terça-feira, 8 de novembro de 2016

As Velas Ardem até ao Fim, a Irmã - Sándor Márai

Não me lembro como descobri este autor mas penso ter sido numa feira do livro de Lisboa enquanto folheava livros por descobrir. Sándor Márai é, era, húngaro, o que me faz pensar que tenho uma tendência para gostar de autores da Europa Central. A verdade é que gosto das suas capacidades sintético-analíticas, sem floreados, poupado, sem grandes descrições mas grandes explicações, traduzindo-se numa condensação prosaica da realidade.

O seu livro mais conceituado, sem dúvida, As Velas Ardem até ao Fim, é nada mais nada menos do que um tratado sobre a amizade, a partir do qual constatei, de facto, poucos autores escrevem sobre.  Um outro livro, A Irmã, que terminei anteontem de ler, é nada mais nada menos do que um tratado sobre o amor, este, sobre o qual muitos autores escrevem sobre. A sua virtude e singularidade reside  na sua profunda clareza e na capacidade de responsabilizar o leitor por todas as respostas como um professor que ensina os alunos a pensar, ou como nos torna juízes perante a exposição dos advogados da acusação e da defesa.

Em A Irmã:

"Coloquei os jornais e as revistas comprados na estação em cima da mesa e mergulhei na sensação agradável e familiar que acompanha a experiência talvez mais bonita da vida: a viagem, ou melhor, a partida em viagem. Como se naqueles momentos os contratos que regulavam a minha vida - o trabalho, as relações pessoais e sociais - tivessem perdido sentido.
...Viajar é renascer, libertar-nos das responsabilidades, vadiar, e encontrarmos as imagens perdidas da juventude."
 
"Tive de admitir novamente que a matéria-prima do meu trabalho, a palavra, não é um elemento tão imprescindível da comunicação humana como às vezes os escritores obcecados supõem. Nos momentos críticos, as pessoas percebem o essencial, dito com muito poucas palavras ou sem nenhumas."

"Porque é que esperamos, pensei, e cremos que os grandes povos se possam entender, e conviver em paz nas diferentes regiões da terra, quando cada ser humano é vítima de paixões cegas e impulsos sem controlo?"

"Escritor, vê se aprendes a ser humilde... Não sabes nada sobre os homens, nem sobre as forças que os movem e os impulsionam a viver ou morrer. Não sabes nada sobre o amor, nas tuas obras só trabalhas com ideias preconcebidas. A realidade é muito mais surpreendente, a sua capacidade criativa é muito mais rica e mágica que qualquer situação humana que o homem pode conceber dentro dos limites da sua própria imaginação."

"... sem receber resposta ao incompreensível que se passava com eles. «Para amar não tem que ser bonito, para amar não tem que ter juízo...»"

"Não podemos aceitar que as pessoas em plena consciência, com capacidade para a autocrítica, sucumbam tão facilmente perante o turbilhão da paixão. Não me posso conformar com a ideia de que algum sentimento seja mais forte do que a razão... Que seria do mundo se admitíssemos esta possibilidade?"

Em As Velas Ardem até ao Fim:

"Era bom saber se existe amizade realmente? Não me refiro àquele prazer ocasional que faz com que duas pessoas fiquem contentes porque se encontraram porque num determinado período das suas vidas pensavam da mesma maneira sobre certas questões, porque os seus gostos são semelhantes e os seus passatempos iguais. Nada disso é amizade. Às vezes chego a pensar que é a relação mais forte da vida... talvez por isso seja tão rara. "

"As simpatias que vi nascer entre pessoas acabaram sempre por se afogar nos pântanos do egoísmo e da vaidade. A camaradagem, o companheirismo, às vezes, parecem amizade. Os interesses comuns por vezes criam situações humanas que são semelhantes à amizade. E as pessoas também fogem da solidão, entrando em todo o tipo de intimidades de que, a maior parte das vezes, se arrependem, mas durante algum tempo podem estar convencidas de que essa intimidade é uma espécie de amizade. 
Naturalmente, nesses casos não se trata de verdadeira amizade. Uma pessoa imagina que a amizade é um serviço. O amigo, assim como o namorado, não espera recompensa pelos seus sentimentos. Não quer contrapartidas, não considera a pessoa que escolheu para ser seu amigo como uma criatura irreal, conhece os seus defeitos e assim o aceita, com todas as suas consequências. Isso seria o ideal. E na verdade, vale a pena viver, ser homem, sem esse ideal?
E se um amigo falha, porque não é um verdadeiro amigo, podemos acusá-lo, culpando o seu carácter, a sua fraqueza? Quanto vale aquela amizade, em que só amamos o outro pela sua virtude, fidelidade e perseverança? Quanto vale qualquer afecto que espera recompensa? Não seria nosso dever aceitar o amigo infiel da mesma maneira que o amigo abnegado e fiel? Não seria isso o verdadeiro conteúdo de todas as relações humanas, esse altruísmo que não quer nada e não espera nada, absolutamente nada do outro? E quanto mais dá, menos espera em troca? "


"E cada livro continha uma pitada de verdade e cada recordação insinuava que é vão conhecer a verdadeira natureza das relações humanas, porque nenhum conhecimento torna a pessoa sábia. E é por isso que não temos o direito de exigir a verdade e a fidelidade absolutas daquela pessoa que um dia tínhamos aceite como amigo..."

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