quarta-feira, 29 de outubro de 2014

O Espírito das Nações

Do meu curso de Engenharia constava uma disciplina de arquitectura que eu frequentei acompanhado de 2 ou 3 bons amigos da universidade. Para avaliação dessa disciplina, entre outras obrigações, tínhamos de fotografar um edifício e de, em aula, fazer uma breve apresentação do ponto de vista arquitectónico sobre o edifício. Quando chegou a vez de um dos meus amigos, ele, muito serenamente, e um pouco atrapalhado, desenrascou-se de uma forma que, até hoje, e quando nos juntamos, por vezes recordamos. Sobre o edifício disse ele:
– "Portanto.... ah....... uma imagem vale mais do que mil palavras." - Apresentação terminada! À qual se seguiu uma grande risada na sala de aula.
De certa forma, o meu amigo tinha razão.
Não escrevo esta memória por acaso. É que, de facto, muitas vezes mais vale nada dizer além do que uma imagem nos comunica. É que, por acaso, estou a ler um livro bastante interessante e que apresenta uns gráficos ainda mais interessantes. Comecemos,

Gráfico 1 - A relação de rendimento médio em cada país com a esperança de vida média.
Source: "The Spirit Level: Why Greater Equality Makes Societies Stronger", Wilkinson e Pickett, Bloomsbury Press, 2010

Ou seja, até sensivelmente os 10 000 dólares de rendimento médio a esperança de vida média aumenta "vertiginosamente" com o aumento de rendimento médio. Dos 10 000 aos 20 000 dólares a relação atenua-se, e a partir dos 20 000 dólares o aumento de rendimento médio não implica aumento de esperança de vida, tal como evidencia o seguinte gráfico.

Gráfico 2 - Detalhe para os países com rendimento médio mais elevado.
Source: "The Spirit Level: Why Greater Equality Makes Societies Stronger", Wilkinson e Pickett, Bloomsbury Press, 2010

Confirma-se a relação de que o aumento de rendimento a partir dos 20 000 dólares em nada influencia a esperança de vida média.

Então, o que influencia? Vejamos os gráficos 3 e 4.

Gráfico 3 - Dos países desenvolvidos, a diferença de rendimentos dos 20% mais ricos e dos 20% mais pobres.
Source: "The Spirit Level: Why Greater Equality Makes Societies Stronger", Wilkinson e Pickett, Bloomsbury Press, 2010

Da lista, Portugal é o terceiro país com maior desigualdade na distribuição de rendimentos, pois os 20% mais ricos ganham cerca de 8 vezes mais que os 20% mais pobres. Na Espanha a relação é abaixo de 6 e na Suécia e Noruega cerca de 4.
Sim, Portugal apresenta os mesmos "maus indicadores" que os Estados Unidos e o Reino Unido. Mas enquanto nos Estados Unidos e no Reino Unido quem quer trabalhar, quem é competente e bom, e quem é esforçado, é reconhecido e tem lugar e um salário justos, em Portugal não me parece que isso seja verdade.
Pelo que se conclui,

Gráfico 4 - A relação da desigualdade de rendimento e a esperança de vida média
Source: "The Spirit Level: Why Greater Equality Makes Societies Stronger", Wilkinson e Pickett, Bloomsbury Press, 2010

Ou seja, a esperança de vida média, e todos os factores que a influenciam, como a qualidade de vida, é menor, não nos países com menores rendimentos mas quando a desigualdade de rendimentos é maior dentro do próprio país.
Então,

Gráfico 5 - A relação dessa desigualdade de rendimento e os problemas de saúde e socais do país.
Source: "The Spirit Level: Why Greater Equality Makes Societies Stronger", Wilkinson e Pickett, Bloomsbury Press, 2010

Vale a pena continuar a insistir em modelos que pretendem continuar a aumentar o salário médio e apenas os salários, pois o factor mais importante para aumentar a qualidade de vida não é maiores salários mas sim o modelo social e as condições por si criadas (aliás, o modelo do qual Portugal se parece afastar como vimos em cima)?
Finalmente,

Gráfico 6 - A confiança nos outros
Source: "The Spirit Level: Why Greater Equality Makes Societies Stronger", Wilkinson e Pickett, Bloomsbury Press, 2010

Nota que este índice mede não só a confiança interpessoal, a confiança nas instituições e organizações, mas também o quanto estão dispostas as pessoas a cooperar com outras pessoas, instituições e organizações.

Concluindo:

Pelo que nos fazem entender, não é possível fazer muito melhor porque somos pequenos e pobres? É verdade que somos pequenos e não somos ricos, mas alguns parecem ser mais ricos do que o "normal" comparando com os outros países europeus. Por incrível que pareça, ou não, da zona euro somos o país com a maior diferença interna salarial, sabiam?

Portugal é dos países que mais se está a afastar do modelo de Estado Europeu, assemelhando-se, aos poucos, cada vez mais com o modelo anglo-saxónico que, curiosamente, é mais desigual, mais individualista e socialmente problemático (não refutando que também existem vantagens).

