domingo, 11 de setembro de 2011

Era uma vez um português, um inglês e um brasileiro

Isto bem que podia sair em jeito de anedota. Daquelas anedotas. Daquelas anedotas em que: “Era uma vez um português, um inglês e um brasileiro.” Mas não. Isto não é uma anedota.

Elas eram duas. Eles eram dois. Ela, ela apresentou-se como Headhunter, a outra, a outra apresentou-se como Country Manager. Ele, ele apresentou-se como Chief Executive Officier (CEO), o outro, o outro apresentou-se como Clinical Research Analyst. Era sexta-feira. E estavam todos no mesmo workshop, naquele workshop supostamente de Industry & Inovation, dizia-se. A meio da manhã, a desejada pausa, o coffee-break. Ela, precisava de fazer uma chamada urgente. Meteu a mão na mala e tirou o seu smartphone. Fez a sua chamada. Ele precisava de ver um e-mail urgente. Puxou a pasta, tirou a seu tablet, ligou-se à internet. No e-mail lia-se qualquer coisa como: “FYI. Ver ficheiro anexado. Atenciosamente.”
FYI?????? A primeira vez que tinha lido aquela sigla, lembrou-se da sua ignorância. Ou não? Com a ajuda de um colega entendeu, For Your Information.
Ele aproveitou enquanto estava on-line para consultar uma transferência bancária. Acedeu ao serviço Home-banking. Inseriu o username, password e carregou login. À entrada uma mensagem do seu Personal Advisor anunciava-lhe as novidades. Pela música ambiente escutava-se uma banda qualquer portuguesa, a cantar em inglês. Entretanto apareceu um outro qualquer, que, dizia-se, era operador de call-center, nesse tal workshop. Queria ouvir a anedota. Qual anedota? A anedota de um português, um inglês e um brasileiro. Ah essa anedota! Mas isto não é uma anedota já disse. Mas ele esperou. Ainda acreditava que havia uma anedota. Deixou-se ficar. Esperou pelo quê? Esperou pelos quatro. Pelos quatro? Sim, pelos quatro. Esperou que os quatro começassem a cavaquear. A contar a anedota? Mas isto não é uma anedota! Parece que ela acabou a chamada e que ele terminou os ofícios da internet, não antes de fazer um download e de navegar na cloud. É agora a anedota? Não! A outra disse a ela que amanhã queria ir tomar o brunch, mas não sabia onde. Ela sugeriu um spot. Dizia que era um lugar que estava in, e que aos Sábados existia a tal da happy-hour. Eles achavam graça, mas desconversaram. O outro perguntou a ele: “Conheces alguma clinica dentária que me aconselhes?”. “Até conheço – respondeu ele – Por acaso até tenho aqui um cartão deles, porque fui lá há pouco tempo”. E entregou-lhe o cartão. Happy Smiling – Dental Clinic dizia. O outro sorriu. Um sorriso amarelo. “Happy Smiling, com que então?! Nome inglês. Mas é portuguesa?”. “Sim, claro que é portuguesa.” (Claro?). “Só perguntei porque o nome é inglês.” Retorquiu o outro. “Sim, mas sabes que agora as estratégias de marketing dizem que o que vende é o que parece ter sucesso. Nomes anglo-saxónicos, são sinal de internacionalização, logo sucesso. Mesmo que seja mentira. Marketing”. Respondeu ele. “Sim, parece que o que se faz por cá, designa-se logo em inglês, assim pode-se vender lá fora!”. Afirmou o outro. “Pois. O problema é que para se vender cá, mesmo o que se faz por cá, também já se tem de fazer em inglês.” Entretanto, o intervalo do coffee-break esgotava. Aproveitaram para combinar onde iriam almoçar. A outra sugeriu que, devido ao curto espaço de tempo disponível, optassem por um rápido, e simples, fast-food. Mas ela, queixou-se. Não se sentia Well’s, e não queria comer dessas porcarias, precisava, sim, de passar pela farmácia. Desde ontem, depois daquela sessão de fitness, num qualquer centro de bodyconcept, que qualquer coisa, não sabe onde, não sabe o quê, lhe doía, o melhor mesmo é fazer um check-up. Entretanto, já esquecido, continuava lá escondido o operador de call-center. Até que gritou. “Então e onde está o inglês?!”……… Os quatro surpreenderam-se! Os seus pescoços conduziram as suas cabeças para trás e os olhos cresceram na direcção do tal outro, o do call-center. “O inglês??? Qual inglês”. Replicaram. “Sim! O inglês da anedota?” Disse o operador. “Anedota?!” Escutou-se em uníssono. “Sim a anedota. Não vão contar uma anedota de um português, um inglês e um brasileiro?” …….. “Não! Isto não é uma anedota! Já dissemos!” E a música ambiente continuava, com uma outra qualquer banda portuguesa, a cantar também ela uma outra letra qualquer em inglês. Afinal de contas, talvez isto, não seja mesmo uma anedota. Onde está o português? E o inglês? Ah! Já percebi. Afinal não é um inglês! É o inglês! E afinal não é um português! São os portugueses! Mas falta um brasileiro? Ou será o brasileiro? Mau. Onde está o brasileiro? Continuando. O workshop terminou. Todos opinaram que tinha sido uma boa sessão para estabelecer novos contactos, mas mais do que isso fortaleceram o seu know-how. Combinaram, amanhã, Sábado, irem ao tal brunch e ao cinema. Ele sugeriu: ”Que tal os Smurfs”. “Wharever…. amanhã logo se vê”. Retrucaram.

