sexta-feira, 28 de dezembro de 2012

Quase quase quase... Um Conto de Natal - PARTE V







PARTE V – A VERDADE

Hoje regressamos à casa dos meus avós. Melhor, à casa que era dos meus avós, e que, o meu pai, herdou. Possivelmente, este ano, vai ser o primeiro Natal que não vamos passar nesta casa. Não sei. O meu pai quis vir ver a casa. Ainda não sabe se a vai vender ou se vai ficar com ela. Eu vim com ele. O meu irmão e a minha mãe ficaram na nossa cidade. Hoje está frio. São os primeiros dias de neve do ano. É o fim de Novembro. O meu pai, está a dar voltas à casa e vai dizendo que é preciso fazer algumas obras. Eu estou a limpar o pátio, da primeira neve do ano. O céu está azul, mas hoje já faz muito frio. O vizinho também está a limpar o pátio dele. Pergunta-me se sou o Hans ou o Derek. Não sei onde está o meu pai agora. Mas já estou um bocado cansado. Sento-me nos dois degraus que dão para a porta da entrada de casa. Sempre gostei muito de visitar os meus avós, mas este ano, é muito triste vir a esta casa, sem eles. Olho para um lado e para o outro da rua. Nesta rua, as pessoas são maioritariamente idosos, pessoas como os meus avós. Não há muito movimento, e os poucos carros que passam, devem ir para outros bairros, ao lado, ou mais longe. Volto a olhar para o céu azul. Está bonito. E vejo. Vejo rastos de trilhas brancas na cauda dos avião! E lembro-me. Lembro-me do dia em que o meu avô, me explicou o que são. Foi neste mesmo pátio. Numas férias de Natal. Não sei quantos anos tinha. Devia ter uns seis ou sete. Talvez já tivesse oito anos. Foi a primeira vez que vi trilhas de aviões! Eu acho que, nesse ano, o meu avô deu-me uma moto de lagartas telecomandada. Aliás, eu lembro-me muito bem desse dia, porque foi um dia estranho. Achei os meus avós um bocado estranhos. Às vezes, quando me recordo dos meus avós, recordo esse dia. De manhã, pouco depois de acordarmos, brincava na sala. Na sala, montei um castelo que os meus pais me ofereceram. Tinha colocado o manual de instruções sobre o sofá. De vez em quando levava uma peça junto do manual para confirmar que era essa. Uma peça caiu para a lateral, ficando entalada entre o braço do sofá e o assento. Quando procurei a peça encontrei uma fotografia. Era uma fotografia a preto e branco e não reconheci quem era. Perguntei à minha mãe se era o meu pai ou o meu avô. A minha mãe, pensava que eu tinha andando a vasculhar em algum lado que não devia. Disse-lhe que não, que tinha encontrada a fotografia no sofá. A minha mãe disse que, também ela, não reconhecia aquele homem, mas que, provavelmente não era o meu pai, talvez o avô Franz. A tia Eva também não sabia. Os meus avós tinham saído ainda antes de acordarmos. Continuei a montar o castelo e acabei antes de eles chegarem! Depois eles chegaram. O meu avô, confirmou que era ele na fotografia e mostrou-nos mais fotografias, de álbuns, que tirou de dentro de uma gaveta. Talvez ainda lá estejam. Talvez vá lá espreitar, quando for para dentro de casa. Depois, aconteceu o mais estranho. Por alguma razão viemos brincar cá para fora, já não sei se foi logo a seguir às fotografias, se a seguir de almoço. Quando ia para a rua, lembrei-me de chamar a avó, que não estava connosco. À entrada da porta da cozinha acho que a avó falava sozinha, porque não estava lá mais ninguém. Dizia qualquer coisa como: “O nosso azar é vivermos todos os dias”. Só memorizei esta frase porque a seguir o avô disse uma frase parecida. Mas isso já foi lá fora quando estávamos a brincar. Eu comandava a moto de neve. Fazia oitos pelo pátio, em volta destas duas árvores, até que, ao virar-me, na direcção do avô, para continuar a ver a moto, vi o avô a olhar para o céu, com uma concentração diferente, longínqua. Também olhei. Vi um grande azul. Fui ter com ele, e perguntei para onde olhava. Ele respondeu qualquer coisa que não me lembro e depois disse:
“A nossa sorte é vivermos todos os dias. Não te esqueças, Hans.” E antes de terminar “Nada, Hans. Não me ligues. O teu avô está a perder o tino!” E foi por isso que fixei. Voltei a olhar para tentar ver se via alguma coisa, para acreditar no avô, e foi então que vi aviões a deixar um rasto de fumo. Apontei. E ele explicou-me sobre as trilhas de avião!
Mas onde está o meu pai? “Pai?” Grito. Não tenho resposta. Entro dentro de casa. “Pai?”. Nada. Ainda bem que os meus avós nunca dispuseram muitas fotografias, aliás, quase nenhumas, pela casa. Agora, seria muito triste encontrá-las. Não vou abrir a gaveta. Eles morreram há pouco tempo. Vou à casa de banho e qualquer coisa fixa-me ao espelho. Quando era pequeno não me conseguia ver neste espelho. O meu pai, ou o meu avô, tinham de me pegar ao colo. Agora estou aqui sozinho. Os meus avós devem-se ter olhado todos os dias neste espelho, todos os dias que aqui viveram. Que memórias, este espelho, terá deles? Pergunto-me, como se os espelhos tivessem memórias! Se tivessem, poderiam contar-me todos os dias dos meus avós! Como se lembrassem dos meus avós! Como se, amanhã, se lembrassem de mim! Mas são apenas seres inanimados. Como se podem lembrar? Jamais os seus rostos serão novamente projectados por este espelho. Nada mais, além da realidade, e da verdade, podem reflectir. A mentira nunca poderá estar neles. O que não existe, não pode. E todos os dias nos dizem a verdade. Todos os dias, o que somos, por fora. Dizem-nos. A verdade, a verdade é que vivemos todos os dias. Ouço o meu pai a chamar-me. Deve estar na sala.
–“Vais ajudar-me a levar algumas coisas para o carro. Temos de arrumar outras coisas aqui em casa. Mas primeiro vamos almoçar à cidade que eu estou cheio de fome!”
Dizem que eu sou parecido com o meu pai. Não sei se é verdade. Ainda não perguntei a um espelho! A verdade, verdade, é que vivemos todos os dias.

