domingo, 29 de dezembro de 2013

O Dilema

Hoje, e pela primeira vez, talvez escreva qualquer coisa a pedido. Tudo começou ontem. O Alex é um amigo italiano que conheci em 2006 quando eu ainda estudava. Conheci-o em Lisboa. Um rapaz impecável, um amigo extraordinário. Desde então mantivemos o contacto. Este ano, o Alex vai passar a passagem de ano em Portugal e, sendo assim, fui passar um dia com ele lá por Lisboa. Foi então que a meio da conversa o Alex me perguntou:
"Mas por que é que voltaste? Por que não continuaste? Como te sentiste a voltar?".
Sinceramente, estas são perguntas que não gosto muito de responder. Tento sempre responder curto, mas o Alex, continuou a insistir:
"Por que é que voltaste? Como te sentiste a voltar?".
E, aos poucos, as perguntas transformaram-se:
"Como te sentiste ao voltar? Sentias-te bem cá?".
E eu. Eu comecei a desconfiar. Cedi:
"Sabes, às vezes, voltar também custa. Aquilo que existia quando fomos, muda, é diferente. A tua cidade mudou, e mesmo os teus amigos mudaram. Continuaram a vida deles e, quando voltas, ressentes-te desse pedaço que não conheces da vida deles. As histórias que eles falam entre eles, e que tu não conheces porque não estavas cá. Mas, esse não é único problema. Outro problema é que nós também mudamos. E depois, cá, as coisas já não são como eram dantes, também por nossa culpa. Sentimo-nos como se não pertencêssemos nem a um lado nem ao outro. Por um lado, é difícil sentir que o lugar para onde emigramos, e onde vivemos, é nosso, falta o passado. Por outro lado, o lugar de onde somos, também muda e não podemos esperar que quando voltarmos as coisas sejam como eram. Não podemos carregar no Pause quando vamos e depois no Play quando voltamos".
Nesse momento, ao caminhar, o Alex, estendeu-me a mão, e apertámos as nossas mãos. Então, percebi tudo. Continuámos a conversar, eu, o Alex, e mais colegas. O Alex contou-nos que tem uma possibilidade de poder voltar para Itália. Compreendo o seu dilema. O dilema do emigrante, é que, muito facilmente, nem nos sentimos de um lugar nem do outro. E, pelo meio, qualquer coisa se perdeu. Entretanto, um outro colega, chateava-me:
"Tens de escrever sobre isso, tens de escrever sobre isso!".
"Não tenho nada", disse eu. 
Mas, hoje, e pela primeira vez, talvez escreva qualquer coisa a pedido. Talvez.


http://adriandevilliers.com/the-traveller-returns-to-his-roots/
http://adriandevilliers.com/the-traveller-returns-to-his-roots/
Pensamos que não conseguimos abandonar o lugar onde sempre vivemos, mas, não sabemos que, lá fora, existe um mundo que não conseguimos imaginar.
Pensamos que não conseguimos abandonar o lugar onde sempre vivemos, mas, não sabemos que, lá fora, existe um mundo à espera de nos ensinar.

Por vezes penso que, o problema não é o que pensamos cá deixar, mas o que pensamos reencontrar.
Por vezes penso que, o problema não é o que pensamos lá encontrar, mas o que de nós vamos achar.



Quando vamos, nada sabemos sobre a vida noutro lugar. Então, somos obrigados a aprender, somos obrigados a voltar a olhar para as coisas como as crianças olham: pela primeira vez. É este retrocesso que nos transforma e que nos muda. Tal e qual como crescer faz de uma criança um adulto, emigrar faz de nós uma criança. E todas as crianças chegam um dia a adultos. Quando voltamos a ser adultos, não somos os mesmo adultos que éramos quando saímos do nosso país, da nossa terra. É então que, quando voltamos, sentimos o abismo. Um buraco na nossa história sem que exista uma peça que encaixe, que o tape, que o sele. Esse buraco é do tamanho de todos os lugares do mundo que conhecemos para além do lugar onde crescemos. Porque, em cada lugar do mundo, existe uma peça à espera de a descobrirmos, e que se encaixa dentro de nós.
Muitas vezes, quando estamos lá fora, pensamos por que é que lá estamos? Outras vezes, quando voltamos, pensamos o quanto é que ainda temos daqui, o quanto é que ainda somos daqui?
Despedi-me do Alex com um forte abraço e um grande sorriso. Mas, quando voltava para casa, no carro, deixei-me pensar. Talvez me tenha deixado influenciar pela quadra festiva, mas não deixei de associar que emigrar e voltar, às vezes, parece-se com aqueles bolos redondos que têm um buraco no meio. Partimos de um lugar e emigramos até completar a volta. Não interessa por quanto tempo voltamos, mas voltamos. Mas, pelo meio, não deixa de existir um grande buraco dentro de nós, na nossa vida.
Aproveitei o balanço e, quando cheguei a casa, não resisti em comer uma fatia de Pão de Ló que ainda sobrou do Natal!

Bom Ano Novo!

sexta-feira, 11 de outubro de 2013

O Largo do Carmo

E hoje, ao sentir o calor do Verão dissipando-se no aroma da frescura Outonal, recordei-me. Foi, talvez, há uns dois, três anos. Nesse dia, impelido pela frescura que só se sente na chegada do Outono, nos dias em que o céu azul-mais-vivo do Outono começa a substituir o céu azul-branco do Verão, passeei por Lisboa. Bela Lisboa. Subi a calçada do Carmo viciando-me no ar aromático que se só se liberta das sombras da terra depois das primeiras chuvas de Setembro. Lá em cima, já no Largo, os alegres verdes ainda não desbotados de castanho. Eu só queria sentir Lisboa, ver os turistas e todas as pessoas cheias de vida, alegres, e despedir-me do sol bem disposto que se retiraria até à Primavera.
Fonte: Blogue - Diário Gráfico - Eduardo Salavisa
Atravessei o Largo, atento, desperto. E. Estranhei. Estranhei corpos atentos, também eles atentos, à vida, às pessoas, aos movimentos. Alguns sentados nas escadarias do Convento, uns virados para o pórtico, outros para o Largo, alguns sentados nos bancos de jardim, alguns até de pé. Pensei que seriam alunos de arquitectura. Mas. Estranhei. "A um Sábado? Todos?", pensei. Talvez tivessem a missão de desenhar o pórtico do Convento, sei lá, qualquer pormenor daquela arquitectura, mas através de um olhar cuidado percebi que nem todos, ou quase todos, se não todos, não olhavam para o convento. Pressenti-lhes os olhares perscrutadores, de quem mira os transeuntes, de quem vê as pessoas, de quem se interessa por qualquer coisa que, também eu, por vezes, me interesso. Parei. Observei-os ainda com mais atenção e vi-os a gatafunhar em blocos de papel, cadernos. A mirar-me de perfil, um deles. Virei-me sem disfarçar. Reparei na rapidez com que gatafunhava e eu, curioso, sem saber se eram gatafunhos escritos, gatafunhos desenhados. Ele, cada vez mais rápido. Cada vez mais rápido. Olhava para mim, olhava para o caderno, olhava para mim, olhava para o caderno. "Está a desenhar-me!", pensei, "Porquê?". Tentei descobrir movendo-me um pouco, uns passos, e ele, cada vez mais rápido, olhava para mim, olhava para o caderno. "Porra, está mesmo a desenhar-me!" Observei as outras pessoas que desenhavam, talvez alguns escrevessem, e pensei em perguntar. Hesitei. Caminhei. Pensei. Hesitei. E não perguntei. Abandonei o Largo do Carmo curioso, querendo voltar para trás e perguntar. Mas não voltei.

