quinta-feira, 10 de agosto de 2017

Ana Karenina

Depois da fantasia ficcional aventurei-me no realismo literário, puro e duro! Nada mais nada menos, pelo que dizem os entendidos, do que um dos grandes clássicos da literatura. Anteriormente eu já tinha tentado ler o Guerra e Paz do Tolstoi, mas desisti pela que, na altura, me pareceu uma excessiva descrição conciliada a uma prolongada inação. Então, porque não tentar agora com Ana Karenina?
Se, na verdade, eu estava à espera de encontrar, em Ana, daquelas personagens míticas, com a leitura percebi que não. Não. Para mim Ana não é aquela personagem mítica. Mas não se enganem! A verdade é que o livro é recheado de grandes personagens, somente me parecem todas, igualmente niveladas, por cima. E assim sendo, agora sei que boa parte dos leitores também se questiona porque se intitula esta obra de Ana Karenina. Por exemplo, não é a personagem de Anna que está presente do primeiro ao último capítulo do livro mas a de Levine! Provavelmente, todos os que leram este livro têm a sua teoria, pois bem, a minha é a seguinte. Existirão dois motivos principais. 
O primeiro é que a linha narrativa, e assim o fado de todas as personagens, mesmo o de Levine e o de Kitty, apresenta eixo condutor a partir da relação entre Ana e Vronski. A segunda é que Ana, de todas as personagens, é a única que, em sentido factual,  contraria o seu destino social. Por outro lado, se alguém argumentar que Levine é a personagem principal, talvez o autor queria ter desviado as atenções dele mesmo, pois tanto desconfiei da sua proximidade com a biografia do escritor, como, também, bem se sabe que a sua personagem não é daquelas heróicas mas mais daquelas discretas.
De resto, se querem ler um livro com personagens tão reais quanto tu e eu, com dilemas morais e psicológicos tão próximos dos nossos, enquadrados num contexto social, ainda tão próximo do nosso, este livro revelará muita coisa a muita gente. Desde os conflitos das relações de género, às relações familiares e ao papel da família, às relações entre classes sociais, à dicotomia entre vida na cidade e vida no campo, e mesmo a discussão sobre religião, são tudo questões que nos dizem respeito. Por alguma razão este é um clássico. Se se querem imaginar na Rússia czarista da segunda metade do século XIX, entre os cenários bucólicos da imensa vastidão russa, e os cenários aristocráticos de São Petersburgo e de Moscovo, terão uma desilusão. A escrita é tão simples e minuciosa que o difícil mesmo é não parecer real!

quinta-feira, 3 de agosto de 2017

Cem Anos de Solidão

A primeira tentativa de ler Cem Anos de Solidão, Gabriel Garcia Márquez, esbarrou na minha preferência por estórias mais centradas em contextos reais e menos em possibilidades imaginárias, e irreais, da existência humana. Hoje, passados alguns anos, e menos sonso nesta onda das leituras, realizei nova tentativa. E desta nem pestanejei. Porque afinal eu estava errado. O pequeno mundo de Macondo, Melquíades, a família Buendía (nos seus emaranhados de Arcadios, Aurelianos, Úrsulas, Amarantas e Remédios), Pilar Ternera, outras personagens, podem ter o seu grau de fantasia mas em nada se afastam do mundo social. Pelo contrário, pareceu-me mais uma estratégia, muito bem sucedida, para descrever parte da nossa sociedade, da nossa humanização e desumanização. E assim levo uma chapada na cara. É que a fantasia (mais abrangente que a ficção) tem um poder extraordinário para contrastar com a realidade, e se não exagerada, ou não tomada num sentido utópico, apenas nos instiga a reflectir sobre o que pensamos serem a verdade e a realidade. No fundo tem a capacidade de nos expor ao nosso sentido crítico. E, talvez, o maior mérito de Gabriel Garcia Márquez, será o de impor-nos brilhantes revelações e conclusões, sem frases feitas, nem, muito menos, citações memoráveis e inolvidáveis. É assim que, sem o publicitar, ao longo do romance nos questionamos sobre a civilização, o progresso, o desenvolvimento, as relações humanas, as relações sociais, o valor de uma vida, e, até, ou sem dúvida?, o tempo.
E um dos indicadores, na minha opinião, de este ser um grande livro, é que, muito provavelmente, não esquecerei as suas personagens, assim como não esqueci, dito de cor, Jean Valjean, Javert, Thénardier, Éponine, Coseta, Fantine, os amigos do clube ABC, Marius...
E a partir de hoje amplio as minhas opções de leituras à fantasia crítica. E até já estou a pensar em algumas hipóteses... As viagens de Gulliver???