Quase quase quase... Um Conto de Natal - PARTE IV








PARTE IV – O AZAR

–“O nosso azar é vivermos todos os dias”.
Assalta-me uma confusão de pensamentos. Prendo-me. Olho-me ao espelho. Não me desprendo de mim. E tomo atenção ao meu rosto. Procuro as rugas que não tinha ontem, mas que tenho hoje. Procuro o cabelo que ontem, ainda brilhava, mas que hoje é baço. Procuro no espelho os sinais diferentes de ontem e encontro-me nos meus olhos. Parecem-me a única parte do rosto que não envelheceu. Viro os olhos e percorro-me no reflexo do espelho. Levanto as mãos ao nível do rosto e acaricio a minha pele. Não sinto a lisura, a suavidade de ontem. De ontem não. De um dia, atrás, muito atrás que eu não me lembro. Toco no cabelo e não sinto, já não sinto a sua vitalidade. Apanho o cabelo. Viro-me de perfil, para um lado, depois para o outro. O que terá Franz respondido a Maike quando ela lhe perguntou se me ainda achava bonita? Já não sou bonita, eu sei. Como posso ser? Sou velha, sim já sou velha. Não é isso que me abala. Agora, sei que, olhar-me ao espelho é uma atitude defectível. O espelho é como alguém insidioso, traiçoeiro, que todos os dias nos engana. Vemo-nos todos os dias ao espelho, e, assim, todos os dias, não notamos as diferenças para com o dia de ontem. Iludimo-nos, porque não constatamos que mudamos. Quem se vê todos os dias não pode ver as diferenças. É o nosso azar, porque um dia, um dia quando olharmos bem, já não somos jovens e bonitos e, e depois atemorizamo-nos, mas já perdemos tudo. O corpo está sempre à frente da mente. Em todo o tempo para trás, vivemos enganados, diferentes da nossa condição. Se, todos os dias, o espelho não me ludibriasse, talvez, talvez eu olhasse mais para dentro de mim em vez de para fora. E, assim, talvez, vivesse mais perto da minha condição. Vivemos iludidos de um envelhecimento que não nos escapa, feroz, inexorável. O azar da nossa vida é vivermos todos os dias.
Desprendo-me do espelho. Tenho lágrimas a escorrer-me pelo rosto. Limpo-as. Não me podem ver assim. Volto para a cozinha, mas ainda os ouço a falar na sala. Não posso ouvi-los. Estou sensível. Vou chamar o Franz para me ajudar na cozinha, talvez assim parem.
–“Franz?”, e chamo-o escondendo-me na esquina do corredor.
Peço ajuda na cozinha. Recusamos a ajuda das noras. Ele vem, eu fujo para a cozinha, já me arrependi, ainda devo ter estas lágrimas no rosto.
–“Vou só passar, primeiro, pela casa-de-banho. Já te ajudo.”
–“Está bem”, ainda bem, ainda bem, ainda bem, que alívio, que sorte.
Posso recompor-me. Franz demora algum tempo a voltar. Elisa e Eva gritam-me da sala que vão lá para fora brincar com os miúdos. Perguntam se preciso de ajuda. Não, digo que não, claro. Ouço os sons que vem junto à porta, são sons de quem veste casacos, blusões, e ouço Hans:
–“Vou buscar a moto que o avô me deu!”
–“Depois não te esqueças das luvas”, diz Elisa.
E ouço a porta a bater. Há uns dois ou três anos, Franz, comprou um escorrega para os cachopos, que, eles, gostam muito. Nós também. Ainda não limpámos a neve de todo o pátio mas não faz mal, com a neve os miúdos e os meus filhos construíram um boneco de neve. Já perdeu um braço. Maike, tenta consertá-lo, mas não consegue. E foi para o escorrega. Ao olhar para os cachopos penso alto, “O azar da vida é vivermos todos os dias”, e uma sombra inócua debaixo do umbral da cozinha…
–“O que disseste avó?”, é Hans.
Traz ao colo um comando e a prenda do avô. A minha voz treme:
–“Nada, filho, nada, a avó não disse nada. Está a pensar sozinha”
Hans desaparece e volto-o a encontrar pela janela, lá fora. E:
–“Então, de que ajudas é que precisas?”.
Atrapalho-me……nem me lembrei de fingir que estou a fazer qualquer coisa. Será que ele notou?
–“Nada…. Já não é nada. Já fiz”.
Continuo a olhar pela janela e digo:
–“Vai brincar com os netos.”
Tento esconder o perfil onde sinto uma lágrima a escorrer-me. Espero que ele não tenha visto. Foi para a sala. Ai, esqueci-me de lhe dizer que foram lá para fora.
–“Sabes onde estão eles, Ingrid?”
–“Desculpa, estão lá fora”.
E continuei a olhar pela janela. Gosto de ver os meus netos a brincar.

Quase quase quase... Um Conto de Natal - PARTE III










PARTE III – A SORTE

–“A nossa sorte é vivermos todos os dias.”
Assalta-me uma confusão de pensamentos. Prendo-me. Olho-me ao espelho. Não me desprendo de mim. E tomo atenção ao meu rosto. A pele. A pele rugada. As feições. As feições, não me lembro destas feições. Os espelhos não têm memória. Quantos de vocês se lembram de uma imagem ao espelho? Quantos de nós? Os espelhos nunca se lembram de nós. E um dia, mais tarde, olhamos com atenção, e reparamos que o espelho, cada dia, todos os dias, só mostra aquilo que somos, por fora. E o hoje, não pode ser igual ao amanhã. Mas, para nós, mas para nós entre o hoje e o amanhã não há diferença. Precisamos de somar muitos dias, para um dia. Para um dia, sim, nos assustarmos. Como se não nos tivéssemos olhado ao espelho todos os dias que ficaram para trás. Como se, o que somos hoje, fosse uma mutação de um dia longínquo, um dia de que não nos lembramos. A nossa sorte é que vivemos todos os dias, e, em cada dia não sentimos que envelhecemos. Assim, assim é mais fácil. Não sofremos todos os dias por sabemos que amanhã perderemos uma ínfima parte da nossa jovialidade. Os espelhos não têm memória, nem se lembram de nós. A nossa sorte é vivermos todos os dias.
Continuo a olhar-me ao espelho. Pelo espelho passo os meus dedos, como se pudesse tocar na minha pele. Como se fosse o espelho que tivesse o tacto da minha pele. Não tem, não tem nada. Apenas tem uma fugacidade que nada é de mim. Que não me conhece. Solto-me do espelho, e vou ter com Ingrid à cozinha. Encontro Ingrid a olhar pela janela.
–“Então, de que ajudas é que precisas?”, perguntei eu.
–“Nada…. Já não é nada. Já fiz”.
Ingrid olha pela janela. Diz-me para ir brincar com os netos. Hoje está esquisita. Parece que lhe noto uma lágrima desbotada no rosto. Deve ser ilusão minha. Devo estar um pouco desconcentrado, com toda esta história do espelho. Volto para a sala, mas não vejo os miúdos. Nem as noras.
–“Sabes onde estão eles, Ingrid?”
–“Desculpa, estão lá fora”.
E é para eles que Ingrid olha. Pela janela, pelo mundo da nossa janela. Visto o blusão e calço as luvas. Lá fora, continua frio. Temos um pátio coberto de neve. Em alguns espaços já limpámos a neve. Noutros não. Duas árvores ladeiam o passeio até à estada que fica a cerca de seis metros da casa. São árvores altas, e também estão cobertas de neve. Hans brinca com a moto telecomandada, de lagartas de neve, que eu lhe ofereci este Natal. Ainda é um brinquedo grande. Os outros, com as minhas noras, deslizam por um escorrega que comprei hás uns dois ou três anos, para eles brincarem no pátio. O dia continua de um azul bonito. Mas está muito frio. Derek pede a Hans para brincar um pouco com a sua moto telecomandada, mas Hans não deixa. Elisa, a mãe de ambos, ralha com Hans, e ele, um pouco contrariado, passa o comando ao irmão. As meninas continuam no escorrega e riem-se muito quando caem na neve! Tento-me lembrar da minha primeira recordação ao espelho, mas nada. E olho para o céu. Olho para o céu. Como se no céu fosse encontrar a projecção desse dia, do dia em que me conheci a um espelho. Claro que, nada. Hans, vem ter comigo e pergunta-me para onde estou a olhar. Digo que, para nada, para lado algum. Depois pergunta-me em que estou a pensar. Hesitei. Hesitei……..
–“A nossa sorte é vivermos todos os dias.”
–“Qual sorte?”, ouço de uma voz inocente.
–“A nossa sorte é vivermos todos os dias. Não te esqueças, Hans.” – mas que maluquices estou eu a dizer ao miúdo? – “Nada, Hans. Não me ligues. O teu avô está a perder o tino!”
Por momentos Hans, não disse mais nada e eu também não.
–“Olha!” – e Hans aponta para o céu, onde quatro riscas brancas, sem ordem aparente, rasgam o azul esperança – “O que são avô?”
Quatro aviões cruzam o céu, cada um para seu lado, como que formando um quadrado, uma tela de pintura no céu. Quatro rastos, de fumo branco, bem alto, lá no alto, como pincéis de mãos invisíveis.
–“São apenas aviões.”
–“Mas porque deixem aquele raso branco avô? Já vi muitos aviões no céu e nunca tinha visto uma rasto branco.”
–“É apenas um efeito de criação, digamos que, de nuvens artificiais.”
–“Nuvens artificiais? Mas os aviões sobem para criar nuvens? Porque não há nuvens? É preciso nuvens?”, a sua voz era…….. inocente.
–“Não! Não é preciso criar nuvens. Podem ser aviões normais de passageiros ou outros aviões, não sabemos. É muito simples. Ninguém quer criar nuvens, mas, o funcionamento do avião liberta vapor de água para a atmosfera a temperaturas muito muito quentes, como quando vez as panelas no fogão a deitar vapor. Depois, como está muito muito frio na atmosfera, o vapor de água libertado pelo avião condensa formando aquelas trilhas de nuvens artificiais, como, quando por exemplo, o vapor das panelas encontra um vidro frio fazendo o vidro embaciar. Percebeste?”
–“Simmmm!”
E limitei-me a apreciar a beleza de um céu azul esperança rasgado por trilhas de um branco pueril.

