terça-feira, 3 de janeiro de 2012

"Máscaras de Salazar"

Acabei de ler um livro, que considero fenomenal. Tal como apresentado na capa, «Uma obra decisiva para a compreensão do século XX português.». Escrito por Fernando Dacosta (Casa das Letras), através de alguns depoimentos inéditos incluindo os do próprio Salazar e de D. Maria, fiquei espantado com o assombro e desassombro do ditador. Tal como descrito, tem tanto de “sensível e cínico, casto e pervertido, piedoso e despótico, mesquinho e genial, íntegro e desgraçado.”


Deixo-vos alguns depoimentos e comentários presentes no livro, que acho fantásticos, para o bom ou para o mau, e que talvez nos façam pensar em muitas coisas:




Salazar: «A máxima parte dos conhecimentos que adquirimos, sobretudo nos estabelecimentos de ensino, são perfeitamente inúteis. A superioridade pertence aos que, estudando pouco nos livros das aulas, aprendem a ler mais nos livros da vida. Eu sinto uma simpatia imensa pela cábula inteligente das escolas portuguesas. O essencial não é saber as coisas, mas saber raciocinar sobre elas. O conhecimento, a cultura, não servem para mobiliar um espírito mas para formá-lo.»


Salazar: «As pessoas felizes são as que se contentam com pouco. Tal como os povos. Aliás, o chamado progresso, a industrialização intensiva, o consumismo massificado, são feitos à custa da destruição da natureza, o que representa um suicídio para a humanidade.»


O meu comentário: Salazar na sua versão José Mourinho:

"Salazar, que é exigente no humor («a conversa sem objecto, palavrosa, estirada, é defeito comum em Portugal, somos um país de conversadores inúteis»), dá directrizes no sentido de as críticas que lhe dirigem  não serem cortadas: «Prefiro que as façam a mim do que aos outros. Posso bem com elas. Aliás, a simpatia do público acaba, quase sempre, por voltar-se para as vítimas.»"


"O ditador não nutre ilusões: o verdadeiro conhecimento é iniciático, de elites, não de massas. Às massas basta saber ler, escrever, contar; bastam o folclore, as procissões, o futebol, as viagens, as romarias, os cafés, a rádio e, síntese suprema, a televisão – os concursos, as revistas, as marchas, os desportos, os exotismos, os sentimentalismos da televisão."


Salazar: «Se a democracia consiste no nivelamento por baixo e na recusa de admitir as desigualdades naturais; se consiste em acreditar que o poder emana das massas e que o governo deve ser obra das massas e não das elites, então, efectivamente, creio que a democracia é uma ficção.»


Salazar: «Nem ditadura, nem demagogia.»

"Não encontra na democracia mais do que bezerros de oiro: a permissividade, a moda, a demagogia, o desperdício, o igualitarismo, o consumismo."


Salazar: «Sou profundamente antiparlamentar porque detesto os discursos ocos, palavrosos, as interpelações vistosas, vazias, a exploração de paixões. O Parlamento assusta-me. Tenho horror ao partidarismo em Portugal. Os nossos partidos formaram-se à volta de pessoas, de interesses mesquinhos, de apetites, existindo para satisfazer esses apetites e interesses».


Salazar: «A época que estamos a viver decorrerá sob o tríplice signo da autoridade, do trabalho e da preocupação social. Nenhuma nação se poderá eximir à autoridade forte; nenhum homem ao dever do trabalho; nenhuma actividade ou riqueza ao critério da sua utilidade social. Nós não podemos aceitar que as necessidades económicas sejam o princípio básico da organização das nações ou das empresas.»


"Num discurso a jovens estudantes, preconiza: «Assistimos a uma das grandes viragens da História. Os tempos tranquilos de vida fácil, de ideias incontestáveis, de ordem imperturbada, de negócios correntes, de trabalho assegurado, e até de ócio assegurado, são findos. É o mundo que desaba, não o exterior mas o das nossas ilusões, dos nossos desejos, dos nossos interesses, dos nossos egoísmos dos nossos hábitos, dos nossos sentimentos, das nossas ideias, das nossas relações com o semelhante.»"


«Tinha grandes qualidades e grandes defeitos. Era um belo professor. Aprendi coisas que me têm servido pela vida fora. Por exemplo: a renda de casa de uma pessoa nunca deve ser superior a um sexto do seu vencimento. Salazar dava aliás muitos conselhos, à margem das matérias, sobre poupança. Era, no entanto muito intransigente.»