Saboreei um pouco mais aquele dia de Verão-Outonal passeando por outras ruas de Lisboa, onde a energia da cidade parecia revitalizada pelas primeiras chuvas que, terminadas, nos inspiram um último fôlego de calor antes da chegada das brumas invernais.
Com o bichinho a morder-me decidi voltar a passar pelo Largo do Carmo no caminho de regresso. Junto ao Convento e espalhados pelo jardim do Largo ainda lá estavam os atentos observadores. Nos degraus do chafariz, no meio do Largo, um casal de meia idade conversava, com cadernos fechados na mão. Sentados, ele acendeu um cigarro e ela abriu o caderno. Observei, talvez durante uns três, quatro minutos, e mais que desenhar parecia-me que aquela mulher escrevia. Mais lenta do que os outros, mais regular. Pareceram-me simpáticos e decidi investigar, dirigindo-me a eles. Ainda me faltavam alguns passos para os abordar quando a senhora me viu, fazendo-a soltar imediatamente um pequeno riso, afável. Ri-me também. E. Indaguei se não era o primeiro a perguntar o que estavam a fazer? "Sim, é o primeiro. Mas já estranhava ninguém perguntar!", disse ela. Notei uma pronúncia estrangeira e um português aos solavancos. Perguntei de onde eram e se eram todos estrangeiros  "Somos alemães, mas vivemos em Portugal. O resto das pessoas que desenha devem ser portugueses, imagino", disse ela meio em Inglês meio em Português. Aproveitei para me sentar ao seu lado, descontraído, e entre a língua de Camões e a de Shakespeare lá nos entendemos: 
– Então, diga-me lá o que é que andam a fazer? - e esbocei um sorriso malandro.
– Temos de desenhar pessoas em movimento." -  mostrando-me o caderno.
– Pessoas em movimento? Só pessoas? E essa tarefa faz parte de um curso?
Pautada por dificuldades na pronúncia e no vocabulário a senhora lá foi respondendo.
– Está a decorrer um workshop do Eduardo........ Eduardo...... "
– Salavisa? - arrisquei...
– Sim, Salavisa! É um workshop que decorre no Convento e agora temos de desenhar pessoas em movimento.
Espreitei o seu caderno onde desvendei troncos cortados, membros deformados e cópias de pessoas como se tentasse produzir dispositivos para desenhos animados: o movimento. Falámos mais um pouco até eu decidir que não os queria incomodar mais. Dissemos adeus. Caminhei devagar pelo resto do meio Largo para dar uma oportunidade aos desenhadores. Assim, talvez, também evitá-se em sair-me cortado! Voltei a parar, perto de alguém que sabia que me observava. Olhei o céu. Fechei os olhos, inspirei fundo inalando o ar aromático que se só se liberta das sombras da terra depois das primeiras chuvas de Setembro. Quando voltei a abrir os olhos vi o céu azul-mais-vivo que começa a substituir o céu azul-branco do Verão. Voltei a andar para sentir o movimento até que fiquei a pensar que a memória daquele dia não está apenas gravada nestas minhas palavras, mas também em cadernos e blocos de desenho, sempre revisitada quando sinto o calor do Verão dissipando-se no aroma da frescura Outonal.

Fonte: Blogue -  Diário Gráfico - Eduardo Salavisa

quinta-feira, 19 de setembro de 2013

O fim do Mundo

A noite traía-o. Trazia-lhe os pesadelos, a dúvida, o peso de tudo o que era de dia. Interrogava-se, mas tentava sempre fechar os olhos e dormir. Há uma semana que estavam acantonados perto de uma aldeia montanhosa e solitária à qual tinham de prestar auxílio humanitário e protecção, tudo o que pudesse salvar aquelas pessoas da miséria de uma existência invisível e indizível. A aldeia tinha sido ocupada como refúgio passageiro de um bando de criminosos, foras da lei, cuja única recordação era a truculenta violação das mulheres adultas e adolescentes, o espancamento dos homens, e o furto das colheitas de subsistência. Quando eles chegaram equipados dos pés à cabeça, como extra-terrestres, os aldeões olharam desconfiados e alquebrados para aquela nova coluna de forasteiros que eles não sabiam o que lhes haviam de roubar agora. A desconfiança dissipou-se com a passagem dos dias após os apoios, médico e alimentar, prestados. Ninguém na aldeia falava outra língua senão o dialecto local e ninguém daquele contingente falava aquele dialecto. Comunicavam por gestos mas guiavam-se pelas palavras do olhar, que, em qualquer lugar não tem nada mais que um só dialecto. Ele, olhava para as tisicas crianças famintas, sujas, e temia perder as forças. Por vezes, algumas corriam atrás dele, agarrando-lhe pelas calças, gritando "Choc! Choc!", tal como aprenderam, suplicando assim por mais uma daquelas barras de chocolate que lhes davam, e que até há chegada destes forasteiros jamais imaginavam. E quando estava de turno a servir refeições? A dor de ver aquelas figuras de trapilhos a estender a mão para receber como se recebessem da mão de Deus. Não que se sentisse Deus, longe disso, mas sim o tormento das suas interrogações. Que lugar seria aquele, para que, quem ali nascesse não tivesse outro destino senão aquele mesmo? E, como, num lugar onde nada existe se pode semear todas as humanas ignomínias, como ódio, a indolência, a vingança, a ganância, e todas as torpes do ser humano?
http://feedanza.deviantart.com/art/Desert-mountains-348100480
Mas ainda haviam os turnos de reconhecimento e ronda do local. Era então que subiam mais e mais aquelas montanhas rochosas, de paisagem inóspita, árida e áspera. Quando subia as inertes montanhas, era quando ele pensava que estava no fim do mundo. Lá em cima deixava-se ficar no cume e olhava, voltando a pensar que só podia estar no fim do mundo. O que mais se pode chamar a um lugar onde nada existe senão o nada? Nada mais que apenas as formas da natureza nua, desprovida de qualquer cheiro de esperança e de vida? Que lugar é este onde nem sequer uma flor quer crescer, onde nem sequer uma gota o quer regar, onde nem sequer o som quer ouvir-se? Ficava assim absorto a olhar para o deserto árido das montanhas asiáticas onde só o o sofrimento das pessoas na aldeia o relembrava que não estava noutro planeta.
Mas era a noite que mais lhe custava. Perscrutava o céu das noites de lua nova onde o azul-noite era um azul-puro e onde as estrelas eram mais estrelas. Afinal, ele estava no fim do mundo e no fim do mundo só se pode estar mais perto das estrelas. Depois era a estranha ausência do som, que, estando ele mais perto das estrelas era como se estivesse mais perto da tranquilidade do espaço celeste. E, por fim, depois de não haver nada mais para além dele mesmo na imensidão do espaço celeste, era a estranha sensação de nunca ter estado tão dentro dele mesmo, não fosse o fim do mundo o lugar onde o interior toca o exterior, tal como o céu toca as estrelas.
Era assim que a noite o traía, trazendo-lhe os pesadelos, a dúvida, o peso de tudo o que era de dia. Interrogava-se, como num lugar onde nada existe se pode semear todas as humanas ignomínias, e se pode encontrar todas as torpes do ser humano? E, depois, quando finalmente tentava fechar os olhos e dormir, lembrava-se que tudo será possível existir onde o ser humano chegar, mesmo até, no fim do mundo. 

terça-feira, 17 de setembro de 2013

Desafio - Bibliotecas

Decidi responder a um pequeno desafio lançado por um blogue que vou acompanhando. O desafio é escrever qualquer coisa sobre a biblioteca que costumamos frequentar. Em baixo apresento-vos o pequeno texto que escrevi. Quem quiser pode participar livremente no desafio!