Quase quase quase... Um Conto de Natal - PARTE II











PARTE II –O ROSTO

É sempre assim quando chega o Natal. Os filhos, as noras, os netos, e eu e Franz. O Natal já passou e falta menos de uma semana até ao ano novo. Lá em cima, nos quatros, ainda estão todos a dormir, mesmo Franz. A cada ano que passa os netos estão maiores. Claro que estão. Que outra coisa haveriam de estar? O Hans é muito parecido com o pai dele, o meu filho. Lembro-me bem de, quando éramos eu, Franz, os dois miúdos, e os meus pais ou os pais de Franz. Hans é tal e qual o seu pai. Em tudo. Este Natal senti uma dor lancinante ao ver os meus netos. Dos meus olhos, parecia que, em vez dos meus netos, via os meus filhos. E vinham-me recordações. Memórias. Recordações. E assustei-me. Em mim, pouco ou nada sinto de diferente, desde o tempo dos meus filhos para o tempo de agora, dos meus netos. Será assim mesmo? Como não me posso sentir diferente? Sinto-me mais cansada, sim. Sinto uma lassidão que antes desconhecia, sim. Mas curioso é, que sinto, também, que nunca perdi qualquer coisa dentro de mim, qualquer coisa que nunca mudou, não sei se, a minha voz (interior?), se, a minha forma, se, o meu eu? Há qualquer coisa em nós que parece imutável. Eu sei que Franz guardou quase todas as nossas fotografias. Acho que estão numa gaveta do móvel da sala. Vou ver. Cá estão. Eu aos dez, eu aos vinte, eu aos trinta, quarenta, cinquenta. Franz aos dez, vinte, trinta, quarenta, cinquenta. Nós. Não me recordo da maioria das fotografias. Olho para as fotografias como que espantada por aquilo que éramos. Uma fotografia, um momento infinitesimal da nossa vida, um sopro de tempo, que um dia, mais tarde, nos assombra na mesma proporção para a distância a que foi tirada, como se todo o tempo entre a fotografia e o agora pesasse. Há uma fotografia de Franz que me capta a atenção. Talvez seja por me fazer recordar os dias em que o conheci. Deve ter sido tirada mais ou menos nessa altura. Tem o corte de cabelo de então, e acho que reconheço o blusão. Andávamos os dois na Universidade. Ele era estudante do segundo ano e eu do terceiro. Sim, eu sou mais velha do que ele. Ele era um homem alto e esguio, magro. Bonito. Gostava muito do cabelo dele, macio, e louro como o ouro. Nesse tempo era fácil apaixonarmos, porque nada sabíamos. Assim, era fácil iludirmo-nos. Confundir paixão com amor e beleza com belo. Talvez me esteja a cair uma lágrima. Acho que estou a ouvir barulhos lá de cima. Alguém deve estar a acordar. Deve ser Franz. Não quero que ele me veja assim, vulnerável, nervosa. Com alguma pressa, volto a colocar as fotografias dentro da gaveta.
–“Bom dia!”, diz Franz.
–“Bom dia! Precisamos de ir ao centro.”
–“Está bem. Agora de manhã?”
–“Sim, se puderes.”
–“Pode ser.”
Tomamos e pequeno-almoço e saímos. Lá em cima, mais ninguém acordou.
Desde que vi as fotografias que estou nervosa. Não sei porquê. Parece que tenho medo de mim própria. Não sei o que se passa. Fizemos algumas compras de supermercado, poucas, tomámos um café numa pastelaria e agora voltamos para casa. Subimos por uma rua e sigo um pouco atrás de Franz. De vez em quando ele pára, olha para trás, para mim, e eu sorrio. Ele sorri de volta, mas ainda não sei ele percebeu que não estou muito bem. Por isso é que me deixei ficar um pouco para trás. Talvez, até, nem tenha feito de propósito, mas este estado absorto, distrai-me da banalidade. Agora ele parou mas espera por mim. Baixo um pouco a cabeça e dou-lhe um toque com o cotovelo para seguirmos. Mas espera, digo eu. Peço a ele para levar os sacos. Ele leva. Chegamos a casa. Hans, vem lançado, e abraça-me. Quase que caio porque tenho os sacos na mão e não me consigo equilibrar.
–“Tonto!”
Não estou bem e é melhor fugir por um bocado. Vou-me distrair para a cozinha, sozinha. O Franz parece que vai para a sala com os netos. Primeiro fui vestir qualquer coisa mais confortável. Quando subia as escadas parece que ouvi falar em fotografias? Não pode ser. Devo estar mesmo nervosa. Não sei porquê este estado. Como se eu nunca tivesse olhado para aquelas fotografias antes. É melhor concentrar-me nas coisas da cozinha. Vou para a cozinha arrumar as compras, poucas, não há muito para arrumar. Da sala chegam-me alguns risos. Devem estar a brincar. Mas não, não. E ouço Maike a perguntar:
–“Achavas a avó bonita avô?”
–“Sim, a tua avó era muito bonita!”
–“E ainda achas a avó bonita?”
E deu-me um baque……….fiquei tão atemorizada que não ouvi a resposta. Provavelmente, é melhor não ter ouvido. Respiro fundo e penso que é melhor ir até à casa-de-banho. Entro na casa-de-banho e não evito, não evito. Olho-me ao espelho. Entre mim e o espelho o tempo pára. A vida pára. Porque de um lado e do outro somos iguais, somos o mesmo, somos o mesmo rosto. E. E é então que me vem à cabeça, a ideia do azar, do nosso azar:

Quase quase quase... Um Conto de Natal - PARTE I



PARTE I – A FOTOGRAFIA

Caminho por ruas estreitas, de chão negro, pedra negra, encoberta, por vezes, pela neve. Das ruas limparam a neve de Natal que, repousa encostada aos edifícios, como uma enorme fita branca que decora, de um lado e do outro a rua. O contraste da cor da pedra e da cor da neve torna estas ruas de uma beleza singular, simples, como dois opostos que se complementam. Subo a rua, sem avistar nenhum outro transeunte. Mas não sigo sozinho. Comigo, Ingrid, a minha mulher. Vem um pouco mais atrás. Além de Ingrid, só o silêncio de uma rua vazia, o silêncio frio, como o frio acolhedor dos dias entre o Natal e o ano novo. O céu está azul. Subo e, de vez em quando, olho para as montras, que, de um lado e do outro, estão a ser remodeladas para os saldos. Não tenho as luvas calçadas, por isso, mantenho as mãos dentro dos bolsos do blusão. Por momentos paro, olho para trás, e vejo Ingrid que sorri para mim. Estranho. Não, não é o sorrir que é estranho. Estranho é aquela forma de sorriso. Não sei. Há coisas que eu nunca percebi nela. Esboço também um sorriso. Conhecemo-nos nesta cidadezinha quando éramos estudantes, e aqui ficámos. Cada um arranjou o seu emprego, depois comprámos uma casa e tivemos filhos, que já estão crescidos e que já têm, também eles, os seus filhos, ou seja, os nossos netos. Todos os Natais são passados na nossa cidade, aqui, no norte. Entretanto, Ingrid apanhou-me e dá-me uma pancadinha com o cotovelo para seguirmos. Pede-me para levar os sacos do supermercado. Calço as luvas e agarro os sacos. Alguns comerciantes, de vez em quando, assomam à porta do estabelecimento, espreitando, mas depressa voltam para dentro, porque está muito frio cá fora. Continuamos a andar, e depressa chegamos ao limite urbano. O carro está já ali, e seguimos para casa. Quando entramos dentro de casa, ouvimos os netos. Brincam com as prendas de Natal. Hans, o mais velho, de sete anos, vem a correr até nós, e dá um abraço a Ingrid, que quase cai desequilibrada, porque nem teve tempo de colocar os sacos do supermercado no chão. Entretanto, aparece Claudia, a mais nova. Dispo-me do blusão, calço umas pantufas e pego-a ao colo. Vamos para a sala. Não temos lareira, mas o aquecimento central e as luzes dos candelabros, a meia-luz, e cor âmbar, tranquilizam-me, como se sentisse centelhas imaginárias de uma quadra natalícia. A luz do céu azul que entra pelas janelas também aquece. Vejo que está tudo uma grande confusão! Nem o castelo de Hans, já erecto, altivo, impõe respeito, mesmo, mesmo no meio da sala! Como podia? Elisa, uma das minhas noras, diz-me que não sabe onde, mas os cachopos descobriram uma fotografia do avô, muito novo, ainda muito novo, não sabe ela onde? De facto, não tenho fotografias espalhadas pela casa, pelo menos minhas. Também não sei. Os malandros devem ter vasculhado as gavetas. Ai os malandros! Sento-me no sofá e Hans vem sentar-se ao meu colo. Mostra-me uma fotografia e pergunta-me se sou eu? Olho bem para a fotografia, a preto e branco, e, sim, sou eu. Mas era muito novo. Deve ter sido mais ou menos na altura em que conheci Ingrid. Peço a Hans para saltar, para eu ir buscar mais fotografias. Ao levantar-me, lembro-me de perguntar:
–“Mas onde arranjaste tu essa fotografia?”
–“Estava no sofá.”
–“No sofá? – Mas só podia estar no sofá se alguém mexeu na gaveta. –“Alguém andou a mexer nas gavetas?” – Mas ninguém respondeu.
Abro a gaveta do móvel da sala e, claro, está desarrumada, Hans, o malandro? Tiro os álbuns de fotografias e sento-me novamente no sofá, puxando Claudia para o meu colo. Chamo, Hans, Derek, Maike e Elisa e Eva, as minhas duas noras. Desfilo pelos álbuns de fotografias. Fotografias desde a minha infância, até aos meus filhos, mostrando os meus tempos de estudante e de militar, de antigas namoradas e, claro, de Ingrid. Onde está ela? Deve estar na cozinha a arrumar as compras do supermercado. Maike, de quatro anos, olhos azuis profundos e um louro pueril, diz-me, com alguma surpresa dela, que eu era magro!
–“Já foste magro avô?”
–“Sim, já fui!”, já fui magro, já fui jovem e um dia o meu cabelo já foi ouro em vez de prata. E Ingrid…
–“A avó era muito bonita!”, continua Maike.
Sim como era bela, repito dentro de mim, como me lembro! Conto algumas histórias aos miúdos, principalmente das primeiras fotografias de quando comecei a namorar com Ingrid.
–“Achavas a avó bonita avô?”
–“Sim, a tua avó era muito bonita!”
–“E ainda achas a avó bonita?”
Esta pergunta retumba em mim, como um grito ecoando pelos vales das montanhas. Como posso responder eu a esta pergunta, sendo verdadeiramente honesto? Sim, ainda acho Ingrid muito bonita, mas claro, não a mesma beleza que me cativou quando a conheci. Agora, agora a beleza é diferente. Mas eu sei que Maike não me pergunta por esta beleza diferente que, só depois do tempo, se pode conhecer.
– “Sim, cada vez acho a tua avó mais bonita.”
Que mais posso eu responder, a uma criança, que, que ainda só conhece a beleza perecível do rosto? Como lhe posso explicar, que não estou a falar da mesma beleza que ela me questiona? Até que ouço:
–“Eu também acho a avó muito bonita”, diz Maike, num sorriso enorme!
Continuamos entre histórias. Alguns minutos. As minhas noras vão pegando e despegando em fotografias. E, entre elas, de risos prazenteiros, lá vão comparando os seus maridos, ou seja, os meus filhos, a mim e a Ingrid, quando mais novos.  O nariz é meu, as orelhas são dela, os olhos, as mãos, os olhos, o cabelo, os olhos, o queixo, os olhos, o tom de pele, a pele, o rosto, o rosto……
Entretanto aparece Ingrid no corredor, e pede-me ajuda na cozinha. Elisa e Eva prontificam-se, mas nós recusamos, dizemos a elas para ficarem com os miúdos. Onde estão os meus filhos? Devem ter saído. Digo a Ingrid que ainda vou passar pela casa-de-banho. Caminho pelo corredor e retumba, “E ainda achas a avó bonita?”, “E ainda achas a avó bonita?”, “E ainda achas a avó bonita?”… e eu? E a minha beleza efémera?, já fui magro, já fui jovem e um dia o meu cabelo já foi ouro em vez de prata….. Entro na casa-de-banho e não evito, não evito. Olho-me ao espelho. Entre mim e o espelho o tempo pára. A vida pára. Porque de um lado e do outro somos iguais, somos o mesmo, somos o mesmo rosto. E. E é então que me vem à cabeça, a ideia da sorte, da nossa sorte:

sábado, 15 de dezembro de 2012

Leituras

Umas mensagem rápida só para saberem o que tenho lido. Nestes últimos dois meses, entre períodos de férias:

A minha busca de autores sul-americanos. Mas, "Os dias de Davanzati", de Héctor Abad Faciolince (Colômbia), não me pareceu ser um estilo típico sul-americano. A história está engraçada. Um vizinho, do escritor Davanzati, vai recolhendo ao longo dos dias, do lixo, os rascunhos do escritor, confidenciando-os ao leitor.
















"Lembro-me de ti", de Yrsa Sigurdardóttir (Islândia), foi a minha estreia em policias nórdicos. Adorei ler o livro, e muito depressa cheguei ao fim. A história é muita boa ao longo do livro, a escrita também, mas o fim é uma grande desilusão. Para um policial, desvendar um mistério com base numa explicação paranormal, invocando espíritos  é demasiada falta de imaginação. Claro que, assim, ninguém, ao longo do livro, pode desvendar o mistério. E foi por isso que me peguei ao livro.











Uma análise à arte do romance e, também, ao romancista.
O que é um Romance? Quem é um Romancista? Qual a função do Romance?
Adorei!
"Milan Kundera oferece-nos em A Cortina uma estimulante viagem aos locais mais emblemáticos do romance moderno. O mundo é-nos sempre ocultado por uma “cortina” de interpretações pré-cozinhadas, de imagens falaciosas, de representações enganadoras. A função do romance é precisamente rasgar essa “cortina” para revelar os fragmentos de verdade a que só os verdadeiros romancistas podem fazer-nos aceder."

















