quinta-feira, 3 de maio de 2012

Pelas Arábias - Antes da partida

Lembro-me, muito bem, do dia em que regressei. Lembro-me. Lembro-me de sentir a levidade do ar ao sair do avião. Lembro-me de olhar o céu azul, azul esperança, salpicado de umas quantas nuvens, umas brancas, outras cinzentas, outras brancas e cinzentas. E lembro-me de voltar a sentir a leveza do ar, sustentando-me, porque de onde vim a humidade trespassava-me. Lembro-me de cheirar Lisboa como um bálsamo que me despertou os sentidos. E, lembro-me, talvez, de um sorriso estampado na minha cara, provavelmente apalermada, de umas saudades que já me consumiam. Foi um dia Outonal que me deu as boas vindas. Depois do aeroporto, no caminho para casa, ladeando a estrada descobria-se a terra húmida, molhada, coberta das folhas caídas das árvores, e das árvores despidas das folhas. Lembro-me dos castanhos e dos verdes que me acompanharam. E, quando cheguei a casa, voltei a inebriar-me com a levidade do ar, com a clorofila dos verdes e com o vento cortante da serra. Já não havia dúvidas: regressara a casa!

E agora vou voltar. Sim vou voltar, não exactamente de onde vim, mas, só um pouco, mais ao lado. Nem sempre as razões são óbvias. Nem sempre as decisões são fáceis. Nem sempre sabemos se estamos certos. Não sei. Mas as razões de hoje não são as razões de ontem e, a decisão de hoje está longe dos motivos da decisão de ontem.

Agora resta-me despedir, daquilo que sei, de que me quero despedir. No passado fim-de-semana foram os amigos de Lisboa, no vinte e cinco de Abril foram os amigos de cá, neste fim-de-semana foi a família. Mas, não só das pessoas me despeço. Despeço-me daquilo, que sei, que também me faltará. O fim-de-semana passado foi de Lisboa, da Baixa cosmopolita e dos gelados do Santini’s, de Belém, do CCB e dos pastéis e, sem esquecer o Pão de Ló de Rio Maior.

Nestes dois anos e meio, lá em cima, guardei a minha mala de viagens. Na oca vontade de fazer a mala, subi as escadas para o sótão. À entrada, à direita, um quarto. Entrei. Ao fundo um manto de plásticos zelava por um conjunto de malas de viagem. Facilmente, identifiquei a minha. É a maior. Puxei a mala com o plástico e retirei-o. Ainda apresentava as marcas das minhas duas últimas viagens, os autocolantes de identificação de bagagem. Retirei-os, não sem me avivaram algumas lembranças, que, não queria. Levei a mala até ao meu quarto. Abri-a e. Abri-a e, foi como que, se, lá de dentro tivessem saltado as recordações abandonadas, do dia em que, refolgado, voltei a enche-la com a minha trolha, para voltar. Para voltar do quarto que lá despejei, a vida que recusei. Nesse instante, olhei para o exterior, ansiando encontrar-me de novo por cá. Para lá da janela do meu quarto descortinava-se a terra escurecida pela chuva que, ainda há pouco, caiu. Mais além, um manto de papoilas vermelhas sarapintado de margaridas amarelas relembram-me a pulsação da nossa terra, o latejar inexistente das terras áridas e secas, para onde vou. Aproveitei. Inalei um pouco mais do âmago que me sustém. Embalado por esta distracção abandonei o meu quarto e fui até lá fora. Ao sair, primeiro, senti o vento cortante da serra, aquele mesmo que me recebeu quando voltei. Depois inebriei-me com a clorofila dos verdes, aquela mesma quando voltei. E, depois, voltei a cheirar a terra molhada, que neste dia Primaveril, se mascarou de quadro Outonal, o mesmo que me recebeu quando voltei. Caminhei até ao extremo da varanda. Uma silhueta improvável emergia da vegetação rasteira. Lá em baixo, no sopé da minha casa avistei um cavalo. Um cavalo? Nunca tinha visto um cavalo por aqui? Estaria a alucinar? Estaria a minha imaginação a fabricar um cenário? Seria dos óculos novos? Tirei os óculos e voltei a olhar, com, e só, os meus próprios olhos. Sim, era mesmo um cavalo no sopé da minha casa, lá em baixo, a pastar. Era branco. Parecia velho e cansado de aventuras. Sentei-me numa cadeira, que também nunca tinha descoberto por ali. De onde veio a cadeira? Devia estar mesmo a alucinar. Mas não. Sentei-me. Por uns momentos continuei a observar o cavalo. A sua serenidade assemelhava-se à serenidade daquele dia, e à minha própria. A sua paz aparentava-se à paz que eu só distingo nos ares da nossa terra. Mas de quem era o cavalo? Se eu fosse outro, diria que Deus me tinha enviado um sinal, em forma de unicórnio, uma qualquer revelação sagrada. Mas não. Eu não sou esse outro. Por isso deixei-me. Deixei-me a sentir o toque do vento serrano, deixei-me a cheirar as flores que desabrochavam no topo de uma terra molhada e, deixei-me a escutar os pássaros que sempre trauteiam com a Primavera. E, por último, prendi-me a sentir a levidade do ar e, a observar o céu azul, azul esperança, salpicado de algumas nuvens, umas brancas, outras cinzentas, outras brancas e cinzentas, sustentando-me. Fiquei, até não me cansar. Porque sei. Porque sei que, tal como quando voltei, sentirei, de toda esta essência, saudade.

Espero contar-vos, aqui no meu blogue, como vão as coisas por lá. Podem ir acompanhando. E resta-me dizer-vos o que de mais importante levo na minha mala. Não, não é o cheiro da terra molhada, o vento da serra, a clorofila, e uma manta de nuvens, dentro de uma garrafa. Adeus, e até breve.



No que respeita a escritores portugueses, em primeiro lugar, destaco José Luís Peixoto. Dele, para além de um livro gratuito publicado pela revista Sábado, acompanho as crónicas no semanário Visão. 








Um outro escritor português, de quem nunca nada li, mas que, apesar da sua juventude, há já alguns anos, é referenciado muito positivamente pela crítica.









Por último, um, ainda mais jovem, escritor português.










Na literatura estrangeira, o inevitável Kundera.









De autores estrangeiros, mais um livro, baseado em factos verídicos,  da professora Torey  Hayden, sobre alunos com necessidades especiais, ou oriundos de famílias problemáticas ou grupos sociais desfavorecidos.











Na categoria de História, elegi três livros.
Este já conhecem mas, ainda, não o li. Para entrar dentro da guerra.










E depois da Guerra....... também há sempre uma História para contar. Este livro é um comentário e uma análise ao século XX europeu, depois do termino da segunda guerra mundial. Tudo o que a Europa se tornou.








E, por fim, de guerra, um depoimento verídico daquele que é considerado o relato mais profundo e mais esclarecedor de um judeu, prisioneiro num campo de concentração.









Se ainda sobrar tempo, antes de regressar nas férias, para espicaçar a imaginação e o coração de criança, uma aventura de Júlio Verne.









E,confesso que, não gosto de livros demasiado descritivos, talvez me sobre coragem para ler o nosso clássico.

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