domingo, 11 de novembro de 2012

4 de Novembro

Foi há um ano. Um ano. Eu estava de férias, e estava a dormir. Ouvi o telefone algures na madrugada. O meu pai levantou-se e atendeu. E eu ouvi. Eu ouvi. E voltei a adormecer. Já era de manhã e o telefone voltou a tocar. O meu pai voltou a atender. E eu ouvi. Eu ouvi, «O Zé Miguel já nasceu!». E eu, no meu sono de férias, deixei-me dormir. À tarde, fomos para Lisboa, eu, o meu pai e a minha mãe, o Zé Miguel já nasceu! E nós fomos ver o Zé Miguel. Lá no hospital, primeiro, entraram as duas avós. As duas avós. Depois, depois entraram o outro avô e o outro irmão. E, depois, entrámos nós, o meu pai e eu. O meu irmão estava lá e, tentava mudar uma fralda. Sim, tentava! Acho que, conseguiu, mas isso agora não interessa. O meu irmão. O meu irmão já é pai. Pai? O meu irmão, pequenino, como eu, já é pai! Ainda não consigo imaginar. E, apesar de ele já ser pai, ainda não consigo imaginar. O meu irmão, pai. O meu irmão deve ter crescido muito, para já ser pai. Se calhar, se calhar eu também cresci. Mas não consigo imaginar. O Zé Miguel era muito pequenino, muito pequenino. Lembro-me bem de, abrir a palma da mão e, de perceber que o Zé Miguel era mesmo mesmo mesmo muito pequenino muito pequenino. Eu tive algum, um pouco, muito medo em o segurar. Os meus dedos não tinham perícia para aquele menino tão pequenino. E, depois, depois acho que tenho uma fotografia em que, em que aparento um pouco, um bocado, muito assustado. Hoje, o Zé Miguel é muito grande, muito grande! Tão grande! Hoje o Zé Miguel tem um ano! Um ano! Já?! Já tem um ano? O Zé Miguel já tem um ano e, eu, ainda não consigo imaginar que o meu irmão é pai?! Pai! Há um ano! Passou tão depressa. E ainda só passou um. Os nossos pais tinham razão, nós crescemos num instante. Hoje, há uma festa para o Zé Miguel! Hoje, estão todos reunidos, para a festa do Zé Miguel. Devem lá estar os avós do Zé Miguel. Devem lá estar os outros familiares do Zé Miguel. Devem lá estar os amigos dos pais do Zé Miguel. E, claro, devem lá estar os amigos do Zé Miguel. Sim, o Zé Miguel já tem amigos. São os outros bebés, dos amigos dos pais do Zé Miguel. Muitos amigos. Mas acho que, o Zé Miguel, nada melhor do que eles! Ah! Sim, o Zé Miguel gosta de nadar! Gosta muito de água, gosta muito. Imagino a festa hoje lá em casa. O Zé Miguel deve estar muito bonito, porque a mãe do Zé Miguel gosta muito de ver o filho bonito. E só veste o filho muito bonito. O Zé Miguel é muito alegre muito alegre. Há bocado, telefonei para o meu irmão e dei-lhe os parabéns. E ele, ele disse que o Zé Miguel está muito animado, muito animado! Não é por ser meu sobrinho mas, o Zé Miguel, é um bebé muito bonito. É lourinho e tem olhinhos azuis. Olhos grandes muito grandes.......«......é para ver melhor...», diz a história. Eu, hoje, não posso estar na festa do Zé Miguel, porque, estou muito longe. É, por isso que, tenho tempo de escrever este texto. Porque, o Zé Miguel está muito longe. Eu gostava muito de estar lá. Mas estou muito longe. Assim, imagino o Zé Miguel muito alegre. Não é difícil imaginar o Zé Miguel muito alegre porque, o Zé Miguel é mesmo muito alegre. Não o vejo há um mês. Não é muito tempo, ainda bem. Por isso, lembro-me bem que é muito alegre. Eu penso que, quando voltei a Portugal, de férias, depois de estar há quatro meses e meio fora, o Zé Miguel não me reconheceu. Quando cheguei, ele olhou para mim muito interrogativo e, depois, depois olhou para o meu irmão, como se estivesse a perguntar quem é este gajo?, e depois, depois voltou a olhar para mim. Eu aproveitei para brincar com o Zé Miguel enquanto lá estive. Eu acho que tive sorte! Porque acho que, o Zé Miguel começou a gatinhar quando eu lá cheguei. E ficámos todos muito muito contentes! Passados alguns dias, desconfio que, o Zé Miguel já me reconhecia. E eu, eu também já o conhecia. Ele, está a ficar muito malandro. Mesmo muito malandro. Eu acho que, ele, já percebia o que nós lhe dizíamos mas, fingia não ouvir nada. Como eu disse, ele é muito muito malandro.
Será que ele me vai reconhecer quando eu voltar nas férias do Natal? São só dois meses de diferença. Talvez me reconheça. Ou talvez não. O Zé Miguel está a crescer muito rápido e, depois das férias do Natal, eu ainda não sei quando volto a Portugal. E, se eu só voltar passados muitos meses, sei lá, uns oito ou nove, ou mesmo doze meses? Então, não me deverá mesmo reconhecer. E eu, irei reconhece-lo? E, se eu voltar passados quatro meses? Será que, nestas férias do Natal, ele começará a andar? Ou ainda não? Se não, provavelmente, depois, quando o voltar a ver, já saberá andar. E falar? Será que, quando eu voltar para o ano, ele já consegue falar? Muito? Uma criança é uma coisa incrível, não é? Estou a imaginar o Zé Miguel hoje, com um capacete de cartão em cone na cabeça, muito muito feliz. Um capacete de cartão em cone na cabeça? Que ideia tão ridícula! Mas eu estou muito muito longe e tenho de imaginar qualquer coisa. O meu irmão disse-me que iria filmar o Zé Miguel hoje e, que, depois, me enviaria os vídeos. Yeah! E será que, o Zé Miguel vai ter um irmão para brincar? Ou uma irmã? Depois vão sempre e sempre a andar a implicar um com o outro, como eu andava com o meu irmão. Até crescerem. Até crescerem. O Zé Miguel já foi à escola. É muito curioso. Olha para tudo, para tudo. Abre muito os olhos, e olha para tudo. É o Zé Miguel. Será que, daqui a uma ano, vou estar na festa do Zé Miguel ou, será que, vou telefonar outra vez? Se telefonar, será que o Zé Miguel já me consegue perceber? «Tou, Zé Miguel, sabes quem fala?! Zé Miguel, parabéns!» Mas ,daqui a um ano, o Zé Miguel, ainda deve estar bem mais malandro do que está hoje. Já estou mesmo a imaginar, quando ele crescer ainda mais, malandro muito malandro. Aposto que, até, um bom malandro. Sim, um bom malandro. E eu, depois eu, sem saber o que lhe dizer, lá sai um...... «Zé Michael, vai estudar malandro...... vai estudar malandro!»

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