Mais um inevitável romance de Milan Kundera.

















Depois de "As três vidas", que adorei, voltei a João Tordo. "O Bom Inverno" é um bom livro, mas que, não adorei. Na minha opinião, o final, assim como, certas partes motoras do enredo, são demasiado forçados.















"O teu rosto será o último" foi uma prenda de aniversário. A história e o enredo são muito bons. A estrutura, tal como definida pela júri do prémio Leya, é exemplar. E gostei muito. Mas era completamente escusado a quantidade de asneiras que contém. Asneiras, leia-se, palavras obscenas.















E, porque, eu apaguei sem querer, uma mensagem das minhas leituras das últimas férias, volto a colocar aqui os dois livro que li, só para registo.

Kafka não será muito o meu estilo, porque prefiro cenários reais a situações metafóricas para explorar as palavras.

















Camus, sim, será um pouco mais o meu estilo :)

domingo, 11 de novembro de 2012

4 de Novembro

Foi há um ano. Um ano. Eu estava de férias, e estava a dormir. Ouvi o telefone algures na madrugada. O meu pai levantou-se e atendeu. E eu ouvi. Eu ouvi. E voltei a adormecer. Já era de manhã e o telefone voltou a tocar. O meu pai voltou a atender. E eu ouvi. Eu ouvi, «O Zé Miguel já nasceu!». E eu, no meu sono de férias, deixei-me dormir. À tarde, fomos para Lisboa, eu, o meu pai e a minha mãe, o Zé Miguel já nasceu! E nós fomos ver o Zé Miguel. Lá no hospital, primeiro, entraram as duas avós. As duas avós. Depois, depois entraram o outro avô e o outro irmão. E, depois, entrámos nós, o meu pai e eu. O meu irmão estava lá e, tentava mudar uma fralda. Sim, tentava! Acho que, conseguiu, mas isso agora não interessa. O meu irmão. O meu irmão já é pai. Pai? O meu irmão, pequenino, como eu, já é pai! Ainda não consigo imaginar. E, apesar de ele já ser pai, ainda não consigo imaginar. O meu irmão, pai. O meu irmão deve ter crescido muito, para já ser pai. Se calhar, se calhar eu também cresci. Mas não consigo imaginar. O Zé Miguel era muito pequenino, muito pequenino. Lembro-me bem de, abrir a palma da mão e, de perceber que o Zé Miguel era mesmo mesmo mesmo muito pequenino muito pequenino. Eu tive algum, um pouco, muito medo em o segurar. Os meus dedos não tinham perícia para aquele menino tão pequenino. E, depois, depois acho que tenho uma fotografia em que, em que aparento um pouco, um bocado, muito assustado. Hoje, o Zé Miguel é muito grande, muito grande! Tão grande! Hoje o Zé Miguel tem um ano! Um ano! Já?! Já tem um ano? O Zé Miguel já tem um ano e, eu, ainda não consigo imaginar que o meu irmão é pai?! Pai! Há um ano! Passou tão depressa. E ainda só passou um. Os nossos pais tinham razão, nós crescemos num instante. Hoje, há uma festa para o Zé Miguel! Hoje, estão todos reunidos, para a festa do Zé Miguel. Devem lá estar os avós do Zé Miguel. Devem lá estar os outros familiares do Zé Miguel. Devem lá estar os amigos dos pais do Zé Miguel. E, claro, devem lá estar os amigos do Zé Miguel. Sim, o Zé Miguel já tem amigos. São os outros bebés, dos amigos dos pais do Zé Miguel. Muitos amigos. Mas acho que, o Zé Miguel, nada melhor do que eles! Ah! Sim, o Zé Miguel gosta de nadar! Gosta muito de água, gosta muito. Imagino a festa hoje lá em casa. O Zé Miguel deve estar muito bonito, porque a mãe do Zé Miguel gosta muito de ver o filho bonito. E só veste o filho muito bonito. O Zé Miguel é muito alegre muito alegre. Há bocado, telefonei para o meu irmão e dei-lhe os parabéns. E ele, ele disse que o Zé Miguel está muito animado, muito animado! Não é por ser meu sobrinho mas, o Zé Miguel, é um bebé muito bonito. É lourinho e tem olhinhos azuis. Olhos grandes muito grandes.......«......é para ver melhor...», diz a história. Eu, hoje, não posso estar na festa do Zé Miguel, porque, estou muito longe. É, por isso que, tenho tempo de escrever este texto. Porque, o Zé Miguel está muito longe. Eu gostava muito de estar lá. Mas estou muito longe. Assim, imagino o Zé Miguel muito alegre. Não é difícil imaginar o Zé Miguel muito alegre porque, o Zé Miguel é mesmo muito alegre. Não o vejo há um mês. Não é muito tempo, ainda bem. Por isso, lembro-me bem que é muito alegre. Eu penso que, quando voltei a Portugal, de férias, depois de estar há quatro meses e meio fora, o Zé Miguel não me reconheceu. Quando cheguei, ele olhou para mim muito interrogativo e, depois, depois olhou para o meu irmão, como se estivesse a perguntar quem é este gajo?, e depois, depois voltou a olhar para mim. Eu aproveitei para brincar com o Zé Miguel enquanto lá estive. Eu acho que tive sorte! Porque acho que, o Zé Miguel começou a gatinhar quando eu lá cheguei. E ficámos todos muito muito contentes! Passados alguns dias, desconfio que, o Zé Miguel já me reconhecia. E eu, eu também já o conhecia. Ele, está a ficar muito malandro. Mesmo muito malandro. Eu acho que, ele, já percebia o que nós lhe dizíamos mas, fingia não ouvir nada. Como eu disse, ele é muito muito malandro.
Será que ele me vai reconhecer quando eu voltar nas férias do Natal? São só dois meses de diferença. Talvez me reconheça. Ou talvez não. O Zé Miguel está a crescer muito rápido e, depois das férias do Natal, eu ainda não sei quando volto a Portugal. E, se eu só voltar passados muitos meses, sei lá, uns oito ou nove, ou mesmo doze meses? Então, não me deverá mesmo reconhecer. E eu, irei reconhece-lo? E, se eu voltar passados quatro meses? Será que, nestas férias do Natal, ele começará a andar? Ou ainda não? Se não, provavelmente, depois, quando o voltar a ver, já saberá andar. E falar? Será que, quando eu voltar para o ano, ele já consegue falar? Muito? Uma criança é uma coisa incrível, não é? Estou a imaginar o Zé Miguel hoje, com um capacete de cartão em cone na cabeça, muito muito feliz. Um capacete de cartão em cone na cabeça? Que ideia tão ridícula! Mas eu estou muito muito longe e tenho de imaginar qualquer coisa. O meu irmão disse-me que iria filmar o Zé Miguel hoje e, que, depois, me enviaria os vídeos. Yeah! E será que, o Zé Miguel vai ter um irmão para brincar? Ou uma irmã? Depois vão sempre e sempre a andar a implicar um com o outro, como eu andava com o meu irmão. Até crescerem. Até crescerem. O Zé Miguel já foi à escola. É muito curioso. Olha para tudo, para tudo. Abre muito os olhos, e olha para tudo. É o Zé Miguel. Será que, daqui a uma ano, vou estar na festa do Zé Miguel ou, será que, vou telefonar outra vez? Se telefonar, será que o Zé Miguel já me consegue perceber? «Tou, Zé Miguel, sabes quem fala?! Zé Miguel, parabéns!» Mas ,daqui a um ano, o Zé Miguel, ainda deve estar bem mais malandro do que está hoje. Já estou mesmo a imaginar, quando ele crescer ainda mais, malandro muito malandro. Aposto que, até, um bom malandro. Sim, um bom malandro. E eu, depois eu, sem saber o que lhe dizer, lá sai um...... «Zé Michael, vai estudar malandro...... vai estudar malandro!»

