sexta-feira, 11 de outubro de 2013

O Largo do Carmo

E hoje, ao sentir o calor do Verão dissipando-se no aroma da frescura Outonal, recordei-me. Foi, talvez, há uns dois, três anos. Nesse dia, impelido pela frescura que só se sente na chegada do Outono, nos dias em que o céu azul-mais-vivo do Outono começa a substituir o céu azul-branco do Verão, passeei por Lisboa. Bela Lisboa. Subi a calçada do Carmo viciando-me no ar aromático que se só se liberta das sombras da terra depois das primeiras chuvas de Setembro. Lá em cima, já no Largo, os alegres verdes ainda não desbotados de castanho. Eu só queria sentir Lisboa, ver os turistas e todas as pessoas cheias de vida, alegres, e despedir-me do sol bem disposto que se retiraria até à Primavera.
Fonte: Blogue - Diário Gráfico - Eduardo Salavisa
Atravessei o Largo, atento, desperto. E. Estranhei. Estranhei corpos atentos, também eles atentos, à vida, às pessoas, aos movimentos. Alguns sentados nas escadarias do Convento, uns virados para o pórtico, outros para o Largo, alguns sentados nos bancos de jardim, alguns até de pé. Pensei que seriam alunos de arquitectura. Mas. Estranhei. "A um Sábado? Todos?", pensei. Talvez tivessem a missão de desenhar o pórtico do Convento, sei lá, qualquer pormenor daquela arquitectura, mas através de um olhar cuidado percebi que nem todos, ou quase todos, se não todos, não olhavam para o convento. Pressenti-lhes os olhares perscrutadores, de quem mira os transeuntes, de quem vê as pessoas, de quem se interessa por qualquer coisa que, também eu, por vezes, me interesso. Parei. Observei-os ainda com mais atenção e vi-os a gatafunhar em blocos de papel, cadernos. A mirar-me de perfil, um deles. Virei-me sem disfarçar. Reparei na rapidez com que gatafunhava e eu, curioso, sem saber se eram gatafunhos escritos, gatafunhos desenhados. Ele, cada vez mais rápido. Cada vez mais rápido. Olhava para mim, olhava para o caderno, olhava para mim, olhava para o caderno. "Está a desenhar-me!", pensei, "Porquê?". Tentei descobrir movendo-me um pouco, uns passos, e ele, cada vez mais rápido, olhava para mim, olhava para o caderno. "Porra, está mesmo a desenhar-me!" Observei as outras pessoas que desenhavam, talvez alguns escrevessem, e pensei em perguntar. Hesitei. Caminhei. Pensei. Hesitei. E não perguntei. Abandonei o Largo do Carmo curioso, querendo voltar para trás e perguntar. Mas não voltei.

Saboreei um pouco mais aquele dia de Verão-Outonal passeando por outras ruas de Lisboa, onde a energia da cidade parecia revitalizada pelas primeiras chuvas que, terminadas, nos inspiram um último fôlego de calor antes da chegada das brumas invernais.
Com o bichinho a morder-me decidi voltar a passar pelo Largo do Carmo no caminho de regresso. Junto ao Convento e espalhados pelo jardim do Largo ainda lá estavam os atentos observadores. Nos degraus do chafariz, no meio do Largo, um casal de meia idade conversava, com cadernos fechados na mão. Sentados, ele acendeu um cigarro e ela abriu o caderno. Observei, talvez durante uns três, quatro minutos, e mais que desenhar parecia-me que aquela mulher escrevia. Mais lenta do que os outros, mais regular. Pareceram-me simpáticos e decidi investigar, dirigindo-me a eles. Ainda me faltavam alguns passos para os abordar quando a senhora me viu, fazendo-a soltar imediatamente um pequeno riso, afável. Ri-me também. E. Indaguei se não era o primeiro a perguntar o que estavam a fazer? "Sim, é o primeiro. Mas já estranhava ninguém perguntar!", disse ela. Notei uma pronúncia estrangeira e um português aos solavancos. Perguntei de onde eram e se eram todos estrangeiros  "Somos alemães, mas vivemos em Portugal. O resto das pessoas que desenha devem ser portugueses, imagino", disse ela meio em Inglês meio em Português. Aproveitei para me sentar ao seu lado, descontraído, e entre a língua de Camões e a de Shakespeare lá nos entendemos: 
– Então, diga-me lá o que é que andam a fazer? - e esbocei um sorriso malandro.
– Temos de desenhar pessoas em movimento." -  mostrando-me o caderno.
– Pessoas em movimento? Só pessoas? E essa tarefa faz parte de um curso?
Pautada por dificuldades na pronúncia e no vocabulário a senhora lá foi respondendo.
– Está a decorrer um workshop do Eduardo........ Eduardo...... "
– Salavisa? - arrisquei...
– Sim, Salavisa! É um workshop que decorre no Convento e agora temos de desenhar pessoas em movimento.
Espreitei o seu caderno onde desvendei troncos cortados, membros deformados e cópias de pessoas como se tentasse produzir dispositivos para desenhos animados: o movimento. Falámos mais um pouco até eu decidir que não os queria incomodar mais. Dissemos adeus. Caminhei devagar pelo resto do meio Largo para dar uma oportunidade aos desenhadores. Assim, talvez, também evitá-se em sair-me cortado! Voltei a parar, perto de alguém que sabia que me observava. Olhei o céu. Fechei os olhos, inspirei fundo inalando o ar aromático que se só se liberta das sombras da terra depois das primeiras chuvas de Setembro. Quando voltei a abrir os olhos vi o céu azul-mais-vivo que começa a substituir o céu azul-branco do Verão. Voltei a andar para sentir o movimento até que fiquei a pensar que a memória daquele dia não está apenas gravada nestas minhas palavras, mas também em cadernos e blocos de desenho, sempre revisitada quando sinto o calor do Verão dissipando-se no aroma da frescura Outonal.

Fonte: Blogue -  Diário Gráfico - Eduardo Salavisa

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