domingo, 2 de outubro de 2011

Os putos jogam à bola

Os putos estão lá baixo. Estou a ouvi-los. Pelo barulho de certeza que jogam à bola! De vez em quando uns gritos de euforia, é golo! Levantei-me da minha posição confortável de sentado no sofá e espreitei. Espreitei os putos. Jogam à bola! Um dia também fui puto e também joguei à bola! Agora sei. Agora sei que nessa altura alguém se levantava da sua posição confortável do sofá e via os putos. Jogam à bola, pensava esse tal alguém! Há coisas que se repetem, mas só o sabemos quando lá chegamos. Chegamos e percebemos que não somos os primeiros e que não somos os últimos. Muitas coisas, quase todas. Por isso não vou inventar. Inventar para quê? Já tantos inventaram! Imaginar? Imaginar para quê? Já tantos imaginaram! Escrever? Escrever para quê? Já tantos escreveram! E é isso que vou aproveitar. O que de bom já foi inventado, imaginado, escrito. Hoje quero ser simples.
Tudo começou depois das férias. Sim, em Agosto! O primeiro Domingo de regresso a Lisboa. Aquele Domingo. Ai, como custa esse Domingo. A tarde pedia descanso. Quem disse que as férias não cansam? Fiz-lhe a vontade. Sentei-me naquele sofá, naquele mesmo em que hoje me levantei para ver os putos! Jogam à bola, ainda jogam à bola! Estendi as pernas e comecei a ler “O Sonho do Celta” de Mário Vargas Llosa. Sentado no sofá de pernas estendidas a ler um livro! Pareceu-me uma forma esplendorosa de terminar as férias! Que tal vos parece? Mas foi difícil. O tipo de escrita não é o que mais me convence. A acção movimentava-se lentamente. Não me estava a prender. Parei. Não vale a pena insistir. Lanchei e voltei a ler mais umas paginazinhas. Mas. Mas ainda não. Fechei. Deixei para outro dia. No outro dia? No outro dia já não parei! E nos outros também não! Da Irlanda ao Congo, do Congo à Grã-Bretanha, da Grã-Bretanha à Amazónia, da Amazónia à Irlanda! Qualquer coisa assim do género. Estive lá! Dos colonos ingleses à emancipação Irlandesa, o que sabem? Os europeus civilizados, diziam eles, e os escravos africanos e sul-americanos, negavam eles, também eles. Contaram-me e impressionaram-me! Uma história que ensina, que relembra, que abala, uma história que merece ser contada. Uma história sobre nós, quem somos todos, quem são alguns e quem são outros. As ignomínias, diz o autor. A indolência, os insolentes. O género humano, a nossa condição, uma vida à deriva ou uma vida encontrada? Acabei o livro também sentado no sofá. No mesmo sofá. Porque o livro merecia. Não, não era eu que merecia, era o livro. Porque esta história também nos transforma. Aconselho, recomendo, sugiro! E os putos? Os putos? Nesse dia não ouvi os putos.
E no outro dia? No outro dia, era outro Domingo. Um Domingo de Setembro. Agarrei noutro livro. Agora, um pequeno, rápido, simples. “Hoje não” de José Luís Peixoto. Vários contos. Saí nesse Domingo. No Jardim da Tapada das Necessidades havia por lá um Out Jazz. O dia estava soalheiro. Levei o livro comigo. Deitei-me na relva, num espaço aberto. Ao fundo o palco. À volta outras pessoas para ver o jazz e, à volta das pessoas, um jardim, as árvores, os pássaros, as flores dos jardins. Adormeci. Acordei. Ouvi a música. E comecei a ler o livro. Pelo meio havia uns putos. Pediam aos pais para irem jogar à bola! E mais uma vez, estavam lá uns putos, outros putos, a jogar à bola. E eu. Eu li metade do livro e depois fechei-o. Voltei a relaxar, ouvia-se um som de jazz . Aproveitei o dia soalheiro, só queria descansar. Cada vez mais quero descansar. Descansei e voltei para casa. À noite li mais um pouco. No outro dia terminei o livro, era pequeno. E agora? Agora o quê? Querem saber dos putos? Agora também não sei deles, não os ouço. Os putos não! Não era dos putos que queriam saber!? Os livros! E agora, que outro livro?
Há já algum tempo que me preponha a descobrir Rafael Garcia Marquez. Nunca o li. “Cem anos de Solidão”, que tal? Comecei. E todos me diziam: “Esse é que é um grande livro! Vais gostar!”. Mas não estava a gostar. Ainda agora o tinha iniciado e já não sabia quem era quem. Já me tinham avisado! Até me chegaram a mostrar um mapa das personagens, rabiscado no verso da capa, para ajudar a leitura do livro, se não me engano! O Rafael é uma gajo lixado. Mas não era isso. Fechava o livro porque não gostava. Depois voltava a tentar, talvez já gostasse. Tentei umas três ou quarto vezes. Mas as personagens pareciam-me objectos, marionetas, sem vida própria. Não conseguia entrar dentro delas. Não gostava, estava quase a parar. E agora? Quantos de vocês me caem em cima?! Ai, que já me doí………. Estava quase a desistir, quase, quase, mas ainda não. Até que alguém me perguntou se estava a ser capaz de ler o livro? Respondo que não, que estou para desistir. E o retorno é o melhor que podia ser! “Eu não consegui, desisti a meio!”. Ya ho! Assim já tinha forças para desistir! Peremptoriamente: não me estava a interessar saber mais. Talvez tenham faltado os putos da bola. Onde estavam eles? Não sei.
É que para mim não vale a pena insistir num livro de que não se gosta. Com tantos livros para ler, dentro dos nossos gostos, porquê perder tempo com um de que não nos dá prazer? Não. Não sou dessas pessoas, que vai até ao fim por teimosia.Vou ler um que goste! E foi assim, que peguei num livro perdido lá pelas estantes do meu pai. “Papillon”. E estou a gostar. Um livro difícil. Duro. Mas estou a gostar. Porque na vida não me interessa somente conhecer o seu lado belo, esplêndido. Porque viver é também conhecer o seu lado horrível, incomodo. Porque para crescer é preciso conhecer os dois lados. Entretanto, alguém já me disse que também tentou lê-lo, mas desistiu. É verdade que é duro,  severo, árduo. Mas eu vou continuar. Tal como os putos que continuam a jogar à bola lá em baixo. Porque gostam, porque não querem estar noutro lado a jogar outro jogo. É aquele jogo, é aquele livro. Já os ouço outra vez. Vou-me levantar. Vou vê-los. E vou esperar por um golo!

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