"Não me lembro da primeira vez que entrei na biblioteca da minha cidade. Não sei se ainda era pequeno pequenino e andava na Escola Primária, ou se, já só era pequeno pequeno e andava no Escola Preparatória. Era num edifício velhinho e o velho soalho de madeira rangia rangia. Lá dentro, eu gostava do cheiro que, mais tarde, vim a descobrir que é o cheiro dos livros antigos, velhos, mas bons bons. Eu e os meus amigos consultávamos livros para fazermos os trabalhos da escola. Quando os textos eram longos tirávamos fotocópias e, quando eram curtos, copiávamos para o caderno. Lembro-me de levarmos cartolinas onde colávamos as fotografias recortadas das revistas ou jornais e escrevíamos com lápis de cor ou canetas de feltro. Quando já éramos mais crescidos crescidos transcrevíamos as fotocópias ao computador. Mais tarde, já eu grande mas não crescido, foi construída a nova Biblioteca Municipal Laureano Santos. A primeira vez que nela entrei estranhei o piso regular e senti nostalgia pelo rústico som do soalho antigo. O cheiro dos livros ainda não impregnara o edifício e, por isso, saí um pouco desiludido. Quando voltei, convenci-me que esta seria a minha nova biblioteca. E aluguei o meu primeiro livro. Mas não sei qual!”

Para ver o texto publicado com fotos:

http://as-leituras-da-fernanda.blogspot.pt/2013/09/bibliotecas-de-portugal-biblioteca_13.html

Para participar no desafio:

http://as-leituras-da-fernanda.blogspot.pt/2013/07/desafio-bibliotecas-de-portugal.html

quinta-feira, 5 de setembro de 2013

O que eu tenho para te dizer

Com o fim das férias, Setembro. Para trás as manhãs manhãs e os fins de tarde na praia. O sossego das praias longe da cidade, dos prédios, de toda a confusão da qual queríamos fugir. Na tranquilidade da areia branca e fina a leve brisa do vento afastava-me de qualquer lugar, mesmo dali. Nesse torpor das palavras silenciosas da natureza adormecia. De manhã acordavas-me quando o sol já era forte e íamos para o apartamento almoçar. Depois adormecias e sentava-me a ler uma revista ou, simplesmente, a pensar em qualquer coisa. Por vezes, quando era preciso, ia ao supermercado. Não tínhamos televisão, ainda bem. Líamos o jornal para saber as notícias, chegava. Nas férias preciso de fugir de tudo, mesmo de tudo, incluindo todas as coisas que só me fazem perder tempo. Enquanto dormias a sesta pensava em como deveria dizer-te o que tanto preciso contar-te, se, até, deveria contar-te nestas férias ou só depois? Mas quando acordavas ligavas logo o portátil e consultavas o e-mail da empresa. E ficavas ali um tempo a responder. E eu. Já não dizia o que te queria dizer. Voltávamos para a praia quando o sol já não era forte, quando a temperatura era agradável, morna. Este verão a temperatura da água estava maravilhosa. Nadámos muito. Um ou outro dia convidámos alguns amigos para vir ter connosco, outras vezes, fomos ter com eles. Em todas as viagens de carro telefonaram-te da empresa. Atendias com o telemóvel ligado ao sistema de som do carro e eu ficava, assim, a ouvir todas as coisas que não percebo e que tu fazes no teu emprego. Talvez um dia venha a perceber alguma coisa. Nos fins de tarde, antes de irmos para casa, passávamos por um café ou um bar qualquer à beira da praia, e ficávamos ali sentados a ver o pôr-do-sol, tu, sempre com um cocktail, eu, sempre com um sumo fresco daqueles tipo tropical. Nos primeiros dias ligavas-te à internet através do telemóvel usando o plafond da empresa mas rapidamente gastaste o tráfego a que tens direito. Nos dias seguintes, sem saberes, eu tentava sempre levar-te para um bar sem wi-fi, porque quanto te ligavas à internet possuía-te uma obsessão e não me ligavas nenhuma. Não conversávamos e pouco nos olhávamos, tu, sempre com a cabeça inclinada para baixo como se as férias não se passassem ali. Ainda te enganei nos primeiros dias mas depois começaste a seleccionar os bares com wi-fi. Cedi para não me zangar. Não haveria problema se falássemos, mas tu nunca falavas.
A seguir ao pôr-do-sol íamos para casa, tomávamos banho, e saíamos para jantar fora. Eu procurava um restaurante acessível, de bom gosto, e se possível, discreto, sem a confusão dos dias de férias de Agosto. Tu só perguntavas se tinha wi-fi? Quando o restaurante me interessava tapava os ouvidos e entrava lá para dentro para marcar mesa, sem querer saber a tua opinião. Sem internet, lá conversávamos um bocadinho. Não interessava a conversa. Depois do jantar passeávamos pela marginal, pelos vendedores ambulantes, até nos voltarmos a sentar num bar qualquer para beber um copo, comer um gelado, descansar as pernas. Até teres descoberto aquele bar com wi-fi. Paravas sempre ali, porque eu vinha sempre um pouco mais atrás, na distracção de todas as coisas da venda ambulante. No bar, ligavas-te outra vez à internet, e eu, olhava. Não para ti. Para todos os outros que pareciam estar ali, tal como tu, só para uma coisa. Cabeças baixas a espreitar para os pequenos visores de onde, em quase todos, irradiava uma luz branca e azul, provavelmente o Facebook, como uma praga de pirilampos. Às vezes queixavas-te que não estavas a conseguir ligar-te à net, que deveria ser de todas aquelas pessoas estarem ligadas e enfraquecerem o sinal. Ainda bem! Todos os bares e restaurantes com wi-fi estavam cheios cheios. Deixavas-me no lugar da solidão e foi assim, nesse lugar, onde reencontrei guardada num cantinho da memória, a lembrança daquelas caravanas de telefones fixos que, quando éramos crianças, eram colocadas nas cidades do Algarve para telefonarmos para casa. Lembrei-me das filas que havia para entrar nessas caravanas, só para dar uma simples notícia à família, só para saberem que estava tudo bem. E, depois, era fácil voltar às férias. Uma vez por outra o meu pai passava-me o auscultador para falar com o avó, a avó, avisando-me um tempinho depois para me despachar que a chamada era cara. E, enquanto tu fazias companhia ao Facebook, lembrei-me também do primeiro telemóvel do meu pai que, numa dessas férias, usámos pela primeira vez para telefonar para os avós. Nesse ano ainda havia filas nas caravanas dos telefones, mas no ano a seguir já não e, no outro ano, jamais vi as caravanas. Bem que estar num café ou bar contigo é quase a mesma coisa que estarmos dentro duma dessas caravanas. As férias foram passando e nem tive tempo de te dizer o que ando há algum tempo para te dizer. Pensava que nas férias seria fácil, mais fácil, que iríamos ter tempo para falar mais, mas, principalmente, para falar melhor, ou seja, ouvirmo-nos melhor. Mas talvez tenha sido melhor assim, porque, acabámos as férias e eu não te disse o que tenho para te dizer: ainda te amo muito mas estou apaixonar-me por outra mulher.