domingo, 28 de outubro de 2012

O barco batizado Esperança - PARTE V - A Esperança

Elena sentia-se inebriada. Para ela era como se um ajuntamento de crianças num pátio de recreio tivesse sido a melhor invenção de toda a revolução industrial. Nada nada nada, até agora, a tinha feito sentir-se, simultaneamente no seu passado, no presente, e no futuro. Nada. Esta invenção do século XX, um pátio de recreio para as crianças brincarem. Brincarem. E depois, depois o som longínquo de muitas crianças a brincarem, tão longínquo como a nossa infância, tão real como tu e eu, tão ilusório como o futuro. É esta, para Elena, a melhor invenção que a revolução industrial proporcionou. Elena chamou-lhe, a máquina do tempo.Entre o silencio que a revolução industrial desinventou, Kostas e Elena mantiveram-se ensimesmados no interior do seu tempo e da sua história.. Até que. Até que:
«Elena?»
«Sim?»
«Sabes como eu imagino a esperança?»
«Não. Conta-me» E sorriu.
«A esperança é como um rio que nasce na montanha, e nós somos como os tripulantes de um barco baptizado de Esperança. E nesse barco iremos descer o rio até ao mar. Lá em cima, no monte, na nascente, na serra, tudo é puro e belo, e temos o mundo nas nossas mãos, tal e qual como as crianças. Somos pequeninos, e admiramos o mundo, que, lá de cima, é belo. E lá, onde o rio nasce, ainda podemos apreciar a montanha, os vales, e respirar, respirar, principalmente respirar. Mas é uma ilusão. Quando chegamos lá a baixo a vista não é a mesma que a lá de cima. E depois temos de descer o rio da montanha até ao grande rio lá em baixo, onde aflui o nosso rio da montanha. Começamos a descer e, aos poucos, aos poucos tudo é cada vez mais rápido. Tudo começa a ser mais difícil. O rio da montanha é rápido, não controlamos nada e, só poucas vezes, temos tempo para parar e olhar, apreciar. A paisagem, não temos o tempo que queríamos para a paisagem.O mundo. Controlamos os nosso barco, mas não controlamos o rio.Nesta descida tudo vale para não virarmos, não tombarmos e, principalmente, para sermos os primeiros, os primeiros a encontrar o rio da montanha com o percurso mais curto até ao grande rio lá em baixo, onde desaguaremos. Porque, porque depois de desaguarmos no grande rio, ai, e só ai, voltaremos a encontrar alguma tranquilidade, como a que conhecemos lá em cima. Alcançar a nossa esperança é alcançar o grande rio lá em baixo onde, então, poderemos tranquilamente apreciar a viagem até à foz. Na foz, desaguaremos no mar, e lá ninguém sabe o que encontraremos, se um mar agitado, se uma mar calmo. O mar, é a nossa velhice. É deixarmo-nos à deriva, depois da viagem, sem mais fôlego para nada mais alcançar. Tudo já é longe de mais, tudo ficou para trás. Fizemos a nossa viagem num barco baptizado de Esperança.»
Na verdade, um dos maiores impulsos do ser humano é a esperança. E ao tirarem-nos a esperança tiram-nos o alimento para acreditar que poderemos ser felizes. Haja esperança, porque a esperança é tão natural e necessária num adulto como a ilusão o é numa criança.
Sob a leve harmonia da infância, Kostas e Elena levantaram-se do banco de jardim.
«Elena?»
«Sim?»
«Já não somos crianças, pois não?»
Elena, sorriu.

O barco batizado Esperança - PARTE IV - A Ilusão

Caminhavam pelas torrentes de ruas daquele morro nos arredores de Atenas, tal como torrentes de água que se formam pelas encostas dos montes serpentinamente. Kostas chegara a casa a meio da manhã. Elena, esperava-o, ou esperava, preocupadamente em casa, enroscada nas almofadas do sofá. Tentara ligar-lhe para o telemóvel mas apenas percebera que Kostas deixara o telemóvel em cima do móvel no hall. Esquecera-se de lhe dizer que de manhã passaria pelos estaleiros navais para arrumar e trazer os seus bens pessoais. Depois de almoço, Elena, sugeriu passearem um pouco pelos bairros.. Sentia Kostas nervoso e queria acalmá-lo. Calcorrearam ruas feitas das tais torrentes. À medida de que se aproximavam de um infantário ouviram crescer o ruído simultâneo de muitas crianças no pátio de recreio, ao mesmo tempo que, decresciam os ruídos do bairro. Perto, já perto, aquele ruído não parecia mais do que uma imensa confusão de barulhos irritantes, desconexos, molestos. Hoje não. De facto, a gritaria de um recreio de infantário, perto, bem perto, consome o mais banal dos pensamentos. Hoje não. Continuaram, pelas tais torrentes de ruas. Primeiro a descer, depois a subir. Subiram, subiram, subiram, entre passeios, carros mal estacionados, condutores arrojados. Lá em cima um jardinzinho com um miradouro, abraçando os subúrbios da cidade. Enquanto subiam decresciam os barulhos do bairro que imitavam os barulhos de uma cidade. Decresciam. Leve, levemente, caminhavam para a tranquilidade do jardim e, assim, contagiados, sentiram pouco a pouco desvanecer-se alguma da tensão acumulada. Quando chegaram ao jardim já nada ouviam, a não ser a sua voz interior e os seus pensamentos que, ainda, os assombravam. Ao entrarem no jardim sentiram de imediato a voz das árvores e do vento, e do vento entre as árvores. Continuaram a caminhar de mão dada, até a um ponto com vista, à medida que outro som crescia leve, levemente, misturando-se à harmonia relaxante das árvores e do vento. E esse som crescia. Por momentos não se aperceberam de onde vinha nem o que era. Mas não incomodava, pelo contrário. Aproximaram-se cada vez mais, e mais, do ponto com vista, e identificaram um pequeno vale entre o morro do jardim e um outro morro do lado de lá. O som, o som que crescia vinha de lá, e sobre eles exercia um efeito relaxante, pacificador, e onde todos os seus pensamentos e assombros, de repente, se diluíram, desaparecendo. Até que. Até que, decorrido algum tempo, perceberam que aquele som não era mais do que o som das crianças no pátio do recreio, do infantário pelo qual tinham passado. De facto, ao longe, do outro lado do vale, o som acumulado das crianças, que de perto era irritante para Kostas e Elena, transformara-se numa leve brisa de vento, num leve restolhar sobre as folhas das árvores. E, momentaneamente, sentiram-se bem, como nada os infortunasse, como nada os preocupasse. A serenidade. Sentaram-se sob a melodia daquela tarde de jardim. Elena pensava que nunca, nunca, nunca, o barulho das crianças lhe tivera tal impacto, tal efeito. Percebera então, que, há medida que se tinham aproximado daquela vista, o som afastado das crianças no recreio era como a som afastado da sua infância. Na verdade, é difícil para nós, perto de nós, voltarmos a sentir-mo-nos crianças. Mas ao longe, ao longe, aquele som afastado parecia tão real como o afastamento de Elena para com a sua infância. E assim, era como se regressasse à infância. Era esse o feitiço do som.
«Kostas?»
«Sim?»
«Já reparaste que o barulho longínquo da crianças tem um efeito sobre nós?»
«Como assim?»
«Este ressoar suave das crianças no pátio da escola, ecoa em mim como as lembranças da minha infância. Sinto-me bem, descontraída, sinto-me como uma criança. E já reparaste que esse som, leva-nos ao passado, ao futuro e ao presente?»
«Não estou a perceber.....»
«Leva-nos ao passado porque nos faz lembrar quando éramos crianças, e desperta em nós, lembranças escondidas, sentimentos há muito perdidos. Faz-nos estar no presente porque, como agora, distraí-nos, esvaíra-nos dos problemas dos nossos dias, refresca-nos a alma, faz-nos lembrar de nós próprios. E leva-nos ao futuro porque faz-nos acreditar na esperança, que há sempre esperança!»
Silêncio.
E depois do silêncio, Elena:
«E sabes porque nos faz lembrar que há sempre esperança?»
«Porque as crianças são a esperança de um futuro melhor?»
«Não! As crianças não podem ser a esperança de um futuro melhor. Isso é um engano nosso. Porque um dia, as crianças serão como nós, serão corrompidas como nós fomos, como todos somos. Isso de que a esperança está nas crianças é uma ilusão! A ilusão é que vive nas crianças, não a esperança. Quando eras criança tinhas esperança em alguma coisa ou tinhas ilusões?»
«Ilusões.»
«Sim! Ilusão. As crianças não sabem o que é a esperança porque só depois de saberem que tudo o que imaginam é ilusão, é que conhecem a esperança. E esperança é uma transformação da ilusão. Portanto, quando olhamos para as crianças não devemos ter esperança que o futuro será melhor, só por elas serem crianças. Mas devemos perceber que as crianças estão aqui para nos lembrar que houve um dia em que tivemos ilusões, mas que agora só podemos ter esperança. A esperança está em nós, não nas crianças!»
«E onde é que tu queres chegar com isso? Não te estou a entender. Nem a ilusão, nem a esperança me dão, nem resolvem, nada.»
«O que quero dizer é que, as crianças de hoje transformarão as suas ilusões em esperança, quando crescerem, assim como nós, um dia, transformámos as nossas. O reino da criança é a imaginação e a ilusão. O reino dos adultos é a esperança. As ilusões das crianças de hoje são diferentes das nossas ilusões, porque, mesmo as crianças, sabem construir ilusões realísticas. Elas baseiam o seu futuro com base naquilo que lhes parece alcançável, e com base no mundo que conhecem. Com base no mundo onde crescem. E o mundo onde, hoje, elas crescem é diferente do mundo onde nós crescemos. As crianças ensinam-nos que, tal como elas ajustam as ilusões à realidade onde crescem, também nós deveremos ajustar as nossas esperanças, à nossa realidade. É isso!»

