domingo, 16 de agosto de 2015

De um lugar na Falésia

A rede baloiça sincronizada com as ondas do mar. Cá de cima, um pouco acima do horizonte, vejo os tons escuros do mar ao largo cortado pelo azul do céu. Do largo para perto, mais perto, os azuis escuros do mar transformam-se em verdes, e mais perto, ainda mais perto, transformam-se num verde translúcido que aos poucos se matiza num verde dourado transparente junto à areia beira-mar.  É um pequeno paraíso no qual eu desconhecia estar, e daqueles que eu pensava só existirem longe bem longe. A rede continua a baloiçar ajudada pelos pequenos empurrões que de vez em quando lhe dou. Além das ondas do mar, suficientemente perto para me tranquilizarem e suficientemente longe para ecoarem, uma canção pertence a este lugar e a este momento..... “All I need is a time out, a timeout from everything”, condizendo com tudo e convencendo-me que tudo está certo. Não preciso, assim, de fechar os olhos e imaginar nada, porque tudo já cá está, tudo mesmo.
Quando baloiço até ao limite da varanda consigo ver a praia e as pessoas, as suas toalhas e chapéus de sol colorindo o areal de areia clara, fina e suave, quase tão translúcida e pura como a água à beira do sossegado mar. Estou num décimo andar de um prédio que funda sobre uma falésia da praia. Se espreitar para o lado também vejo parte da falésia vicejante e salpicada de verdes que orgulhosamente abraça a praia até beijar o mar. Mas resisto à praia. Tenho uma coisa mais importante por fazer. Escrever. Vou buscar o meu caderno e uma caneta esperando não me esquecer das coisas que até agora pensei. Tenho sempre esse medo de que quando me apercebo que tenho algo para escrever e o momento em que realmente consigo escrever tudo se perca, escapando algo de mim. Porque, depois........... agora, tudo pode sair diferente e sem a honestidade e veracidade com que o pensei. É um momento crucial, esse que passa entre o que devo escrever o que realmente escrevo, porque, nele, outras coisas acontecem. Dou um novo empurrão à rede. 
De dentro de casa perguntam-me se desço até à praia? Digo que não, não posso. É fácil de mais esquecer os lugares dentro de nós. Não, não posso. De casa, agora, uma outra canção cuja letra e melodia nada têm a ver com este lugar e este momento. Talvez uma canção para um outro alguém num noutro lugar. E. Ouço. As ondas. E. Ouço. Escrevo. Que mais posso querer? Um sol radioso, uma leve brisa muito leve, a praia dourada, ao longe as águas escuras do mar, e perto mais perto o transparente verde-dourado da água à beira-mar, como nos paraísos que só existem longe longe daqui e onde eu logo à tarde vou mergulhar. Na praia. As vozes. Como as vozes ao longe. E as pessoas.  E cá em cima, em cima de tudo, da praia, do mar, do céu, a rede continua a balouçar. Largo o caderno, largo a caneta e vou e venho numa rede que oscila sincronizada com as ondas do mar e sintonizada com a placidez do lugar. Que mais posso querer?

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