sábado, 20 de julho de 2013

Lua-de-Mel em Teerão - Azadeh Moaveni

É bom, muito bom ler, um livro como este. Para quem nunca se deslocou ao Médio Oriente, ou particularmente ao Irão, pode ser difícil desmitificar a imagem fundamentalista radical que os media e a opinião generalizada detém, ou erroneamente transpõe dos Iranianos. Digo Iranianos e não Irão. Irão, além de  um conceito muito mais abrangente, é, sem duvida alguma, algo muito mais complexo e intrincado. Por outro lado, Iranianos, não são mais nem menos do que quaisquer outras pessoas, como tu, como eu. É verdade que no Irão existem fundamentalista radicais. Mas também é verdade que existem moderados e seculares modernistas. E, como em qualquer outro lugar do mundo, o povo Iraniano, em geral, não merece que  a sua imagem seja padronizada e estigmatizada pelos valores de uma minoria, ou neste caso particular, pelas acções do establishment clerical que assumiu o poder na sequência da revolução Islâmica de 1979.
Em Lua de Mel em Teerão, Azadeh Moaveni (Casa das Letras), uma repórter Iraniana educada nos Estados Unidos, demonstra através da sua experiência pessoal quem são os Iranianos, o que é o Irão, e o quanto este povo é injustiçado pela opinião pública globalizada. No Irão, Azadeh encontra o amor, o valor da família e o valor da pátria. Os Iranianos, tanto como qualquer cidadão de uma democracia Ocidental, ambicionam justiça e desejam que um dia o seu país reúna as condições de lá serem felizes. Os dilemas das famílias e dos comuns cidadãos, a sua constante luta contra um poder instalado e contra as dificuladades de uma nação em abraçar as mais variadas formas de qualidade de vida que, normalmente, estão associadas, e por vezes limitadas, às democracias Ocidentais, pensamos nós.
Os Iranianos comuns são boas pessoas, muito boas pessoas, que te recebem bem, muito bem, em sua casa, que te fazem perguntas, muitas perguntas. Ajudam-te quando precisas, e, neles, sentes um desejo incipiente de serem livres, uma vontade enorme de terem a oportunidade de liberdade que tu tens. Querem saber como é viver na Europa, querem saber o que pensamos deles, porque, neles, sentimos um enorme desgosto pela imagem que eles julgam, e que na verdade, nós temos deles.
E, nunca senti tamanha aspiração em ninguém, em nenhum outro lado, em conseguir a oportunidade de recomeçar uma outra vida, a sua vida.
Um livro no mesmo género literário de Cisnes Selvagens de Jung Chang, onde as atribulações pessoais e história de um país, são narradas em estilo de romance.
Para compreendermos que não podemos julgar um povo pela imagem dos seus líderes, porque quem está no poder é quem gosta de poder.

quarta-feira, 3 de julho de 2013

A mulher das botas doc martens e do chapéu-de-côco estilo homem

Ele, sentado, na cafetaria à saída de um Centro de Exposições. Um copo de uísque entre os dedos, duplo. Duas pedras de gelo. O café é como o interior de um enorme cubo branco, hermético, autónomo. Nas paredes, quadros de coloridas pinturas álacres assemelham-se a janelas. Os visitantes. Esculturas enigmáticas como peças temporárias da exposição. Rostos desconhecidos que o confortam. Sim, confortam. Rostos passageiros. Não como noutros cafés. Abomina esses lugares a que nós chamamos de cafés. Lugares de paragem. Mas não este onde ele está. Não é um lugar de paragem é um lugar de passagem. Como tudo na vida nada se repete, pensa ele. Mais um trago. A aspereza a descer, o calor a subir. Outros visitantes que terminam. E ele. De copo de uísque na mão, agora vazio. Sobe o braço. Sobe os olhos. Faz sinal. E. Um vulto desigual que o perturba. Pressente. Mira o empregado. Uísque?! Olha o desigual novamente e vê. A mulher das botas doc martens e do chapéu-de-côco estilo homem.
Ela, senta-se. Acompanhada. Só uma amiga. Perscruta um empregado. Encontra-o numa mesa a servir um uísque. Faz sinal. E topa o homem a quem foi servido o uísque. Não reconhece. Ele disfarça. Ela finge que não liga. Falam com o empregado, fazem o pedido. Ela finge procurar qualquer coisa pelo balcão, tentando topar novamente o homem do uísque. Tem a certeza que não o conhece. Volta a conversar com a amiga, até o empregado voltar. Uns sumos, umas sandes. Leves. Não liga ao homem, mas sabe que ele olha. Até o acha atraente. Rosto marcante. Mas deixa transparecer um certo nervosismo que a intimida. Alheia-se observando os quadros expostos, fixando com particular atenção um quadro bucólico de cores verdes desbotadas pela chuva pintada.
E ele. Ele topa-lhe a distância do olhar trespassado pela janela daquele quadro bucólico. E percebe que as paredes brancas nos museus transformam os quadros expostos em janelas que nos fazem sentir tanto um sopro de libertação como um aperto de prisão. Mas não entende se aquela paisagem a prende ou a liberta, porque o seu olhar é um lugar intangível. Nervoso gira o uísque pelo copo. Beberica. Não sabe o que o atrai. O chapéu-de-côco estilo homem? Não sabe. Mas pressente. Talvez devesse recordar-se de qualquer coisa, mas nada. O rosto? Também não. Sente-se desconcertado e levanta-se. Paga ao balcão. Saí. Ela. Já só repara na sua silhueta esquivando-se entre um bando transeuntes.
Na rua, movimento. Caminha acossando o lugar inextríncável da memória. Agudiza. Não encontra. E entre os rostos passageiros dos demais deambulantes o pressentimento exacerba-se. O ar. Toca-lhe. E pressente.  Mas afinal, que ubiquidade e safareza o perseguem? Pára para se acalmar. Fecha os olhos e respira fundo. Sente a leve corrente de ar. Está mais calmo. E retoma o caminhar, agora por uma rua menos movimentada onde os rostos não o persigam. Até que. Até que passa por um quiosque e lá dentro, sentada, a mulher do quiosque, de cabeça descaída para a direita tal como.......... e recorda-se. Há muitos anos. Há muitos anos que ali passou e sentiu. O toque do ar. É essa a indelével presença da mulher das botas doc martens e do chapéu-de-côco estilo homem. Há precisamente 4452 dias, quando ali passou, a mulher do quiosque estava exactamente naquela mesma posição, com aquele mesmo olhar, com aquele mesmo suspiro. E nesse dia ele sentiu precisamente o que hoje sente. 4452 dias é o tempo que a vida demora a dar a volta ao mundo. Pensou. Hoje respira o mesmo grão de ar que respirou há. Hoje sente o mesmo toque do vento que. E hoje o dia repete-se exactamente como há 4452 dias. Devia saber o que vai acontecer, mas ainda não se lembra. Só sabe que tem de continuar a andar porque. Ainda pressente. Sabe que tem de girar o seu corpo e voltar-se para trás. E. O olhar sedutor, quente, meigo, de um vulto desigual que o perturba, e vê. A mulher das botas doc martens e do chapéu-de-côco estilo homem. Ele. Pára. Ela. Uma expressão dócil nos olhos, um sorriso nos lábios, passando-lhe demasiado perto para o prender no seu perfume. Ele. Pressente. Também lhe escapa um sorriso, mas não se lembra. Devia lembrar-se. E ela, enquanto passa por ele, deixa um rasto de gesto de braço acariciando o ar, provocando-o. Ele começa a sentir o que vai acontecer: talvez o calor dela dentro dele que há demasiado tempo  anseia pela redenção? Ele está parado e vê-a a afastar-se. Lentamente, muito lentamente, a névoa das suas recordações dissipa-se. A nitidez. E agora tudo se passa como a reprodução de um filme em câmara lenta. Começa e estender-lhe a mão e, nela, o sorriso cresce. Lentamente. Mas ela não entende. Ele tenta dizer-lhe, qualquer coisa, porque sabe, sabe o que vai acontecer.
Ela rodopia sobre si, lentamente, ruborescendo, alegre.E ele, lentamente, sempre muito lentamente, já com o braço estendido, na iminência das suas palavras jamais pronunciadas, sabe, tal como há 4452 dias atrás. Fechou os olhos, descobrindo a trágica recordação da mulher das botas doc martens e do chapéu-de-côco estilo homem. Um carro, o despiste. Ela, lentamente rodopiando para ele de sorriso marcado, intemporal, na sua última volta, como se a vida demorasse 4452 dias a dar a volta ao mundo. Dentro dele. A gravação de um gesto, a sua assimilação profunda, e a sua reprodução lenta em sequências de imagens como um dispositivo fotográfico em velocidade lenta. A intemporalidade manifesta-se na lenta reprodução das imagens das nossas recordações. Tenta reconstituir cada fracção, cada momento, porque, quanto mais importante é o momento, mais lentamente o reproduzimos. E, 4452 dias depois, as palavras estão-lhe na boca, os gestos estão-lhe na alma, e, no meio de todos aqueles rostos desconhecidos que se juntaram, curiosos, piedosos, sobrou-lhe um rosto, do qual sabe que tem de contar a história. Novamente. E, quando lhe pedem para testemunhar, ele já o que dizer, tal como disse há............ e explicou:: "A mulher das botas doc martens e do chapéu-de-côco estilo homem........Ela".

