sábado, 9 de março de 2013

As tuas palavras ternas

E agora, depois de casada, depois de filhos, é que me dá para esta angústia. Continuo sem perceber se a culpa é minha, se é tua, se de ambos ou de ninguém. Há um ano que vivo assim, sobressaltada, sem te punir na desconsideração do olvidamento. Mas. O meu marido, os meus filhos, os meus pais. Sempre gozámos as férias em Agosto, desta vez lá vamos em Julho, lá convenci o meu marido. "Porquê?" perguntou ele "Porque é que queres em Julho, se sempre gozámos as férias em Agosto?". E eu a tentar convence-lo que me apetece mudar, experimentar outro mês para conhecermos pessoas diferentes, para desta vez não te ver a ti, sabia eu dentro de mim. Espero que não tenhas tido a mesma ideia, também tens a tua mulher, a tua filha. Ontem, ao arrumar as malas, as minhas roupas, peguei naquela t-shirt que me gabaste, dizias que era era bonita, era a cor dos meus olhos, e voltei a colocá-la dentro do armário, claro que não a vou levar, até que antes de fechar a mala, voltei a pegar na t-shirt e enfiei-a dentro da mala, nem a dobrei, não quero saber, mas que parva que eu sou, como se a fosse vestir à espera de te encontrar. Conhecemo-nos uns dias antes, antes desse dia em que nos beijámos, naquela vila Alentejana. A tua mulher preenchia os dias na praia, dizias tu, o meu marido ia de jipe com os amigos fazer todo-o-terreno, dizia eu. E sobrávamos nós, na vila, onde, à tarde, a seguir de almoço tu ias ao café, onde, à tarde, a seguir de almoço eu ia ao café, e, onde, trocámos as primeiras palavras. Logo logo as nossas agradáveis conversas muito agradáveis demasiado agradáveis. Eu, lá ia repetindo, “O meu marido, …..os meus filhos....”, e tu, lá ias repetindo, “A minha mulher,..... a minha filha......”. Talvez, tenha sido esse alívio, essa descompressão, a culpa de tudo isto, daquele momento. Desarmei-me, desarmaste-te. Naquele dia, confessámo-nos tanto tanto tanto que abandonámos o café já quase fim de tarde, e, deambulámos pela vila, por vielas de chão de pedra e casas caiadas, riscadas a cor de céu a cor de sol. Respirámos a tranquilidade, como não se respira em qualquer outro lugar; o tacto suavizante do Alentejo. Talvez tenha sido essa tranquilidade, essa suavidade, que nos tenha resgatado, ou, talvez, tenhamos apenas sido nós, que, nos tenhamos esquecido de muitas coisas, porque, por vezes, seria tão bom ignorar tantas coisas. Salpicados no tempo, diferentes grupos de jovens turistas estrangeiros regressavam da praia, passando por nós com o descomprometimento habitual de quem está longe longe longe de todas as preocupações que só existem no lugar onde vivemos. Talvez, nós, estivéssemos, também, um pouco assim, porque, não me lembro de sentir o medo de encontrar alguém, conhecido, que descortinasse o segredo que sentíamos a crescer. Eu adorava a tua litania, e, apesar de eu ser uma grande tagarela, só queria escutar as tuas palavras. Continuava a fazer-te perguntas não te dando tréguas, e tu, por vezes, tentavas que eu também falasse um pouco de mim, mas, quando perguntavas-me qualquer coisa, eu respondia rápido rápido rápido e virava a pergunta de novo para ti. Mas tu que me entendias, lá insistias em perguntar-me algo, ou elogiar-me algo, porque, assim, lá eu ia sabendo que me davas atenção. E eu. Gostava. Consegui extorquir-te alguns desabafos e alguns queixumes, que te davam uma expressão de menino reguila, zangado, que, a mim, me despertaram um desejo de te proteger, de te apaziguar. Quase no fim fim de tarde, como se tivéssemos esperado por aquela hora do pôr-do-sol, parámos, e observámos aquela rua estreita de pedras, as suas casas caiadas, envolvendo-se numa bruma cor-de-fogo. Concupiscentemente os meus dedos levemente acariciaram o teu braço, a eletricidade, até que,........   até que me mostrei e lá me saiu um..... “Adoro falar contigo”, e.                                    