu,……., será um candidato à sobrevivência.
Na história e na vida, parece às vezes vislumbrar-se uma lei feroz, segundo a qual «dar-se-á a quem tiver; tirar-se-á a quem não tiver». No Lager, onde o homem está só e a luta pela vida se reduz ao seu mecanismo primordial, a lei iníqua está abertamente em vigor, é reconhecida por todos. Com os aptos, com os indivíduos fortes e astutos, os próprios chefes gostam de manter contactos, que chegam a ser de quase camaradagem, pois esperam poder tirar, talvez mais tarde, algum proveito. Mas aos Muselmanns (os velhos do campo designados fracos e ineptos, votados à selecção) aos homens em fase de degradação, não vale a pena dirigir palavra, pois já se sabe que começariam a queixar-se e a contar o que costumavam fazer em casa….. E, finalmente, sabe-se que estão aqui de passagem e, dentro de poucas semanas, deles ficará apenas um punhado de cinzas num campo não muito longe daqui, e um número de matricula riscado num livro de registo.”

“Sucumbir é o mais simples: basta cumprir todas as ordens que se recebem, comer só a ração, obedecer à disciplina do trabalho e do campo. E experiência demonstrou que só em casos excepcionais, desta forma, se pode durar para além de três meses.”

“Da mesma forma com que se vê acabar uma esperança, assim hoje de manhã cegou o Inverno. Apercebemo-nos ao sair da barraca para nos irmos lavar: não havia estrelas, o ar escuro e frio cheirava a neve. Na Praça da chamada, à primeira luz, quando nos juntámos para irmos trabalhar, ninguém falou. Quando vimos os primeiros flocos de neve, pensámos que, se no ano passado por esta altura nos tivessem dito que iríamos ver mais um Inverno no Lager, nos teríamos atirado contra o arame farpado electrificado; e que mesmo agora o faríamos, se fôssemos lógicos, se não fosse este insensato e louco resíduo de esperança inconfessável.”

“Então, pela primeira vez nos apercebemos de que a nossa língua carece de palavras para exprimir esta ofensa, a destruição de um homem. Num ápice, com uma intuição quase profética, a realidade revela-se-nos: chegámos ao fundo. Mais do que isto, não se pode ir: não há nem se pode imaginar condição humana mais miserável. Já nada nos pertence: tiraram-nos a roupa, os sapatos, até os cabelos; se falarmos, não nos escutarão e, se nos escutassem não nos perceberiam. Tirar-nos-ão também o nome: se quisermos conservá-lo, teremos de encontrar dentro de nós a força para o fazer, fazer com que, por trás do nome, algo de nós como éramos, ainda sobreviva.”

“Imagine-se agora um homem ao qual, juntamente com as pessoas amadas, tiram a casa, os hábitos, a roupa, enfim, tudo, literalmente tudo quanto possui: será um homem vazio, reduzido ao sofrimento e à carência, esquecido da dignidade e bom senso, pois acontece facilmente, a quem tudo perdeu, perder-se a si próprio; reduzido a tal ponto, que outros poderão sem problemas de consciência decidir da sua vida ou da sua morte para além de qualquer sentido de afinidade humana; no caso mais optimista, na base de uma mera avaliação de utilidade. Compreender-se-á então o duplo significado da expressão «campo de extermínio», e será claro o que entendemos exprimir com esta frase: jazer no fundo.”

“Todos descobrem, mais tarde ou mais cedo na vida, que a felicidade perfeita não é realizável, mas poucos se detêm a pensar na consideração oposta: que também a infelicidade perfeita é, igualmente, não realizável. Os momentos que se opõem à realização de ambos os estados-limite são da mesma natureza: derivam da nossa condição humana, que é inimiga de tudo o que é infinito. Opõe-se-lhe o nosso sempre insuficiente conhecimento do futuro; e a isto se chama, num caso, esperança; no outro, incerteza do amanhã. Opõe-se-lhe a certeza da morte, que impõe um limite a qualquer alegria, mas também a qualquer dor. Opõem-se-lhe as inevitáveis preocupações materiais que, assim como poluem qualquer felicidade duradoura, também distraem assiduamente a nossa atenção da desgraça que paira sobre nós e tornam fragmentária, e por isso mesmo, suportável, a consciência dela.
Foram precisamente as privações, as pancadas, o frio, a sede, que não nos deixaram afundar no vazio de um desespero sem fim, durante a viagem e depois. Não a vontade de viver, nem uma resignação consciente: pois são poucos os homens capazes disso, e nós mais não éramos que uma vulgar amostra de humanidade.”