segunda-feira, 17 de abril de 2017

Ainda o Espírito das Nações

Tornou-se comum nas conversas entre amigos eu tentar convencer os meus interlocutores de que Portugal é um país com elevadas desigualdades salariais e que a mobilidade social ascendente é maior na Europa do que na América. Mas ninguém acredita, ou quando muito revelam algum espanto. Eu já aqui escrevi sobre isto (O Espírito das Nações). Mas agora descobri este vídeo que explica tudo muito bem explicadinho. Eu sei que é difícil desconvencer as pessoas do sonho americano que os filmes hollywoodescos trespassam. Mas como diz o autor, quem quiser viver o sonho americano tem de ir viver para a Dinamarca! Pensa nas seguintes questões e depois vê o video. E no fim pensa se a tua percepção das coisas está mais perto ou mais afastada da realidade dos factos.

Onde pensas tu que a mobilidade social ascendente é maior? Nos Estados Unidos da América ou na Europa?

E Portugal, está mais perto do sonho escandinavo ou do sonho americano?
Portugal é ou não um dos países desenvolvidos com maiores desigualdades salariais entre ricos e pobres?
Portugal é ou não um dos países desenvolvidos com maiores problemas sociais?

O crescimento económico só por si traz algum beneficio na qualidade de vida geral dos cidadãos?
Ou é preciso que ao crescimento económico se associe relativa equidade na sua distribuição?

Será que apenas as classes sociais baixas beneficiam da redistribuição dos rendimentos?
Ou será que as classes sociais altas também beneficiam de uma maior equidade, ao contrário do que possa parecer contra-intuitivamente?

O vídeo vai ajudar-te a pensar nestas respostas. Lembra-te apenas que a análise apenas inclui países desenvolvidos.



Se quiserem ver com legendas em português, vejam aqui (pior qualidade).


segunda-feira, 16 de janeiro de 2017

Nós Europeus

Ainda não percebi se o novo presidente eleito dos EUA é assim tão ignóbil se afinal é mais inteligente do que aquilo que poderíamos esperar. Provavelmente será as duas. Depois de irritar a China com um só telefonema para Taiwan, agora quer irritar os Europeus. Nós europeus. Se ninguém percebe por que esse novo presidente prevê assim tão sagazmente a desintegração da UE, eu diria que existem segundas intenções. Esse presidente sempre disse que queria renegociar os acordos de comércio com a China, mas para o fazer tem de adquirir posição para negociação. E que tal um telefonema para Taiwan? Mas mais do que a China, a UE é que é o maior bloco económico mundial responsável por 23,8% do PIB mundial. E só em segundo lugar encontramos os EUA com uma quota de 22,2%. E, provavelmente, sem o Reino Unido a UE passará para o segundo lugar.



Fonte: Eurostat,, http://ec.europa.eu/eurostat/documents/3217494/7589036/KS-EX-16-001-EN-N.pdf/bcacb30c-0be9-4c2e-a06d-4b1daead493e