Afastei-me. E tu? Mantiveste-te afastado, não disseste nada, e eu, eu à espera da tua reacçao para poder reagir depois de ti. E tu. Nada. E eu. Aproximei-me, como podias tu não dizer nada? Feita parva aproximei-me, mas porquê? Murmurei qualquer coisa que não me lembro, de certeza que não foram palavras, apenas um murmúrio das palavras que te queria e das palavras que não te queria dizer. E tu? Nada. Como nada?! Aproximei-me mais ainda e senti a tua resposta: as tuas mãos, as tuas mãos, as tuas mãos sobre a minha região lombar, e o teu rosto meigamente encostando-se ao meu, o pronúncio dos teus lábios, perto. Começaste com aquela lenga lenga das tuas palavras ternas como se tivéssemos vinte anos e fossemos livres livres livres, como se o sonho ainda fizesse parte de nós. E eu, dentro de mim, a gostar. Desencostaste o rosto e eu desviei os olhos para não te encontrar, mas queria tanto que me encontrasses. Comecei a tremer tremer, não queria que me largasses mas queria afastar-me, e lá disse, na esperança de te demover, que fosses tu a recuar porque eu não era capaz, e lá disse, “...... o meu marido......., os meus filhos......., a tua mulher........”. Tentei chamar-te à razão quando eu própria estava fora dela, tu ias soltar-me, tu devias soltar-me. Lá dei um passo a tentar recuar, mas tu agarraste-me com mais força e eu, assustada. Os nossos ventres tocaram-se e senti o calor que já nada tinha a ver com o calor das tardes de Verão no Alentejo. Como o rasto de uma brisa a tua mão explorou-me o rosto, e sobre os teus ombros envolvi-te num abraço. Enternecida, procurei as palavras do teu olhar. Lá, nesse olhar, um reflexo: os lábios, os meus lábios. Senti o desejo enorme de te beijar, mas não tanto como o desejo de seres tu a beijar-me. Naquele momento já não tinha qualquer controle sobre mim e era tua. Podias ter feito o que fizestes. Quando os nossos olhares finalmente encontraram-se, eu, vendo dentro de ti, e tu, vendo dentro de mim, aproximámos os nossos lábios, quase quase juntos, e o calor da tua respiração entrou dentro de mim. O sangue, vivo, vivo.
http://www.myspace.com/artistwoodruff
Agarrei-te mais no meu abraço, e tu prendeste-me mais nos teus braços, e, descontrolada, lá me saiu-me um som, estúpido, um frouxo "han?..." que bem entendeste, quando eu comecei a inclinar a cabeça, a fechar os olhos e a respirar propositadamente para dentro de ti, para que o meu calor tivesse o mesmo efeito que o teu teve em mim. As nossas bocas aproximaram-se ainda mais e, naquele momento,  já nada deixaria de acontecer. Colocaste a tua mão por detrás do meu pescoço, uma última respiração, e beijámo-nos. Deixámos de estar em qualquer lugar sem ser em nós. Encontrei a verdade e a sinceridade de todas as tuas palavras e de todos os teus gestos no ardor daquele beijo, enloquecendo-me na sua proveura, na sua libertação Abracei-te mais, e, envolvemo-nos na candura de uma nuvem de algodão doce.
Terminado, largámo-nos. De soslaio, um delicado olhar intimo. Abandonámo-nos. Sim, deixámos as nossas mãos deslizar levemente sobre os contornos dos nossos braços, evidenciando o significado daquele beijo. E afastámo-nos, porque, sabíamos que, todas as palavras não seriam suficientes. Não olhei para trás. E tu, olhaste? Naquelas férias não voltei àquele café, não voltei àquelas ruas, porque não te podia encontrar. Mas todos os dias pensava se lá estarias. Se estarias sentado na nossa mesa à minha espera. Se terias voltado a percorrer as nossas ruas, com a esperança de me encontrar tão perdida quanto a tua ansiedade de me encontrar? E pensava: "E agora, depois de casada, depois de filhos, é que me dá para esta angústia. Não percebo se a culpa é minha, se tua, se de ambos ou de ninguém." E todos os dias, quando dava comigo sozinha em casa, vestia aquela t-shirt verde, cor dos meus olhos, e olhava-me ao espelho em busca das tuas palavras ternas.

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