A mim parece-me óbvio que não queremos ser melhores, e que a culpa é de todos, porque, na verdade, como mostram estas imagens podemos ser bem melhores, mas isso é difícil quando estamos divididos e a maioria não distingue o seu papel pessoal do seu papel social.
Aliás, ainda há uns dias discutia com um colega se os portugueses são unidos ou não? Eu dizia que não, ele dizia que sim. Acredito que aquilo que ele queria dizer é que somos um país homogéneo, ou seja, uma verdadeira nação com uma língua e cultura comuns em todo o território. Mas como podemos ser unidos se desconfiamos uns dos outros e se, ainda recentemente, tudo aponta (na minha opinião e obviamente sem provas)  para que as decisões (individuais e institucionais), as reestruturações, as reformas, só são aceites e realizadas de acordo com os interesses de cada um (e seus pares) e não com os interesses de todos?

É que eu acredito naquilo que vejo e não no que se diz, porque como um bom amigo me lembrou, "uma imagem vale mais do que mil palavras".

segunda-feira, 15 de setembro de 2014

O Espaço, o Tempo e o Silêncio

No Sábado à noite eu tomava um café com dois ou três amigos num pequeno bar da minha pequena cidade quando, a meio da conversa, surgiu um desconhecido que, afinal, era amigo dos meus amigos. O desconhecido juntou-se e, sem eu me lembrar como, começou a falar do quanto tinha sido estranho quando se mudou de Lisboa para a minha pequena cidade. As pessoas eram lentas, tudo era lento e o tempo, afinal e para seu espanto, parecia existir e ser uma realidade tão palpável quanto tu e eu. O desconhecido continuou, acabando por confessar que, quando um dia mais tarde voltou a Lisboa, e já estava habituado há existência do tempo, decidiu parar e ver as pessoas. Tolhado, percebeu por onde se solta o tempo de Lisboa:  "Parado, eu só via pessoas a correr! Toda a gente com pressa, para aqui, para ali, e eu a pensar para quê?", confessou.
E eu. Lembrei-me. Que.
Uns dias antes eu saí de casa à noite para ir despejar o lixo e, por acaso, olhei para o céu. No céu reencontrei as estrelas que há muito tinha perdido. Talvez porque o brilho das estrelas que nos chega já existiu há muito muito tempo atrás e nas grandes cidades como já sabemos, o tempo, afinal, parece não existir.
E eu. Lembrei-me. Que.
Uns meses atrás, lá para Maio, li o livro do Miguel Sousa Tavares, "A história não acaba assim" (Clube do Autor, 2012). Por acaso, foi sentado numa cadeira na varanda, a olhar para o espaço, a compenetrar-me com o tempo e a conversar com o silêncio, que li o seguinte excerto:
 ".....peça de caça tomba no chão. Não imaginava as longas caminhadas por cabeços ou planícies, por leitos secos de rios ou através da água, o cheiro a esteva e a giesta, ou as longas emboscadas, atento a todos os ruídos, ao simples agitar de uma folha, adivinhando a presença próxima dos animais antes de os ver. As esperas silenciosas à beira de um riacho, molhando a cara na água cristalina, aproveitando para colher poejos ou beldroegas tardias, aproveitando para pensar na vida, no essencial, no que verdadeiramente importa. A sós, com os três maiores luxos que um homem pode ter: espaço, tempo e silêncio. Porque aqui não há multidões nem urbanizações turísticas, não há pressa nem vozearia de conversas inúteis."
E eu. Lembrei-me. Que.
Recuando umas semanas, tinham já brotado os primeiros sinais de Primavera e eu decidi sentar-me perto daquilo a que costumamos chamar o meio do Nada. O dia estava bonito, daqueles que sabemos que não podem ser outra coisa além de uma belo dia de Primavera. No meio da fruitiva inspiração do vento e da uma suave fragrância diluída no ar pensei na minha sorte. A minha respiração era também ela parte do silêncio, o meu corpo parte do espaço e a minha essência parte do tempo. Recordei o que se costuma dizer: que isso, não é nada mais nada menos, do que estar no meio do NadaPorque é na cidade que temos Tudo. E questionei-me se será assim mesmo? Se assim for, na cidade, teremos também o espaço, o tempo e o silêncio? A resposta parece-me evidente. Não temos nós, no meio daquilo a que chamamos o Nada, o Tudo, e não temos nós no meio daquilo a que chamamos o Tudo, um grande Nada?
Não sei se na nossa limitada compreensão será, alguma vez, exequível  entender verdadeiramente o espaço, o tempo e o silêncio. Mas arrisco que para entender o tempo é preciso o silêncio, tanto quanto para entender o silêncio é preciso o tempo. E o espaço? O espaço será provavelmente o lugar onde poderemos combinarmo-nos tanto com o silêncio como com o tempo, será o elemento agregador e alicerçador. Por outras palavras, será o lugar do Tudo.

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