E uma Europa desintegrada terá menor capacidade de exercer a sua influência nos grandes processos globais, tais como os acordos de protecção das mudanças climáticas, que os EUA nunca gostaram, porque, sinceramente, como eles sempre disseram, não é bom para a economia deles. Mas a Europa é líder incontestável no investimento e na inovação tecnológica ambiental e tem adoptado as mais rigorosas leis de protecção ambiental e de desenvolvimento sustentável. Ora, os EUA, e muito mais esse novo presidente, não gostam muito disso. E, de facto, uma Europa mais fraca terá certamente menor capacidade em exercer influências nos padrões de produção. A juntar a tudo isto a UE exporta mais para os EUA do que importa, o que quer dizer que a balança comercial transatlântica é de saldo positivo para a UE e negativo para os EUA. Ora, não me parece que esse presidente eleito seja muito a favor de um défice para o seu país. Então, que tal taxar os carros alemães fabricados fora dos EUA? Então, e se esse presidente eleito quiser renegociar os acordos comerciais com a UE? Não será melhor enfraquecer primeiro a UE? Não fará sentido incentivar os países europeus a desconfiarem da UE demonstrando que o Reino Unido apesar de sair da UE conseguiu um bom acordo com os EUA? Adicionalmente, sabemos que, muito provavelmente, a Rússia quer desintegrar, pelo menos enfraquecer, a UE, e reconquistar a sua influência a Leste. E se esse presidente eleito nos EUA também jogar com isso?
No meio disto tudo tenho um pressentimento positivo. Toda esta conversa reforça o "nós europeus". Quanto mais os outros nos chamarem de europeus mais tomaremos consciência do "nós europeus". Uma perspectiva exterior de nós europeus reforça também a nossa forma de nos vermos a nós próprios como europeus. E que as maiores ligações que temos é entre nós europeus, e que em quem mais devemos confiar é em nós europeus. Quando esse novo presidente dos EUA foi eleito comentei com algumas pessoas que tudo isto poderia revelar-se uma boa oportunidade para a Europa se distanciar e se tornar independente da protecção dos EUA. E cada vez mais reforço esta ideia, uma oportunidade para nós europeus. Independentemente das nossas diferenças e divergências temos mais em comum do que pensamos. Ainda defendemos um estado social, os EUA não e o Obamacare, um pseudo-projecto de sistema nacional de saúde deverá ser extinto. As mães e os pais não têm nem licença nem subsidio de maternidade/paternidade. Ainda defendemos o ambiente, pelo menos alguma coisa, e os EUA muito menos. A quantidade emitida de CO2 per capita, e de CO2 por unidade de PIB, são nos EUA o dobro da UE! Ou seja, para uma unidade de produção os EUA poluem duas vezes mais! Em 2014 o EPI (Environmental Performance Index) - produzido pela universidade de Yale nos EUA, portanto, calculado nos próprios EUA e longe de suspeitas - mede a performance dos países na sua relação com os assuntos ambientais, concretamente nas políticas de protecção da saúde humana dos factores ambientais nocivos e nas políticas de protecção dos ecossistemas. Numa escala de 0 a 1 em que 0 é a pior performance e 1 a melhor, os EUA apenas obtêm uma pontuação de 0,68, enquanto Portugal obtêm 0,82, Espanha 0,87, a Noruega 0,94, a Austrália 0,93 e o Japão 0,89.


Fonte: Banco Mundial

E do gráfico anterior imaginemos que, na América do Norte, o Canadá apresenta valores inferiores aos EUA, logo, a curva representativa dos EUA está acima da linha laranja!
E se as leis de protecção ambiental avançarem quem tem de momento as melhores tecnologias disponíveis? Os europeus e os japoneses! E a quem todos os outros países terão de comprar? Será menos aos EUA.
Nós europeus. Ainda defendemos a segurança colectiva e a proibição da posse de armas de fogo sem restrição, os EUA não. Temos menos homicídios que os EUA. Não temos tiroteios nas escolas.
Talvez toda esta conversa reforce os nossos laços europeus. Talvez percebamos que a UE só tem que se adaptar e de se alterar mas não precisa de desaparecer. Uma UE mais solidária e mais representativa dos seus cidadãos. Mais democrática e mais igualitária. Não estamos contentes com a Europa mas a verdade é que estamos cá, não estamos do lado de lá. Como diz o ditado, "o que não nos mata torna mais fortes"... a nós europeus.