quarta-feira, 12 de junho de 2013

Um encontro com José Luís Peixoto

Hoje, que já não é hoje, este blogue faz dois anos. Parabéns blogue! Não posso deixar de agradecer a todos os visitantes, tanto os mais e os menos assíduos. Tenho de confessar que é motivante e importante saber que o blogue tem os seus leitores. A todos os que me têm acompanhado um enorme OBRIGADO. Mas tenho de admitir que quando escrevo não posso esperar nada, não se pode esperar nada. Talvez, assim, e só assim, se consiga escrever desinibidamente livre, e, talvez, assim, e só assim, se consiga realmente ser verdadeiro. Por vezes releio os rascunhos que fui escrevendo, e, por vezes, não sei bem se realmente sei escrever. Talvez, tenha uma desinibição maior que a imaginação. Por falar nisso, conto-vos uma estória. Este último fim-de-semana fui à feira do livro de Lisboa e aproveitei para que os meus livros do José Luís Peixoto fossem autografados. Enquanto aguardava na fila, por vezes, olhava para as outras pessoas que também estavam na fila, a jovem mãe com uma menina pequena, a mulher a ler um dos livros do Zé Luís, a permanente conquista por um espaço nas barracas, e, por outras vezes, pensava no que diria quando finalmente chegasse a minha vez. Ou, então, ainda por outras vezes, olhava para o Zé Luís que parecia sempre muito simpático a falar com as pessoas. E eu, eu descontraia. Até que. Chegou a minha vez. O meu tronco já estava ligeiramente inclinado para a frente, em posição de arranque, e o meu pé direito descolara ligeiramente do chão, quando um senhor, vindo de um qualquer lado, pediu-me desculpa, só um minuto! Parei o meu arranque. Obviamente que, aquele senhor, conhecia o Zé Luís. O Zé Luís levantou-se, cumprimentou o tal senhor, falaram um pouco, o senhor voltou-me a pedir desculpa, eu voltei a dizer que não havia problema, até que, o Zé Luís e o senhor se despediram, o senhor voltou uma vez mais a pedir desculpa, e eu, eu avancei. É agora!, pensei. E o Zé Luís, muito simpático, pediu-me novamente desculpa, dizendo que compreendia ser chato estar há tanto tempo na fila, para que. Para que, quase quase no momento, aquele momento, afinal, ainda não fosse o momento. Respondi que não havia problema nenhum, que, assim, até aumentava o suspense e a emoção, aquele suspense do, É agora!, …..não não é……. É agora!..... não……… agora é que é! E lá se foi todo o plano das coisas que eu tinha pensado dizer quando chegasse a minha vez. Já sentados, dei-lhe os dois livros, O Abraço, e, Dentro do Segredo. E ele. Como te chamas? João Paulo. E eu. E eu disse-lhe que quando lia as suas crónicas na Visão me assustava. E ele. Porquê? E eu. Por causa da forma, da forma como vocês assimilam as coisas, você e o António Lobo Antunes, que também escreve as suas crónicas para a Visão, a forma, a essência da coisas. E ele: Mas o que eu escrevo é muito diferente do António. Assustado?? Talvez não seja essa a palavra. E eu. Que outra palavra será então, se como me sinto é mesmo assustado? E sim, por serem diferentes é que me assusta, exactamente por ter de existir algo comum. E ele. Assustado? Talvez seja um boa palavra. Tu escreves? E eu, eu a pensar que ele tem é de me despachar, claro que, assustado, vendo bem, arruma-se o assunto, serve mesmo! E eu. Vou escrevendo umas coisas, mas não tenho jeito. O que é que eu havia de dizer em frente do José Luís Peixoto? Que não escrevo nada mal?! Que até sou assim assim?! E ele. Porquê? E o que é que as pessoas acham do que escreves? E eu. Só os meus amigos é que vão lendo, e até vão dizendo que gostam, mas amigos são sempre suspeitos. E ele. Porquê? Confiança, tens de ter confiança, porque é que  hás-de escrever mal? E eu, lá disse. Tenho muito para aprender. E ele. Eu não sei se o que tu escreves é muito complexo, tipo Eça de Queiroz, ou se é daquelas coisas lamechas, mas…………… e eu não ouvi mais nada porque fiquei a pensar, como é que afinal eu escrevo? Mas, como disse, não escrevo nada de jeito, e descontrai. Falámos mais um bocado, sobre esta coisa do escrever. E eu, a pensar se perguntaria, ou não, todas aquelas coisas absurdas que me tinha lembrado enquanto aguardava na fila, mas que, por momentos, um senhor amigo do Zé Luís, as tinha eclipsado. Pergunta, dizia para mim! Não, não sejas absurdo! E eu. Claro que perguntei. Diga-me uma coisa, não sei se isto lhe faz sentido, mas na sua escrita não precisa de encontrar um balanço entre desinibição e imaginação? E ele. Ele, ficou a olhar para mim. E lá disse. Tens de escrever o que te apetece, sem obrigação, e sem te preocupares em nada. Não escrevas a esperar nada. E eu. Sim, claro, isso seria um erro muito grande. Aliás, quando comecei a escrever, sempre disse que jamais o faria no dia em que ambicionar um qualquer tipo de retorno. Mas. Mas eu não disse isto, e disse só que, sim, que era um grande erro. E voltei a encher os pulmões para uma nova pergunta. E você, quando escreve, por acaso é uma pessoa térrea ou fica com a cabeça no lugar da imaginação da sua escrita, e tudo cá fora, à volta, é outro mundo, não conseguindo concentrar-se em mais nada? E ele? E ele, voltou a olhar para mim. Porra, que pergunta mais estúpida! Eu sabia que devia ficar calado! Afinal aquele senhor amigo do Zé Luís tinha lá aparecido a bom tempo, para te pôr no lugar, mas tu, tu, não ligaste nenhuma! E ele, ele lá disse. Tens é de ter confiança e de escrever sem medo o que quiseres escrever, seja o que for, e tens de praticar e batalhar muito. Treinar e aprender muito. E eu. Que pergunta mais parva! Mas não disse isto. Por esta altura, imagino eu, que o Zé Luís já pensava que dar autógrafos nem sempre é fácil. Levantámo-nos. Uns obrigados, uma boa sorte do Zé Luís, uma boa sorte para o Zé Luís, como se fosse ele que precisasse de sorte.
É desta forma que vos digo que tenho gostado bastante de escrever e que quero continuar a escrever. 
Para os mais curiosos, acrescento que actualizei a Página das Estatísticas.
Espero brevemente ter novas ideias, mas, espero ainda mais, que as saiba contar.
Obrigado.