sábado, 1 de setembro de 2012

Os Filhos do Afecto

Era Abril, e eu estava numa loja de grande consumo. Eu estava na Fnac do Chiado. Antecipando a realização da Feira do Livro, e numa acção de malabarismo comercial, havia a própria feira do livro da Fnac. Bastava descermos as escadas rolantes e lá estavam todos os livros etiquetados, com uma qualquer percentagem de desconto. No centro de uma estante, um livro, que eu tinha lido recentemente, "A  criança que não queria falar", e que, sobre, já vos escrevi neste blogue. Ao lado, a "Crónica dos bons malandros", de Mário Zambujal. Ainda não li. Peguei. Folheei. Ai os bons malandros, os bons malandros. Entre páginas. Uma mão, um braço. Singelos. Alcançaram um exemplar de "A criança que não queria falar". Eu. Já conhecia a opinião das pessoas sobre este livro mas, mais do que a opinião, eu também já conhecia a recusa das pessoas a estas histórias. Das pessoas? Das pessoas que eu conheço. Por um momento, pensei se, se deveria levantar a cabeça, rodá-la e expressar-me. Folheei mais umas páginas. Levantei a cabeça. Rodei-a.
— É um bom livro, mas é um livro difícil — girei um pouco o meu tronco na direcção daquela mulher e guiei o meu indicador até muito perto do livro que ela segurava, para que, não tivesse dúvidas de que eu me lhe dirigia. — Já li e gostei muito mas nem todas as pessoas gostam — levantei os olhos na sua direcção e. Era uma mulher bonita, mas que, não conseguiu esconder o seu espanto pela minha abordagem. Por um instante, ela, levantou os olhos em frente, voltou a olhar para o livro que prendia na mão e, por fim, tornou-me a fitar, medindo o carácter da minha solicitude.
— Já leu? — inquiriu, revelando alguma timidez, talvez não. Talvez, só, gestos apreensivos.
— Sim, há poucas semanas. Como disse, gostei muito. Mas conheço muitas pessoas que são incapazes de ler uma história destas — as pessoas que eu conheço. As pessoas que eu conheço. —  Por isso, talvez, deva saber que é uma história difícil. Já leu algum livro desta autora? — eu precisava de saber se estava a falar de mais, ou não.
— Não. Mas está com quarenta por cento de desconto. É barato. Eu só ando a ver os livros com maior desconto, não sei se são bons ou não —  e corou.
Eu devo ter esbugalhado os olhos. Ai os saldos, ai os saldos. Não interessa o tamanho, a cor, a estação, está em saldo!
— Isso reduz-lhe um bocado a escolha. Mas já leu a sinopse desse livro?
— Não. Estava a ler sobre a autora — e mostrou-me a badana do livro, aparentando, ainda, uma postura cautelosa. Era uma mulher bonita, com uns olhos de tons escuros, brilhantes. Tinha o cabelo preto e apanhado, que, solto, lhe devia cair até meio do dorso, desprotegendo-lhe as suaves linhas da sua face, um queixo nitidamente feminino, frágil. A pele era clara, o que, contrastando com o seu cabelo escuro, lhe realçava a beleza.
— É uma professora de crianças com necessidades especiais, ou provenientes de famílias problemáticas  —  confirmei. — Aconselho-a a ler a sinopse do livro e, depois, deve conseguir decidir — sugeri, sorrindo ligeiramente e, rodando o tronco para fora, voltei a baixar os olhos para a "Crónica dos bons malandros". Simultaneamente, o gesto dela. Virou o livro para a contracapa.
— É melhor. Obrigada - revelando uma voz já mais descontraída.
Eu estava a tentar voltar a concentrar-me nos bons malandros. Ai os bons malandros, os bons malandros. Um minuto. Pessoas numa loja de grande consumo. Folheavam livros. Os sons das pessoas a procurar livros. 
Livros fora do lugar.
— Parece-me interessante! — Sem me virar, levantei o sobrolho. Aguardei. Segundos. Ela. Murmurou.
— Para mim é — disse, enquanto levantava de novo a cabeça. — Se a senhora se interessar por psicologia , sociologia e afins é muito interessante. Se trabalhar na área ou com crianças também.
 Nem por isso, mas acho que vou levar — os seus olhos adquiriram um brilho cândido que, até hoje, ainda só encontrei numa mulher que também seja mãe. Já é preciso conhecer algo, aquele brilho. Algo.
– Tem a certeza? Olhe que vai ser difícil aguentar emocionalmente os actos bárbaros descritos. É a história de uma menina de seis anos que atou um rapaz de três anos a uma árvore e lhe pegou fogo. Uma menina, abandonada numa estrada pela mãe, e vítima de maus tratos pelo pai. Tem a certeza? — eu não estava convencido de que aquela mulher quisesse mesmo ler aquele livro.