terça-feira, 3 de janeiro de 2017

Liliana

Pode-se dizer que ainda não estou recomposto da noite de passagem de ano. O facto é que ainda não percebi se tudo é fruto da minha imaginação se real. Estou no limbo. Seja uma alucinação pintada na tela do Universo pelas cores do fogo de artificio, a realidade projetada pelas cores mirabolantes das luzes da festa a simular as cores do fogo de artificio, uma obsessão sentimental recalcada, um simples efeito nostálgico incendiado pelo copos, ou ainda um pouco de tudo, a verdade é que não durmo há duas noites. Já estávamos em 2017. Festejávamos com copos na mão cheios de champanhe, depois de bebidas brancas ou de cerveja. Já abraçávamos os que conhecíamos, os que conhecemos, os que ainda não conhecíamos e mesmo os que nunca chegámos a conhecer sem ser nas fotografias guardadas na máquina do João. Eu tinha ido buscar duas cervejas ao balcão e foi então. Os seus contornos. Os ombros. O cabelo cor de avelã. Pelos ombros. Liso. Solto. Mágico. De perfil. O rosto. Macio. Gentil. Ela. Liliana.  Como disse, talvez a panóplia de luzes a imitar a paisagem do universo me tenha enganado. Mas. Era ela, a grande paixão mas também todos os problemas da minha adolescência. Só podia ser ela. Ainda a segui para a descobrir mas um toque no braço, por um qualquer  homem que dançava tal e qual como os jogadores de rugby da Nova Zelândia mas que tinha cara de jogador de xadrez, fez-me entornar a cerveja de um copo  e nessa distracção perdi-a. Na verdade, a Liliana é a minha grande paixão platónica. Essas paixões imaginárias da adolescência que nada melhor são do que  assim permanecerem, ilusões que nos mantêm a esperança de que afinal as mulheres não são todas iguais.
Num dia ameno de primavera quando ainda andávamos no secundário, num dos intervalos entre aulas aborrecidas de matemática e de história, ainda lhe acenei com a mão, como a pedir-lhe autorização para a conhecer. Ela viu. Penso que sorriu, não sei. Sei que baixou um bocadinho a cabeça e depois olhou para o lado. Claro que eu fiquei parvo e estático. E acho que ela ainda voltou a olhar para mim e depois começou a falar com uma amiga. Eu devo ter continuado parvo e estático a olhá-la até ao toque de entrada. No mesmo dia, nos corredores do principal edifico da escola, passámos perto um do outro, em direcções opostas. Era um bom momento para os nossos olhos se cruzarem e para eu ganhar confiança para numa próxima ocasião meter conversa com ela. Em vez disso os macaquinhos soltaram-se do sótão  e eu comecei a sentir cambalhotas no estômago e as pernas a tremer e depois.... depois nem me lembro. Era uma rapariga discreta mas presente e que tinha um sorriso bonito, daqueles que sorriem com os lábios, os dentes, os olhos, a face e os cabelos. Não consigo explicar o que me atraía nela mas gosto de pensar que o que me fascinava era o seu brilho cósmico. E como ficar indiferente a essa imensidão? 
Depois da escola secundária fomos para a Universidade. Nunca soube para onde ela foi estudar. Na altura, a Inês disse-me que pensava que ela tinha ido para Braga. Eu estava em Faro! Mais longe seria difícil. Mas isso também não interessa porque mesmo que pudesse provavelmente não ganharia mais coragem do que aquele dia em que lhe acenei um adeus na nossa escola secundária. Durante os dois primeiros anos da Universidade fui todos os fins de semana à nossa terra para ver se a via, o que só aconteceu uma única vez, à noite, num bar, mas ela pareceu-me triste. Não lhe descobri o brilho. Em vez, pareceu-me uma só  partícula cósmica num recanto escuro e longínquo do Universo, o que me criou maior fascínio! Tudo! Assim ela podia ser tudo, uma imensidão de lugares por descobrir e por desvendar, de mistérios insondáveis, de aventuras vernianas! Mas também podia ser apenas um lugar pequeno do Universo, único, de contornos e sentimentos singulares como toda uma energia concentrada num pequeno ponto! Ela era a minha princesa Leia! Nessa noite disse para mim próprio que iria conhece-la. Respirei fundo três vezes. Disse. É agora! Dei um passo. Dei outro passo. E a Liliana levantou-se, acenou um adeus aos amigos que acompanhava e saiu de repente! E eu... nem me lembro. Desde essa noite que nunca mais a tinha visto, a não ser nesta passagem de ano. Agora sei que os próprios pais se mudaram quando fomos para a Universidade. Mas nunca pensei que após tantos anos, após duas namoradas e um casamento falhado, ainda vivesse assombrado, ou iluminado?, pelo brilho cósmico da Liliana. Finda esta estória, desejo a todos um bom ano novo! Um bom ano de 2017! Será que por alguma razão  imperscrutável do Universo a Liliana lê o meu blogue? Liliana?