O meu comentário: talvez hoje em dia esta lei se tenha invertido. Depois de paga a renda ou, a prestação, apenas nos deve sobrar um sexto do vencimento.


"A auréola implacável começou a popularizar-se quando, titular das Finanças, saiu uma madrugada do seu gabinete no Terreiro do Paço, atravessou o Tejo, tomou uma camioneta e desembarcou em Setúbal, cujo chefe de Finanças caprichava em chegar tarde, em faltar, em não atender os que o procuravam, etc. Salazar entrou, sem ser reconhecido, no edifício às nove horas em ponto e sentou-se num banco corrido, depois de dizer ao contínuo que pretendia falar com o responsável pela repartição. Esperou. Perto do meio-dia, aquele surgiu e logo mandou dizer que não tinha tempo para atender os presentes. Salazar levantou-se, abriu a porta, sem bater, identificou-se e, ante o esgar aterrorizado do homem, obrigou-o a redigir o pedido de demissão da função pública.»"


"Farto de um engenheiro que, subservientemente, o incensava, enquanto o ciceronava numa visita à barragem de Castelo de Bode, disparou-lhe apontando uma árvore: «”Olhe como é bonita esta amoreira.» De imediato o outro anuiu: «É de facto uma linda amoreira.» Rápido Salazar retorquiu: «Não é uma amoreira, é um carvalho. Os senhores da cidade não são capazes de distinguir as árvores.»"


A democracia consistia, segundo ele, «no nivelamento por baixo e na recusa de admitir desigualdades naturais», ou seja, «em acreditar que o poder encontra a sua origem na massa e não no escol. Por isso considero-o uma ficção. Não creio no sufrágio universal, porque o voto individual não tem em conta a diferenciação humana».


"Dias Pablo ajudava-o ma propalação das insinuações mais atrevidas, para arrelia surda dos ministros e deleite ingénuo dos adversários. Foi ele quem pôs a circular a história de que, em reunião do Executivo, o presidente do Conselho havia decidido, ante a alternativa de cortar verbas ou no aquecimento das escolas ou nas prisões, fazê-lo nas primeiras. Aos governantes estupefactos, justificava: «Para onde pensam os senhores que nos mandarão se formos apeados do poder? Para a escola?»"

O meu comentário: talvez isto justifique muitas opções de qualquer Governo.


"Ao mudar-se para São Bento, manda instalar dois contadores: um para a energia do rés-do-chão (zona de trabalho oficial), a ser pago pelo Estado, outro para a do primeiro andar (zona de residência pessoal), a ser saldada por si. O mesmo se passava com a água, o combustível e os telefones."

Depoimento de D. Maria (Governanta de São Bento):

«O senhor doutor insistia connosco na necessidade de pouparmos, de não cedermos à tentação de querer o inacessível. Moía-nos todos os dias o juízo com as promessas do bem-estar impossíveis de conseguir. Danava-o não poder acabar com tais demagogias, nem com a avidez dos ricos».


«Depois de mim o Dilúvio». "A aniquilação da vida humana por explosões nucleares, o domínio de Portugal por Castela e o seu desaparecimento como estado soberano – devido à perda do império e à entrada na CEE – eram-lhe obsessões crescentes.

O desmembramento da URSS não representava para si sinal de desanuviamento. Representava, pelo contrário, de incerteza, de crispação. O comunismo iria, avisava, ressurgir num novo Leste e numa nova China, favorecido pela permissividade das democracias ocidentais. A ausência de convicções, de princípios, de éticas, de valores, tornara-se a seus olhos irreversível. Fatal. O neocolonialismo esfrangalhava Angola e Moçambique, o tecnocracismo pervertia a Europa (e Portugal), revelando-se pior do que o marxismo – rompia de dentro do próprio sistema."

O meu comentário: dou-lhe mérito. Ainda faltavam, pelo menos, 15 anos para entrarmos na CEE, vinte anos para a URSS cair e trinta ou quarenta para a China se impor. Vidente ou profeta?


«Quando acabou o primeiro mês de internamento na Cruz Vermelha, começaram a aparecer no hospital várias pessoas a chorar. Diziam que tinham ficado sem a renda de casa, sem a mensalidade que recebiam do Governo. Chegava-lhes em envelopes da Presidência e pensavam que era do Estado. Tratava-se porém de dinheiro, viemos a saber depois, que o senhor doutor lhes adava do seu bolso, sem que ninguém o soubesse. Ele faltou, faltou o dinheiro!»

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