— A sério?? Isso é horrível. Mas é um romance, não é? — perguntou num tom inocente. Por esta altura eu fiquei um bocado atrapalhado. Aquela mulher não tinha lido a sinopse do livro. Não sei o que tinha feito, enquanto me disse que ia ler a sinopse do livro.
— Não, é verídico! — repliquei num tom catastróficamente metafórico— Aconteceu mesmo. Como disse antes, este livro é baseado numa história verídica. Não é a brincar. Por isso é que a maioria das pessoas, que conheço, não pretende ler este livro.
— É capaz de ter razão. Afinal, acho que não vou levar.
— Atenção, eu não estou a dizer para levar ou não levar. Mas como li o livro, só estou a expor o meu testemunho.
— Obrigada — sorriu - Não vou levá-lo.
Abri os braços e a palma da mão que estava livre.
Okey — e voltei a baixar os olhos concentrando-me nos bons malandros.
Comecei a ler um novo parágrafo, a tentar pegar-lhe o ritmo e o estilo. Percorri algumas linhas, concentrado na vontade de, também eu, aproveitar os saldos. Não estava a ficar convencido e comecei a perder a leitura. Ao meu lado uma mulher. Demovido da leitura voltei a tomar consciência das coisas à minha volta. Pessoas numa loja. Muitas pessoas. Os saldos. Os livros em saldo. Páginas. Páginas. E. Ao meu lado uma mulher. Estava a fazer aqueles barulhos de mulher que, só as mulheres discretas sabem fazer: expirava um pouco mais forte, colocava e tirava livros da estante, mais uma vez, e outra vez, e mais uma vez, uns gemidos, murmurava qualquer coisa, uma canção, baixinho. E eu que não estava convencido. Coloquei os bons malandros de volta na estante, quando, uma mulher, bonita, de cabelos escuros e de pele clara, de feições suaves, me interpelou.
— E este? — apontou para o primeiro livro da estante. — Estou a pensar levar este — e esperou pela minha reacção.
Foi a minha vez: levantei a cabeça e os olhos em frente, voltei a baixa-los, olhei para a capa dos bons malandros e, depois, para o livro para o qual ela apontava. Na capa, um dragão. Fogo.
— Não conheço. Ainda não li. Mas está com quarenta por cento de desconto, caso goste do género.
— Estou indecisa.... — murmurios.
Ai, ai. Está indecisa??? Claro que está indecisa. Qualquer mulher nos saldos é indecisa. Não só isso. Distanciei-me um pouco da estante e, verifiquei todos os livros que, ali, estavam com quarenta por cento de desconto.
— Olhe, tem esse livro, e tem mais aqueles dois ali, com quarenta por cento de desconto...... — interrompeu-me.
— Mas acha que este é bom? — corou.
— Não sei, como disse ainda não o li - repliquei num tom suave. Peguei num exemplar, virei para a contra capa e li a sinopse, em voz alta, encarnando o papel de narrador de uma história de ficção fantástica, o género do livro. Gesticulei heroicamente. Por fim, sorri oferecendo-lhe o livro.
— Aqui está, se for o seu género.
Ai, se eu fosse um bom malandro, um bom malandro.
– Como disse, não posso adiantar nada sobre os outros livros nesta estante, porque ainda não os li. Também estou a tentar descobri-los — pensava que assim arrumava a questão. Mais uns segundos. Os barulhos da loja. Outros segundos.
— Devo levar este, está barato — e olhou fixamente nos meus olhos. Esperou. Voltou a corar.
Eu devo ter sorrido um pouco. Sem livros na mão consegui gesticular um pouco mais, frisando o meu ponto de vista.
— Eu não sei se este livro é bom ou não — gestos. — Mas se a senhora está à procura de bons livros com quarenta por cento de desconto, lá em cima — apontei lá para cima — pareceu-me que os livros do Ken Follet também têm quarenta por cento de desconto — gestos, gestos. — Também nunca li, mas acho que está está a ter muito sucesso e muitas pessoas gostam. Talvez seja mais seguro? — inspirei fundo e, numa postura afável finalizei. — Não sei......... a senhora há-de saber certamente do que gosta.
— Não conheço.
— Está lá em cima.
— Sim, se calhar vou ver. Obrigada! Muito obrigada! — e sorriu.
Encolhi os ombros. Reparei que me olhou de soslaio, com uma expressão indecifrável, mas nada incómoda.
— Okey, boa sorte — sorri.
— Adeus.
— Adeus.