quarta-feira, 9 de novembro de 2016

Trump e o Brexit

Sinceramente não percebo qual o espanto na vitória de Trump nas presidências dos EUA, nem a do Brexit no Reino Unido. Os votos em Trump e no Brexit são votos de descontentamento. Se espanto existe nos resultados destes dois plebiscitos então é porque não percebemos nada do mundo nem das pessoas. Algo está a falhar.

No fim da década de 20 do século transacto as desigualdades sociais nos EUA atingiram um máximo histórico e tivemos a grande depressão de 1929. Estas voltaram a disparar na década de 80 e desde então cresceram, tendo igualado, na primeira década deste século, o mesmo máximo da década de 20 . E então? Então, tivemos a grande recessão de 2008. As desigualdades continuam a crescer o que quer dizer:

1. Os mais pobres continuam a olhar para cima e a verem-se "injustamente" cada vez mais pobres.  Olham para este modelo de globalização que na sua perspectiva não lhes trouxe nada senão imigrantes que lhes roubam os empregos e que lhes baixam os salários. O nacionalismo e o xenofobismo são a sua resposta.

2. A classe média continua iludida pela fábula de que um dia se transformará em classe alta e que beneficiará de todos os seus privilégios. Então, apesar de tudo o que tem sofrido, a metade da classe média que sobreviveu aos últimos anos continua a olhar para cima como se o baixo não existisse, e é por isso que está tão surpreendida que muitos mais do que eles votem Trump e Brexit. E não conseguem avistar que são dos poucos que beneficiam desta globalização e, por tal, pensam que o mundo agora é que está louco.
A outra metade da classe média, que hoje vive frustrada por estar mais perto da classe baixa do que da alta e que sofreu com as alterações dos últimos anos, em quem pensam que vota?

Eu sei que é muito difícil pensar que alguém vote em mudar a ordem. Nas nossas cabeças a mudança parece inconcebível. Como é possível alguém votar numa incógnita, em algo que aparenta ser pior? Ora, para quase todos os que votaram Trump e Brexit pode mesmo esperar-se muito pior? Somos esquecidos ou ignorantes? A verdade é que os muitos cuja esta ordem não interessa são agora a maioria e o mundo afinal não é bem como pensávamos o que é. Afinal há qualquer coisa sobre o mundo que não estamos a perceber. E a esta afirmação é fácil de responder, não estamos a perceber porque imaginamos que toda a ordem é inquestionável e que tudo o resto é como o pouco que está perto de nós.