No outro dia, ele e ela, antes de saírem, deitados no sofá, viam televisão. Aqueles programas. Entrevistavam o Tiago Bettencourt. Questionavam-no se não se sentia tentado em compor em inglês. “Não.” E interrogou: “Será que esses que escrevem e cantam em inglês também falam em inglês com as namoradas? Curioso na música portuguesa é que tantos compõem em inglês a pensar na internacionalização, que para venderam lá fora têm de cantar em inglês. Mas curiosamente quem mais vende lá fora, são os fadistas, os Madredeus, agora os Deolinda.”

Também, nesse outro dia, o outro e a outra, estavam em casa antes de sair. O outro lia uma revista daquelas de tirada semanal. Uma crónica do Ricardo Araújo Pereira. “Olha – comentou para a outra – O Ricardo dos gatos diz que continua a preferir chamar Estrumpfes aos Smurfs! Diz que a multinacional argumenta que é preciso uniformizar o nome dos bonecos dentro de cada língua. Por isso em Portugal e no Brasil são Smurfs! Curiosamente (ou não?) em Espanha são Pitufos, mas na Catalunha são Barrufets! Lá já podem ter dois nomes!” E nem sequer são ingleses.

Já no cinema, compraram os bilhetes e escolheram os lugares. Entraram. Sentaram-se. Ao lado um gajo qualquer a comer pipocas. “Já tenho saudades dos Smurfs!” Disse a outra. “Estrumpfes!” Exclamou o gajo do lado, o tal que estava a comer pipocas. “Desculpe?”. “Sim, em português para mim é Estrumpfes!”. Apesar da pouca luminosidade a outra reconheceu-o. Não, não é o Ricardo Araújo Pereira. “Desculpe, por acaso você não é senhor de ontem no coffee-break?” Questionou. “Sim, sou eu, o gajo do call-center e agora também o gajo das pipocas. Pensavam que escapavam à anedota?”Afirmou o gajo das pipocas, o tal gajo do call-center. “Mas qual anedota?!”. Bradaram todos. E lá explicou o operador: “Já disse que tem de haver um brasileiro na anedota. E vai haver! Porque Estrumpfes, em português, e com o novo acordo ortográfico seria Estrumfes!”. Ah! Cá está um brasileiro! Um brasileiro não, o brasileiro. O acordo ortográfico, ai o acordo ortográfico.


Uns portugueses, o inglês e o brasileiro, a tal anedota que afinal não é anedota. Pessoalmente não vou defender a utilização de anglicismos na nossa língua. Também não vou defender o actual acordo ortográfico, apesar de começar a achar que pelo menos o acordo ainda nos defende em qualquer coisa. Os seus defensores argumentam dois motivos principais: a uniformização da língua portuguesa, facilitando o intercâmbio literário entre os países lusófonos, e o facto de o português não ser uma língua de trabalho aceite na ONU por possuir duas grafias oficiais, a portuguesa e a brasileira. Concordo com um acordo ortográfico, talvez não este. Mas pensando bem, quem agora vai aprender a escrever português, no futuro não terá as nossas revelias. Alguma vez nos revoltamos por já não escrever Rei com y, e Farmácia com Ph? E muito provavelmente quando essas mudanças aconteceram também muitos as contrariaram. Mas nós que aprendemos a grafia de hoje contrariámos? Não. O normal é o que nós aprendemos. E agora na moda estão os anglicismos. Estamos a ficar preguiçosos, e já, nem sequer, nos damos ao esforço de traduzir os neologismos, que imperativamente ficam-se pela sua denominação anglo-saxónica. Isto será o que os pequenos aprenderão no futuro. Mas dos anglicismos ninguém se queixa, porque é cool…. Queixem-se do que quiserem, e defendam o que quiserem, mas que o façam e que o defendem com alguma razão. Porque ainda não ouvi ninguém que se queixa do acordo a contestar os anglicismos. É que se isto fosse uma anedota, e se na verdade era uma vez um português, talvez esse português fosse um velho. Um velho? Sim um velho. Dizem que sim, lá para os lados do Restelo.

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