Pelas Arábias - Adeus Qatar


Alguns colegas continuam lá, outros também regressaram. Os que regressaram perguntavam-me se eu queria ir ao souk comprar lembranças. Não, não quis. Que lembranças me podem dar os objectos comprados num dia qualquer, sem qualquer significado para comigo, para com os dias que lá passei? Então, nesses dias, sentava-me à beira da cama, junto à mesa-de-cabeceira. Abria a gaveta. Lá de dentro tirava um envelope endereçado à minha morada do Qatar e escrita com a letra do meu pai. Eu tinha-lhe pedido para me enviar uns cartões. Ele enviou. Eu tirei os cartões, mas, quando fui para deitar o envelope no lixo, olhei e vi. Vi a distância entre mim e a minha família, a minha casa e os meus amigos. Talvez porque esse envelope tenha percorrido toda essa distância. Talvez porque esse envelope seja tudo menos distância. E guardei. Porque as lembranças só serão lembranças se um dia nos trouxeram lembranças. E nesse envelope tenho todas as minhas lembranças. Porque, quando o vejo, recordo-me onde estava, mas mais importante, como estava, com quem e com quem não estava. E assim, são todas as outras lembranças de todos os outros lugares onde estive.


A caminho
do aeroporto alguns diziam adeus. Adeus Doha, adeus Qatar, e já do outro lado
da baia, adeus West Bay. Adeus para sempre. E eu. Suspirei. E lá disse: “Não
digam isso. Há três anos disse o mesmo do Dubai. Disse que só voltaria passados
vinte anos e só se fosse fazendo escala a caminho da Austrália! Vejam bem que,
já lá voltei quatro vezes!”
Cumpri
os objectivos que há um ano me fizeram decidir ir. Por isso estou feliz. Agora, sei que era hora de voltar, hora de me reencontrar. Porque se há coisa que eu
possa dizer do Médio Oriente é que me sinto estranhamente fora de mim, perdendo-me
lentamente.
Então, nesses momentos, abria a gaveta da mesa-de-cabeceira e um simples envelope recordava-me das lembranças que ainda tenho de mim. E voltava a encontrar-me, relembrando-me. Porque as lembranças só serão lembranças se um dia nos trouxeram lembranças. Adeus Qatar, adeus Médio Oriente.
Então, nesses momentos, abria a gaveta da mesa-de-cabeceira e um simples envelope recordava-me das lembranças que ainda tenho de mim. E voltava a encontrar-me, relembrando-me. Porque as lembranças só serão lembranças se um dia nos trouxeram lembranças. Adeus Qatar, adeus Médio Oriente.





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