Tanto nos EUA como na Europa as desigualdades sociais, e em muitos lugares em paralelo com a pobreza, aumentaram e o desespero, misturado de ambição enferma, parece agora maioritário. Aliás, confesso que tenho dúvidas em quanto devo atribuir culpas entre a verdadeira exclusão e os maus julgamentos. E esta aparenta ser a maior proximidade à realidade, infelizmente. Os governantes europeus não se entendem e refugiam-se no proteccionismo. Os nacionalismos recrudescem. A Hungria e a Polónia já têm regimes de extrema direita nacionalista e nós na Europa devíamos bem saber os seus perigos, ou já os esquecemos? Até temos um novo muro mas a União Europeia não está muito preocupada. Se há coisas que a história nos ensina é que nada acontece do nada. E muito do que move a história é o ressentimento como bem percebeu Marc Ferro no seu livro "O Ressentimento na História". Eu volto a perguntar: afinal qual o espanto? Em que mundo vivemos, ou em que mundo pensamos que vivemos? Que ilusões metemos nas nossas cabeças? Toda a ordem é constantemente colocada à prova e a ambição de alguns é virá-la em seu beneficio. Se estamos a votar contra a ordem é porque já existem menos pessoas a beneficiar e  a serem felizes com a sua actual configuração do que os que dela tiram proveito. Devíamos ter olhado para as desigualdades porque quase tudo do ser humano é perspectiva. É a minha conclusão. Se é bom ou mau depende da perspectiva. Se os ingleses votam Brexit e os Americanos votam pelo isolacionismo não quer dizer que as pessoas estejam malucas. As aclamações de exagero vêm daqueles que ainda hoje decidem e que nos colocaram onde estamos. Ou melhor, admito que as pessoas estão loucas e malucas mas essa é apenas uma consequência não é a verdadeira causa dos resultados. Deveríamos parar para pensar porque estão loucas e malucas mas isso não interessa a quem está estabelecido na ordem, além de que o mundo de hoje não pode parar de correr e pensar em coisas "menores". Se pensamos que só agora estamos a votar em loucos então devemos pensar de novo porque aqueles em quem votámos anteriormente não deixaram isto muito bem, mas esses talvez por ignorância.
Para outros Trump não será mais do que igual aos que ainda lá estão e após a vitória poderá esquecer tudo o que prometeu (ler o artigo de Miguel Esteves Cardoso). Dificilmente será Trump, ele que foge aos impostos, ele que é milionário e que quer acabar com o Obamacare, que proporcionará uma melhoria de vida aos excluídos. Isso é o irónico destas eleições e revela o quanto as pessoas não acreditam tanto nos que ainda lá estão como naqueles que os desafiam Quem vota, fá-lo mais contra algo e não a favor desse alguém, só querem mudar. Por outro lado, a vitória do Brexit prova que a União Europeia é um projecto estritamente político e de interesses, não existe solidariedade intraeuropeia. E se os europeus continuarem a rejeitar o papel fundamental da solidariedade na coesão europeia então os britânicos, nada mais nada menos, anteciparam-se ao fatídico momento da desintegração europeia e num futuro estarão melhor do que nós, bem mais rápido (?). Não deixo de pensar nesta possibilidade que parece tão ridícula quanto o Brexit e Trump ganharem os seus plebiscitos. O que irá acontecer ninguém sabe, o que deveríamos saber é como as pessoas se sentem e como vivem neste momento, com expectativas e ambições desfasadas, incongruentes e incompatíveis com a realidade  actual . E é a isso que devíamos dar importância porque só percebendo-o poderemos fazer as escolhas certas.

terça-feira, 8 de novembro de 2016

As Velas Ardem até ao Fim, a Irmã - Sándor Márai

Não me lembro como descobri este autor mas penso ter sido numa feira do livro de Lisboa enquanto folheava livros por descobrir. Sándor Márai é, era, húngaro, o que me faz pensar que tenho uma tendência para gostar de autores da Europa Central. A verdade é que gosto das suas capacidades sintético-analíticas, sem floreados, poupado, sem grandes descrições mas grandes explicações, traduzindo-se numa condensação prosaica da realidade.

O seu livro mais conceituado, sem dúvida, As Velas Ardem até ao Fim, é nada mais nada menos do que um tratado sobre a amizade, a partir do qual constatei, de facto, poucos autores escrevem sobre.  Um outro livro, A Irmã, que terminei anteontem de ler, é nada mais nada menos do que um tratado sobre o amor, este, sobre o qual muitos autores escrevem sobre. A sua virtude e singularidade reside  na sua profunda clareza e na capacidade de responsabilizar o leitor por todas as respostas como um professor que ensina os alunos a pensar, ou como nos torna juízes perante a exposição dos advogados da acusação e da defesa.

Em A Irmã:

"Coloquei os jornais e as revistas comprados na estação em cima da mesa e mergulhei na sensação agradável e familiar que acompanha a experiência talvez mais bonita da vida: a viagem, ou melhor, a partida em viagem. Como se naqueles momentos os contratos que regulavam a minha vida - o trabalho, as relações pessoais e sociais - tivessem perdido sentido.
...Viajar é renascer, libertar-nos das responsabilidades, vadiar, e encontrarmos as imagens perdidas da juventude."
 