quinta-feira, 30 de maio de 2013

A Fábula das Cidades Encantadas

Ontem participei num seminário na minha área profissional. Ao todo, cerca de dezoito, vinte participantes, sentados em mesas de três. O seminário, não era exactamente um seminário, mas mais uma propaganda comercial para venda de produtos do fabricante que promoveu o tal seminário. Eu, que não costumo ter um elevado grau de concentração nestas palestras, até me estava a a aguentar sem fechar a pestana, assim dizendo. Ouvia pormenores técnicos dos produtos em questão, apoiados por uma apresentação visual projectada sobre uma tela branca. Para auxiliar a apresentação, forneceram-nos o conteúdo dos slides, mas impressos a preto e branco. Quando o locutor quis demonstrar um exemplo prático dos seus produtos, no slide apareceu a figura de uma cidade como daquelas figuras das cidades nos livros da escola primária, onde existe sempre e sempre um rio a descer a montanha, e, no vale, lá em baixo, casas de uma lado e edifícios industriais do outro. À volta da cidade tudo é verde, muito verde, e, longe da cidade, a representação das coisas que ficam longe das cidades a completar a tal figura. No breve espaço de tempo entre o aparecimento daquela figura e o começo da explicação do locutor, e à boa maneira de um filme de ficção científica, senti-me a deslizar por uma anomalia cósmica, um salto na malha espaço-tempo, num mar plasmático onde a gravidade não existe, e, repentinamente, estamos no mesmo lugar mas numa outra época. Então, mas onde estava eu? Após essa fracção de segundo, pensava eu, que, estava sentado na mesa da sala de aula da minha escola primária. Talvez, fosse a hora da disciplina de Estudos Sociais, e, a professora, com o precioso auxilio de um pau apontador, começaria a descrever-nos que as cidades tinham crescido junto aos rios, porque, além de facilitar o acesso à água, eram, sem dúvida, uma essencial via de comunicação, podendo os habitantes daquela cidade, trocar mercadorias com os habitantes de outra cidadezinha ao longo daquele curso de água. Mas, para minha surpresa, não foi isto que o locutor balbuciou momentos depois. Ainda não percebi se por momentos estranhei aqueles corpos grandes presentes na sala, sentados nas cadeiras como eu, e que para aquela minha idade, apresentavam uma estranha aparência adulta: rostos com barba, seios salientes. Desiludi-me, mas não deixei de pensar, lembrando-me que, já antes, muito antes, tinha pensado em algo muito coincidente, porque, na minha profissão, é com frequência que me confronto com rabiscos de arquitectos. Muitos desses rabiscos podem ser lugares ou partes de cidades, transformados em linhas e cores vivas, não fossemos nós sempre crianças, e, não gostassem as crianças de cores vivas, não fossem afinal as crianças ainda vivas vivas vivas. Muitos desses rabiscos tentam vender-se, apresentando uma imagem encantada do pós-erguido, uma representação bem mais detalhada das figuras das cidades encantadas dos livros da escola primária. Ora, quando eu era pequeno, acreditei na história d'A Fábula das Cidades Encantadas e pensava que, um dia, quando fosse grande, viveria numa cidade encantada, onde as coisas estão tão bem organizadas e pintadas como nas maquetas, e como em figuras de livros da escola primária. O que me espanta, não é o facto de estas figuras aparecerem nos livros da escola primária, mas sim, ainda serem utilizadas por adultos para tentar vender a outros adultos! Ora, não sabemos nós, que, as cidades encantadas não existem? Ou será que existem? É este o meu dilema. Hoje, que escrevo, está um dia de sol e é Primavera. Lá fora, o céu é de azul esperança. Procuro o encanto nas coisas da cidade, nos prédios sujos, nos carros mal estacionados, nas pessoas apressadas, sempre com pressa, e descubro que, as cores das ruas não conseguem imitar as cores vivas e a perfeição dos livros. Mas não me desiludo. Procuro também os verdes, longe, nos montes que rondam esta cidade, e procuro também sinais de um sorriso, descobrindo que, os livros não são capazes de imitar a vivacidade dos sentidos tal como o aliviante toque de uma brisa e a morna alegria de um sorriso. E encontro dentro de mim a vontade de ver uma cidade encantada, de ver nela tudo o que é colorido, aproveitando o sol ameno para me reconfortar. Sabemos que não vivemos em cidades encantadas mas, talvez, precisemos de acreditar, mais do que as crianças acreditam, que as cidades encantadas existem e que não é falsa essa fábula que nos contaram numa sala da escola primária. Talvez, por isso, continuamos a rabiscar figuras de cores vivas numa organização perfeita, que, de certa forma, queremos tanto que existam, que, no fim, lá nos convencemos a comprar essa fábula, como se fosse um bom livro de
 "Histórias de Crianças para Adultos: Volume 1 - A Fábula das Cidades Encantadas".

segunda-feira, 20 de maio de 2013

Pelas Arábias - Adeus Qatar






Preciso de terminar e deixar para trás as aventuras nas Arábias. Há três semanas que voltei. Sim, voltei. Esta é a última mensagem desta aventura, e só a escrevo para fechar. Porque já estou em Portugal e agora tenho um sorriso. Porque já estou em Portugal, já estou. Porque já não estou lá. Se apenas tivesse uma palavra para descrever o meu último ano no Médio Oriente, dir-vos-ia incolor. Um ano incolor. Onde não existiu nem a cor nem a escuridão, um ano neutro como daqueles que não contam. Não foi difícil decidir apesar de, cá, o futuro ser uma incógnita. Já não é. Já sei. E mesmo assim decidiria voltar. Tentei escrever nos últimos dias em que ainda lá estava. Mas não fui capaz. Inventei muitos textos: quando me sentava no sofá e pensava, quando olhava pela janela, quando caminhava para o supermercado à hora de almoço ou no fim-de-semana. Mas nunca me lembrei dessas palavras quando podia escrever.
Alguns colegas continuam lá, outros também regressaram. Os que regressaram perguntavam-me se eu queria ir ao souk comprar lembranças. Não, não quis. Que lembranças me podem dar os objectos comprados num dia qualquer, sem qualquer significado para comigo, para com os dias que lá passei? Então, nesses dias, sentava-me à beira da cama, junto à mesa-de-cabeceira. Abria a gaveta. Lá de dentro tirava um envelope endereçado à minha morada do Qatar e escrita com a letra do meu pai. Eu tinha-lhe pedido para me enviar uns cartões. Ele enviou. Eu tirei os cartões, mas, quando fui para deitar o envelope no lixo, olhei e vi. Vi a distância entre mim e a minha família, a minha casa e os meus amigos. Talvez porque esse envelope tenha percorrido toda essa distância. Talvez porque esse envelope seja tudo menos distância. E guardei. Porque as lembranças só serão lembranças se um dia nos trouxeram lembranças. E nesse envelope tenho todas as minhas lembranças. Porque, quando o vejo, recordo-me onde estava, mas mais importante, como estava, com quem e com quem não estava. E assim, são todas as outras lembranças de todos os outros lugares onde estive.