Percorri outras prateleiras, outros descontos, outros livros. Como que influenciado pela conversa anterior, decidi comprar um outro livro da mesma autora de "A criança que não queria falar". Só tinha vinte por cento de desconto. Não faz mal. Subi as escadas rolantes. Enquanto me dirigia para a caixa, uma mulher. Bonita. Folheava alguns livros. Tinha as mãos e os braços singelos, os cabelos ......., a pele ....., uns olhos ......., brilhantes. Tinha o cabelo apanhado, que, solto, ........as linhas suaves da sua face, um queixo feminino, frágil. Tinha um livro do Ken Follet na mão. Sorri para mim. Ai se eu fosse um bom malandro, um bom malandro. Continuei até à caixa. Na minha mão, "Os filhos do afecto".

Terminei de ler este livro. Eu gostaria que aquela mulher tivesse razão, e que, esta história fosse um romance, uma ficção. Eu gostaria que todas as palavras impressas fossem apenas e apenas um produto da imaginação de uma escritora imensurávelmente criativa, excessivamente afastada da realidade. Mas todas aquelas palavras são verdadeiras, são uma realidade, que me custa, que te custa. Se a maioria de vocês se recusa, ou prefere, não ler este tipo de livros, alegando factos inconvenientemente cruéis, indolentes, atrozes, é porque, de algum modo, se refugiam nas leituras mais reconfortantes e apaziguadores. Afinal, não é, em certa parte, a leitura uma forma de nos transportar, por momentos, para longe, longe de uma realidade de onde já nos tentamos refugiar? Por vezes. Muitas vezes. Mas nem sempre. Este livro é fantástico e, só me pode ajudar a ser, ainda mais, consciente da iniquidade de uma realidade que desconheço pessoalmente, mas que, não posso ignorar. O livro está extremamente bem urdido: é uma descrição singular, detalhada e profundamente tocante de um universo que, até hoje, não chocou com o meu, felizmente. Contem-me as histórias das crianças problemáticas, das famílias problemáticas e das escolas com crianças problemáticas oriundas de famílias problemáticas. Contem-me as histórias das crianças com deficiências, dificuldades, nascidas em famílias inocentes, de pais honestos e trabalhadores e que, não mereciam tamanha injustiça, tal destino indelével. Injustiça. Merecer. Aqui estão dois conceitos demasiado aleatórios e descoordenados do amor e da grandeza humana. Desalinhados. Merecer: parece-me uma palavra desmedidamente romântica ou, talvez, excessivamente alinhada com um sentimento de frustração: em busca de um vago conforto, um conceito desmarcadamente pueril, ilusório, fantasmagórico. E se, lerem este livro, aprenderão muito sobre a beleza humana, porque aquelas crianças que merecem, mas não têm, não conseguem, ou não podem, têm muito para vos ensinar, para me ensinar. Muitas malandrices. Muitas boas malandrices. Ai os bons malandros, os bons malandros. És capaz de ser um bom malandro? Queres ser? Infelizmente, para sermos um bom malandro, não nos basta merecer.

Sinopse em "Os filhos do afecto" de Torey Hayden (Editorial Presença):

"Depois de A Criança Que Não Queria Falar e A Menina Que Nunca Chorava, Torey Hayden regressa às lides literárias com casos de crianças problemáticas. Agora não é uma, mas são quatro as situações de meninos que sofrem desequilíbrios emocionais e que Hayden ajudou a ultrapassar e a transformar numa família coesa através da entreajuda e da partilha de experiências. As crianças foram deixadas ao seu cuidado porque mais ninguém queria lidar com a sua diferença. O grupo era composto por um rapaz autista que repetia as palavras das outras pessoas e nada mais dizia, uma menina de sete anos com danos cerebrais provocados por maus tratos familiares, um menino de dez anos traumatizado por ter visto a madrasta matar o pai e uma rapariga de doze anos que foi expulsa de uma escola católica quando ficou grávida. Com a ajuda da professora Torey Hayden, estas crianças conheceram o poder do amor e encontraram uma estrutura sólida sobre a qual se puderam desenvolver saudavelmente."

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