"Tive de admitir novamente que a matéria-prima do meu trabalho, a palavra, não é um elemento tão imprescindível da comunicação humana como às vezes os escritores obcecados supõem. Nos momentos críticos, as pessoas percebem o essencial, dito com muito poucas palavras ou sem nenhumas."

"Porque é que esperamos, pensei, e cremos que os grandes povos se possam entender, e conviver em paz nas diferentes regiões da terra, quando cada ser humano é vítima de paixões cegas e impulsos sem controlo?"

"Escritor, vê se aprendes a ser humilde... Não sabes nada sobre os homens, nem sobre as forças que os movem e os impulsionam a viver ou morrer. Não sabes nada sobre o amor, nas tuas obras só trabalhas com ideias preconcebidas. A realidade é muito mais surpreendente, a sua capacidade criativa é muito mais rica e mágica que qualquer situação humana que o homem pode conceber dentro dos limites da sua própria imaginação."

"... sem receber resposta ao incompreensível que se passava com eles. «Para amar não tem que ser bonito, para amar não tem que ter juízo...»"

"Não podemos aceitar que as pessoas em plena consciência, com capacidade para a autocrítica, sucumbam tão facilmente perante o turbilhão da paixão. Não me posso conformar com a ideia de que algum sentimento seja mais forte do que a razão... Que seria do mundo se admitíssemos esta possibilidade?"

Em As Velas Ardem até ao Fim:

"Era bom saber se existe amizade realmente? Não me refiro àquele prazer ocasional que faz com que duas pessoas fiquem contentes porque se encontraram porque num determinado período das suas vidas pensavam da mesma maneira sobre certas questões, porque os seus gostos são semelhantes e os seus passatempos iguais. Nada disso é amizade. Às vezes chego a pensar que é a relação mais forte da vida... talvez por isso seja tão rara. "

"As simpatias que vi nascer entre pessoas acabaram sempre por se afogar nos pântanos do egoísmo e da vaidade. A camaradagem, o companheirismo, às vezes, parecem amizade. Os interesses comuns por vezes criam situações humanas que são semelhantes à amizade. E as pessoas também fogem da solidão, entrando em todo o tipo de intimidades de que, a maior parte das vezes, se arrependem, mas durante algum tempo podem estar convencidas de que essa intimidade é uma espécie de amizade. 
Naturalmente, nesses casos não se trata de verdadeira amizade. Uma pessoa imagina que a amizade é um serviço. O amigo, assim como o namorado, não espera recompensa pelos seus sentimentos. Não quer contrapartidas, não considera a pessoa que escolheu para ser seu amigo como uma criatura irreal, conhece os seus defeitos e assim o aceita, com todas as suas consequências. Isso seria o ideal. E na verdade, vale a pena viver, ser homem, sem esse ideal?
E se um amigo falha, porque não é um verdadeiro amigo, podemos acusá-lo, culpando o seu carácter, a sua fraqueza? Quanto vale aquela amizade, em que só amamos o outro pela sua virtude, fidelidade e perseverança? Quanto vale qualquer afecto que espera recompensa? Não seria nosso dever aceitar o amigo infiel da mesma maneira que o amigo abnegado e fiel? Não seria isso o verdadeiro conteúdo de todas as relações humanas, esse altruísmo que não quer nada e não espera nada, absolutamente nada do outro? E quanto mais dá, menos espera em troca? "


"E cada livro continha uma pitada de verdade e cada recordação insinuava que é vão conhecer a verdadeira natureza das relações humanas, porque nenhum conhecimento torna a pessoa sábia. E é por isso que não temos o direito de exigir a verdade e a fidelidade absolutas daquela pessoa que um dia tínhamos aceite como amigo..."

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O Espaço, o Tempo e o Silêncio

No Sábado à noite eu tomava um café com dois ou três amigos num pequeno bar da minha pequena cidade quando, a meio da conversa, surgiu um de...

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