PARTE V - A Esperança

O barco batizado Esperança - PARTE III - A Noite


Elena estava ao telefone, a falar com a sua mãe, quando Kostas entrou em casa. Acenou e ele replicou com um olá pouco convicto. Elena, sentiu uma bala no peito. Mas o que terá acontecido?, foi a primeira coisa que pensou. Do outro lado a sua mãe praguejava sentenças ao seu pai. Ela, há muito que estava farta das queixas da mãe sobre o pai, e só a ouvia por consideração, apesar de, já ter perdido a paciência para os devaneios da mãe. Eles que se entendessem. A sua preocupação por Kostas não a deixou tolerar por muito mais tempo a sua mãe. Ficou preocupada, imediatamente preocupada, muito preocupada. Percebeu imediatamente que qualquer coisa tinha acontecido e só queria despachar a mãe, para saber o que se tinha passado. «O teu pai só pensa nele! Dantes não era assim, não sei o que deu ao homem...», ouvia Elena do outro lado. Disse à mãe que o jantar estava ao lume e que tinha de voltar para a cozinha. Mesmo assim ela disse que voltava a ligar depois do jantar. «....Tenho de te contar mais uma do teu pai!». E assim acabou. Deu uma volta em torno da sala mas não encontrou Kostas. Espreitou pela porta do quarto que estava aberta e viu Kostas deitado na cama olhando para o tecto. Aproximou-se: «O que é que aconteceu?», e demasiado frouxamente ouviu-se, «Vou perder o emprego». Levou imediatamente as mãos à boca e começou a chorar, a soluçar, custando-lhe muito respirar. Kostas levantou-se, colocou o seu braço pelos seus ombros e guiou-a até à cama, onde se sentaram. Elena, colocou as suas mãos sobre as pernas e, Kostas, ia murmurando palavras de conforto que ela escutou mas que não ouviu. Para ela, era como, se, de repente, não existisse uma gota de ar no mundo. Não se aperceberam do tempo que, ali, na cama, ficaram sentados. «O que é que aconteceu?», voltou a perguntar, porque não estava segura do que tinha acontecido. Kostas, disse que era melhor levantarem-se e irem para a sala, porque estariam mais confortáveis no sofá. Kostas levantou-se puxando delicadamente as mãos de Elena. «Vamos». Naquele momento, Elena, já não sabia por que é que lhe custava tanto respirar, duvidando do que se estava a passar e do lugar onde estava, como quando nos sentimos depois de rodopiarmos sobre nós próprios a grande velocidade. Sentaram-se no sofá, com os joelhos a tocarem-se, em triângulo, e Kostas pousou as palmas das suas mãos sobre as de Elena que estavam sobre as suas pernas unidas. «Vou perder o emprego. O Estado não paga à minha empresa. Amanhã já não vou trabalhar.». Elena tinha a cabeça baixa e olhava para o chão querendo disfarçar o tumulto, a confusão e o medo, muito medo que a controlava. Iriam perder a casa? Iriam perder tudo? De que tinham valido todos os sacrifícios dos últimos anos? De que tinha valido renegociar o crédito habitação? De que tinha valido, de que tinha valido, de que tinha valido? Sentiu a esperança a transformar-se em ilusão. Toda a esperança que tinha crescido consigo, e que, acompanhara também o crescimento do seu corpo de menina a mulher, toda a esperança no futuro, na felicidade, numa forma de viver, de uma casa, de filhos, de uma família, metamorfoseou-se em ilusão. Todo o futuro transformou-se numa ilusão que, um dia, chamámos de esperança. Mas as ilusões não acontecem. E ao tirarem-lhe a esperança, deixou de acreditar que poderiam ser felizes. Experimentem esvaziar-se de qualquer esperança. Conseguem imaginar? Perguntem-se, como se sentirão se souberem que amanhã não poderão ser felizes? Que não vos deixam ser felizes, que não vos deixam concretizar tudo o que imaginaram? O ser humano mantém-se porque tem esperança. Porque a esperança alimenta todo o futuro, todo o sacrifício. Mas se um dia vos tirarem a esperança, então, tirar-vos-ão de vós próprios, de nós próprios. Sentiremos que não somos nada e que estamos aniquilados. Sem esperança nada faz sentido. E a esperança é sempre que o dia de amanhã será melhor do que o dia de hoje. Foi assim, esvaziados, depauperados que, Kostas e Elena, passaram o serão no sofá: ele sentado numa ponta do sofá e ela, ela aninhada a seu colo. Não falaram muito, para além de ele lhe ter contado toda a história do dia. Nem ela nem ele conseguiam, nem queriam, pensar, por agora, nas consequências. Elena sempre admirara em Kostas a sua capacidade para não se lamentar nos dias das desgraças. Na hora das noticias, no dia das notícias, sempre se mantivera frio, calculista, e sempre a conseguira apoiar. Pelo contrário, ela, sempre fora mais fraca ao receberam as noticias, mas depois, depois do impacto, depois de chorar e de se lamentar sempre fora mais forte. Nunca ficou no dia atrás. Assim, ela sabia que,  Kostas, amanhã, estaria de rastos, como se sofresse um ferimento lento. E amanhã seria ela a dar-lhe a mão. Quando estavam no sofá a mãe de Elena telefonou. Tiveram de atender porque, se não, ela ficaria preocupada. Elena atendeu com uma voz morta, e do outro lado ouviu-se, «O que é que aconteceu?!». Disse-lhe que Kostas também perdera o emprego. Do outro lado escutou-se, por instantes, o silêncio,
                                                          até que, «O quê??? O que é que aconteceu? Ai meu Deus......».
Não era muito avançada a noite quando se foram deitar. Elena estava mais calma e o choque inicial desvanecera-se. Kostas estava na cozinha e comia qualquer coisa ao balcão. Elena aproximou-se por detrás abraçando-o pelo peito. Elena só queria ir dormir, não queria falar de nada. Esquecer por umas horas e só amanhã acordar para uma nova realidade. Deitaram-se e ficaram juntos, perto um do outro, no seu calor. Elena sabia que Kostas provavelmente não iria pregar olho. Aquela ferida lenta iria alastra-se e no dia seguinte estaria em carne viva. Agarrou-lhe a mão e depois adormeceu. Acordou a meio da noite preocupada com Kostas. No dia em que fora despedida fora acordada a meio da noite pelo zumbido da campainha de casa. Quando abrira os olhos Kostas não estava na cama. Levantara-se, apressada, e não fora capaz de quantificar o receio que tinha. Quando espreitara pela janela, vira Kostas acompanhado de um polícia. Kostas tinha saído com o carro, mas adormecera ao volante. Felizmente, adormeceu quando estava parado num semáforo.
Por isso custou-lhe a dormir. Quando acordou a meio da noite e não sentiu o seu toque aterrorizou-se. Virou-se. Kostas olhava o tecto, «Dorme», disse ele. Dormiu tranquilamente. Acordou pouco depois de amanhecer e não viu Kostas. Sentiu novamente dificuldade em respirar. Gritou, «Kostas?!». Kostas não estava em casa.