Fiz as malas, empacotei caixotes, despedi-me. Percorri a casa vazia e disse-lhe adeus porque também digo adeus às casas. Sim. Digo. Para isso, esperava até ficar sozinho em casa. Então, percorria o meu quarto, o corredor, a sala. Sentava-me no sofá, levantava-me, espreitava pela janela, voltava para o quarto absorvendo pela última vez o silêncio com que vivi no último ano. Escutava os sons da casa. Escutava os sons lá de fora, que eram também os sons do silêncio daquela casa, porque silêncio são tons os sons a que nos acostumamos e que, sem eles, estranhamos. Quando espreitava pela janela não via o que estava lá fora. Via a transparência do ano que ficou para trás, via a opacidade do que poderia vir à frente. E voltava a sentar-me no sofá a ler um livro que fechava passados poucos minutos, porque eu não estava lá.
A caminho do aeroporto alguns diziam adeus. Adeus Doha, adeus Qatar, e já do outro lado da baia, adeus West Bay. Adeus para sempre. E eu. Suspirei. E lá disse: “Não digam isso. Há três anos disse o mesmo do Dubai. Disse que só voltaria passados vinte anos e só se fosse fazendo escala a caminho da Austrália! Vejam bem que, já lá voltei quatro vezes!”
Cumpri os objectivos que há um ano me fizeram decidir ir. Por isso estou feliz. Agora, sei que era hora de voltar, hora de me reencontrar. Porque se há coisa que eu possa dizer do Médio Oriente é que me sinto estranhamente fora de mim, perdendo-me lentamente.
Então, nesses momentos, abria a gaveta da mesa-de-cabeceira e um simples envelope recordava-me das lembranças que ainda tenho de mim. E voltava a encontrar-me, relembrando-me. Porque as lembranças só serão lembranças se um dia nos trouxeram lembranças. Adeus Qatar, adeus Médio Oriente.











sexta-feira, 29 de março de 2013

Cisnes Selvagens - Três Filhas da China, Jung Chang


Para os mais atentos, eu já tinha comprado este livro antes das minhas férias de Natal. Talvez seja o livro que, até hoje, mais gostei de ler. A mistura de disciplinas como História e Sociologia, diluem-se num extraordinário exercício de estudo da condição humana, tanto individual como familiar. Além disso, a história verídica de Jung Chang, é narrada na forma entusiástica de romance, transmitindo um prazer redobrado à leitura. Adorei, as descrições das paisagens da China, adorei as tramas familiares e os dilemas individuais, adorei aprofundar-me em considerações sociológicas. É um livro longo, e demorei cerca de um mês a lê-lo, mas recomendo a leitura. Na minha classificação: Obrigatório!



Em Cisnes Selvagens, Três Filhas da China – Quetzal Editores:

Cisnes Selvagens faz-nos penetrar profundamente na China; dos palácios às celas de prisão, das grandes manifestações insurrecionais à intimidade dos quartos, onde as confidencias das mulheres passam de mãe para filha. Impressionante na sua dimensão, inesquecível nas suas descrições do longo pesadelo da China, é simultaneamente um importante documento de historia contemporânea e um extraordinário testemunho do espírito humano. Combinando o intimismo da memória com o fôlego épico de um romance, Cisnes Selvagens, conta a história de três mulheres, a própria Jung Chang, a mãe e a avó materna – cujos destinos reflectem a história tumultuosa da China do século XX. À medida que os anos passam nesta bem urdida trama familiar, vemos três vidas desdobrando-se uma após outra, através do amor, da tragédia e da renovação.”

Um romance fascinante e poderoso, que atravessa três gerações de mulheres de uma família que viveu o entusiasmo, a repressão, a violência e a degradação do regime chinês e do maoísmo.”

Dentro do Segredo – Uma viagem na Coreia do Norte, José Luís Peixoto – Quetzal Editores

Também gostei muito deste livro, escrito numa forma muito simples, e de leitura relativamente rápida. Para uma compreensão do Regime Norte Coreano e da cultura Coreana. É igualmente um livro que nos faz compreender umas quantas coisas e que nos desperta para o valor que não damos à nossa liberdade e à nossa possibilidade de realização.




No Teu Deserto, Miguel Sousa Tavares – Oficina do Livro

Um livro muito curto, mas muito agradável para quem tem apenas uma ou duas tardes disponíveis. Uma história muito bonita. Um estilo diferente ao qual estamos habituados deste escritor. Uma simplicidade surpreendente.

Em No Teu Deserto:
Às vezes, lá onde moro, fico à noite a olhar as estrelas como as do deserto e oiço o tempo a passar, mas não me angustia mais: eu sei que é justo e que tudo o resto é falso.”


O Acidente, Ismail Kadaré – Quetzal Editores

Não posso dizer que gostei. O inicio é demasiado confuso e a história nunca chega realmente a desmantelar-se do novelo. Uma mistura de Romance com Policial. A ideia da história até é bastante original, mas na tentativa de aprofundar essa originalidade caiu-se no erro do excesso.






As Rosas de Atacama, Luís Sepúlveda – Asa Editores

Gostei muito. Novamente, a simplicidade.

Em Rosas de Atacama:

Um dia, no campo de concentração de Bergen Belsen, na Alemanha, Luis Sepúlveda encontrou gravada numa pedra uma frase de autor anónimo que dizia: «Eu estive aqui e ninguém contará a minha história.» Essa frase trouxe-lhe à memória toda uma galeria de personagens excecionais que havia conhecido e cujas histórias mereciam ser contadas.“

“…sob o sol piemontês…..
Enquanto bebia o vinho da última vindima, fiquei a saber que sobre a trattoria pesava uma condenação à morte, que o Município decidira deitar abaixo a casa argumentando que não reunia as características necessárias para a incluir no inventário de edifícios históricos, visto que os seus 150 anos não significavam grande coisa numa cidade com edifícios milenares, e que o terreno se destinaria a um edifício moderno.
A casa em questão não é bonita, mas é bela. Sobretudo nas tardes de Verão, quando Rosella tira as mesas para a rua ou coloca algumas debaixo dos arcos de uma velha cavalariça. Então, à luz de umas velas, janta-se num ambiente perfumado por loendros e pelas verduras que crescem numa horta próxima. Janta-se e canta-se. Aparece sempre um guitarrista qualquer, e à segunda canção a trattoria transforma-se numa festa familiar. Mas nada disto importa à modernidade.”