PARTE IV - A Ilusão

PARTE V - A Esperança

O barco batizado Esperança - PARTE II - O Fim da Tarde




PARTE II - O FIM DE TARDE





Era quase fim de tarde e Kostas estava sentado numa esplanada contemplando uma praceta de Atenas. Estava sozinho, e, de vez em quando, elevava o braço, trémulo, para bebericar um pouco do frapé que tinha sobre a mesa. Olhava para a pequena praceta. Era costume sentar-se ali com alguns amigos, alguns dias da semana, depois do trabalho. Mas hoje estava demasiado frustrado, demasiado desiludido e, apoderara-se em si uma certa animosidade. Nem a imagem da capela ortodoxa no centro da praceta lhe preenchia uma ínfima esperança. Da praceta contemplava o futuro: um recuo imenso em relação ao futuro de ontem, porque toda a esperança se esvaecera de si. Perdera a esperança sobre a esperança, quando o futuro não se imagina melhor do que aquele que temos hoje. É para isso que nos serve a esperança. O discurso no escritório retumbava-lhe pelas vísceras. Retumbava. Retumbava. Quando entrou no pequeno escritório da sede, que ficava num bairro residencial, sentiu imediatamente um ambiente funesto impregnado. Não trabalhavam lá mais de seis ou sete pessoas, mas naquele dia estavam lá, pelo menos, cerca de trinta. Não foram só os três, colegas do estaleiro naval, foram mais alguns colegas que estavam destacados em outros serviços, noutros locais. A cara do chefe não deixava grande margem para dúvidas, o discurso não se prognosticava amigável.  Kostas olhava à volta, para os seus colegas, mas eles também, de olhos perdidos, suplicantes, provavelmente à procura do mesmo que ele: repostas às perguntas que os assombravam.  O chefe posicionou-se no centro da sala, e eles encostados às poucas paredes livres, a moveis ou, encavalitados em secretárias, tentando arranjar espaço para todos. Começou por agradecer a presença de todos. Uma sala tão pequena, que estavam todos tão apertados que, mesmo só decorridos dez ou quinze minutos de estarem lá dentro já estavam todos a arfar e a suar. Tiveram de abrir as janelas para refrescar o ar. Kostas, sentiu um nervosismo dentro de si como não sentira há muito tempo, aliás, um nervosismo nunca antes sentido, não daquela forma: não seria ele a tomar uma opção sobre si. Foi num ambiente tepidamente gelado, que ouviu a comunicação do chefe, que, após uma introdução atabalhoada, pausada, tartamuda, afirmou que a administração já tinha esgotado todos os mecanismos possíveis, que todas as alternativas  tinham já sido estudadas, mas que, infelizmente, neste momento, era impossível evitar os despedimentos, uma vez que, o Estado não pagava os serviços contratados, faz mais de quatro meses. Reparou na consternação do chefe e acreditou que aquelas palavras e este desfecho não lhe tenham sido fáceis. No fim, o chefe retirou-se, sem antes dizer que podiam ir para casa, que a partir do dia seguinte já não trabalhavam, que mais tarde seriam contactados para a apresentação da proposta de rescisão do contracto. E assim saiu, o chefe, suado, de passo rápido mas curto, para o seu gabinete. Não será necessário dizer que na sala se instalou o caos, a angústia banhadas de lágrimas e lamentos. Kostas ainda conversou um pouco com alguns colegas mas não conseguiu aguentar por muito tempo aquele cenário. Saiu do infausto escritório, decidindo ir sozinho até ao café da praceta, onde pensou que poderia animar-se um pouco. Mas não conseguiu. Pelo contrário. A cada passo que se distanciava daquele escritório parecia que se colocava mais longe da sua vida, a vida que iria perder. E assim, caminhou, até chegar à praceta, sentindo que se afastava cada vez mais de ele próprio, como se, em cada passo, se despegassem de si todos os passos da sua vida. Mas também, não conseguiu afastar a imaginação poeirenta do seu futuro. Chegado à praceta sentou-se na esplanada e pediu um frapé. Enquanto esperava lembrou-se de Elena. Não sabia como lhe contar. Ainda ontem estavam tão aliviados por terem renegociado o crédito habitação, ainda ontem que as coisas pareciam encaminhar-se para melhor. Tudo isso depois de ela ter sido despedida faz mais de um ano. Sofreram muito com o despedimento dela, tiveram de mudar muitos planos e fazer muitos sacrifícios. E agora como lhe dizer que ainda não acabou? Que há pior? Apesar de ter Elena como uma pessoa forte, e de saber que ela o é, sabia que, esta mudança, a iria destabilizar: foi um esforço imenso para renegociar o crédito habitação e para mudar o estilo de vida. Quando se distanciou destes pensamentos já se tinha esquecido que tinha um frapé em cima da mesa. Mas, também, já se tinha esquecido que estava numa praceta de Atenas. A noite caíra. Não enviou nenhuma mensagem, nem telefonou a Elena antes de chegar a casa. Mas já sabia o que ela iria dizer, assim que o visse, porque nunca conseguiu esconder nada dela, nem mesmo disfarçar. Levantou-se, pagou a conta, apanhou o metro e depois o autocarro. Pelo caminho, pensava que teria tempo de descobrir como iria contar-lhe tudo. O problema sabemos que não foi tempo; talvez a sua inépcia a esconder seja o que fosse de Elena. E não descobriu nem uma palavra que suavizasse a desgraça ou que, pelo menos, não a ferisse, pensava ele. Mas como já se disse, já sabia o que ela diria assim que o visse, «O que é que aconteceu?».


PARTE III- A Noite

PARTE IV - A Ilusão

PARTE V - A Esperança

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