O Terceiro Reich, Roberto Bolañ o, Quetzal Editores

Não gostei da história. 

sábado, 9 de março de 2013

As tuas palavras ternas

E agora, depois de casada, depois de filhos, é que me dá para esta angústia. Continuo sem perceber se a culpa é minha, se é tua, se de ambos ou de ninguém. Há um ano que vivo assim, sobressaltada, sem te punir na desconsideração do olvidamento. Mas. O meu marido, os meus filhos, os meus pais. Sempre gozámos as férias em Agosto, desta vez lá vamos em Julho, lá convenci o meu marido. "Porquê?" perguntou ele "Porque é que queres em Julho, se sempre gozámos as férias em Agosto?". E eu a tentar convence-lo que me apetece mudar, experimentar outro mês para conhecermos pessoas diferentes, para desta vez não te ver a ti, sabia eu dentro de mim. Espero que não tenhas tido a mesma ideia, também tens a tua mulher, a tua filha. Ontem, ao arrumar as malas, as minhas roupas, peguei naquela t-shirt que me gabaste, dizias que era era bonita, era a cor dos meus olhos, e voltei a colocá-la dentro do armário, claro que não a vou levar, até que antes de fechar a mala, voltei a pegar na t-shirt e enfiei-a dentro da mala, nem a dobrei, não quero saber, mas que parva que eu sou, como se a fosse vestir à espera de te encontrar. Conhecemo-nos uns dias antes, antes desse dia em que nos beijámos, naquela vila Alentejana. A tua mulher preenchia os dias na praia, dizias tu, o meu marido ia de jipe com os amigos fazer todo-o-terreno, dizia eu. E sobrávamos nós, na vila, onde, à tarde, a seguir de almoço tu ias ao café, onde, à tarde, a seguir de almoço eu ia ao café, e, onde, trocámos as primeiras palavras. Logo logo as nossas agradáveis conversas muito agradáveis demasiado agradáveis. Eu, lá ia repetindo, “O meu marido, …..os meus filhos....”, e tu, lá ias repetindo, “A minha mulher,..... a minha filha......”. Talvez, tenha sido esse alívio, essa descompressão, a culpa de tudo isto, daquele momento. Desarmei-me, desarmaste-te. Naquele dia, confessámo-nos tanto tanto tanto que abandonámos o café já quase fim de tarde, e, deambulámos pela vila, por vielas de chão de pedra e casas caiadas, riscadas a cor de céu a cor de sol. Respirámos a tranquilidade, como não se respira em qualquer outro lugar; o tacto suavizante do Alentejo. Talvez tenha sido essa tranquilidade, essa suavidade, que nos tenha resgatado, ou, talvez, tenhamos apenas sido nós, que, nos tenhamos esquecido de muitas coisas, porque, por vezes, seria tão bom ignorar tantas coisas. Salpicados no tempo, diferentes grupos de jovens turistas estrangeiros regressavam da praia, passando por nós com o descomprometimento habitual de quem está longe longe longe de todas as preocupações que só existem no lugar onde vivemos. Talvez, nós, estivéssemos, também, um pouco assim, porque, não me lembro de sentir o medo de encontrar alguém, conhecido, que descortinasse o segredo que sentíamos a crescer. Eu adorava a tua litania, e, apesar de eu ser uma grande tagarela, só queria escutar as tuas palavras. Continuava a fazer-te perguntas não te dando tréguas, e tu, por vezes, tentavas que eu também falasse um pouco de mim, mas, quando perguntavas-me qualquer coisa, eu respondia rápido rápido rápido e virava a pergunta de novo para ti. Mas tu que me entendias, lá insistias em perguntar-me algo, ou elogiar-me algo, porque, assim, lá eu ia sabendo que me davas atenção. E eu. Gostava. Consegui extorquir-te alguns desabafos e alguns queixumes, que te davam uma expressão de menino reguila, zangado, que, a mim, me despertaram um desejo de te proteger, de te apaziguar. Quase no fim fim de tarde, como se tivéssemos esperado por aquela hora do pôr-do-sol, parámos, e observámos aquela rua estreita de pedras, as suas casas caiadas, envolvendo-se numa bruma cor-de-fogo. Concupiscentemente os meus dedos levemente acariciaram o teu braço, a eletricidade, até que,........   até que me mostrei e lá me saiu um..... “Adoro falar contigo”, e.                                    Afastei-me. E tu? Mantiveste-te afastado, não disseste nada, e eu, eu à espera da tua reacçao para poder reagir depois de ti. E tu. Nada. E eu. Aproximei-me, como podias tu não dizer nada? Feita parva aproximei-me, mas porquê? Murmurei qualquer coisa que não me lembro, de certeza que não foram palavras, apenas um murmúrio das palavras que te queria e das palavras que não te queria dizer. E tu? Nada. Como nada?! Aproximei-me mais ainda e senti a tua resposta: as tuas mãos, as tuas mãos, as tuas mãos sobre a minha região lombar, e o teu rosto meigamente encostando-se ao meu, o pronúncio dos teus lábios, perto. Começaste com aquela lenga lenga das tuas palavras ternas como se tivéssemos vinte anos e fossemos livres livres livres, como se o sonho ainda fizesse parte de nós. E eu, dentro de mim, a gostar. Desencostaste o rosto e eu desviei os olhos para não te encontrar, mas queria tanto que me encontrasses. Comecei a tremer tremer, não queria que me largasses mas queria afastar-me, e lá disse, na esperança de te demover, que fosses tu a recuar porque eu não era capaz, e lá disse, “...... o meu marido......., os meus filhos......., a tua mulher........”. Tentei chamar-te à razão quando eu própria estava fora dela, tu ias soltar-me, tu devias soltar-me. Lá dei um passo a tentar recuar, mas tu agarraste-me com mais força e eu, assustada. Os nossos ventres tocaram-se e senti o calor que já nada tinha a ver com o calor das tardes de Verão no Alentejo. Como o rasto de uma brisa a tua mão explorou-me o rosto, e sobre os teus ombros envolvi-te num abraço. Enternecida, procurei as palavras do teu olhar. Lá, nesse olhar, um reflexo: os lábios, os meus lábios. Senti o desejo enorme de te beijar, mas não tanto como o desejo de seres tu a beijar-me. Naquele momento já não tinha qualquer controle sobre mim e era tua. Podias ter feito o que fizestes. Quando os nossos olhares finalmente encontraram-se, eu, vendo dentro de ti, e tu, vendo dentro de mim, aproximámos os nossos lábios, quase quase juntos, e o calor da tua respiração entrou dentro de mim. O sangue, vivo, vivo.
http://www.myspace.com/artistwoodruff
Agarrei-te mais no meu abraço, e tu prendeste-me mais nos teus braços, e, descontrolada, lá me saiu-me um som, estúpido, um frouxo "han?..." que bem entendeste, quando eu comecei a inclinar a cabeça, a fechar os olhos e a respirar propositadamente para dentro de ti, para que o meu calor tivesse o mesmo efeito que o teu teve em mim. As nossas bocas aproximaram-se ainda mais e, naquele momento,  já nada deixaria de acontecer. Colocaste a tua mão por detrás do meu pescoço, uma última respiração, e beijámo-nos. Deixámos de estar em qualquer lugar sem ser em nós. Encontrei a verdade e a sinceridade de todas as tuas palavras e de todos os teus gestos no ardor daquele beijo, enloquecendo-me na sua proveura, na sua libertação Abracei-te mais, e, envolvemo-nos na candura de uma nuvem de algodão doce.
Terminado, largámo-nos. De soslaio, um delicado olhar intimo. Abandonámo-nos. Sim, deixámos as nossas mãos deslizar levemente sobre os contornos dos nossos braços, evidenciando o significado daquele beijo. E afastámo-nos, porque, sabíamos que, todas as palavras não seriam suficientes. Não olhei para trás. E tu, olhaste? Naquelas férias não voltei àquele café, não voltei àquelas ruas, porque não te podia encontrar. Mas todos os dias pensava se lá estarias. Se estarias sentado na nossa mesa à minha espera. Se terias voltado a percorrer as nossas ruas, com a esperança de me encontrar tão perdida quanto a tua ansiedade de me encontrar? E pensava: "E agora, depois de casada, depois de filhos, é que me dá para esta angústia. Não percebo se a culpa é minha, se tua, se de ambos ou de ninguém." E todos os dias, quando dava comigo sozinha em casa, vestia aquela t-shirt verde, cor dos meus olhos, e olhava-me ao espelho em busca das tuas palavras ternas.

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