sexta-feira, 28 de dezembro de 2012

Quase quase quase... Um Conto de Natal - PARTE V







PARTE V – A VERDADE

Hoje regressamos à casa dos meus avós. Melhor, à casa que era dos meus avós, e que, o meu pai, herdou. Possivelmente, este ano, vai ser o primeiro Natal que não vamos passar nesta casa. Não sei. O meu pai quis vir ver a casa. Ainda não sabe se a vai vender ou se vai ficar com ela. Eu vim com ele. O meu irmão e a minha mãe ficaram na nossa cidade. Hoje está frio. São os primeiros dias de neve do ano. É o fim de Novembro. O meu pai, está a dar voltas à casa e vai dizendo que é preciso fazer algumas obras. Eu estou a limpar o pátio, da primeira neve do ano. O céu está azul, mas hoje já faz muito frio. O vizinho também está a limpar o pátio dele. Pergunta-me se sou o Hans ou o Derek. Não sei onde está o meu pai agora. Mas já estou um bocado cansado. Sento-me nos dois degraus que dão para a porta da entrada de casa. Sempre gostei muito de visitar os meus avós, mas este ano, é muito triste vir a esta casa, sem eles. Olho para um lado e para o outro da rua. Nesta rua, as pessoas são maioritariamente idosos, pessoas como os meus avós. Não há muito movimento, e os poucos carros que passam, devem ir para outros bairros, ao lado, ou mais longe. Volto a olhar para o céu azul. Está bonito. E vejo. Vejo rastos de trilhas brancas na cauda dos avião! E lembro-me. Lembro-me do dia em que o meu avô, me explicou o que são. Foi neste mesmo pátio. Numas férias de Natal. Não sei quantos anos tinha. Devia ter uns seis ou sete. Talvez já tivesse oito anos. Foi a primeira vez que vi trilhas de aviões! Eu acho que, nesse ano, o meu avô deu-me uma moto de lagartas telecomandada. Aliás, eu lembro-me muito bem desse dia, porque foi um dia estranho. Achei os meus avós um bocado estranhos. Às vezes, quando me recordo dos meus avós, recordo esse dia. De manhã, pouco depois de acordarmos, brincava na sala. Na sala, montei um castelo que os meus pais me ofereceram. Tinha colocado o manual de instruções sobre o sofá. De vez em quando levava uma peça junto do manual para confirmar que era essa. Uma peça caiu para a lateral, ficando entalada entre o braço do sofá e o assento. Quando procurei a peça encontrei uma fotografia. Era uma fotografia a preto e branco e não reconheci quem era. Perguntei à minha mãe se era o meu pai ou o meu avô. A minha mãe, pensava que eu tinha andando a vasculhar em algum lado que não devia. Disse-lhe que não, que tinha encontrada a fotografia no sofá. A minha mãe disse que, também ela, não reconhecia aquele homem, mas que, provavelmente não era o meu pai, talvez o avô Franz. A tia Eva também não sabia. Os meus avós tinham saído ainda antes de acordarmos. Continuei a montar o castelo e acabei antes de eles chegarem! Depois eles chegaram. O meu avô, confirmou que era ele na fotografia e mostrou-nos mais fotografias, de álbuns, que tirou de dentro de uma gaveta. Talvez ainda lá estejam. Talvez vá lá espreitar, quando for para dentro de casa. Depois, aconteceu o mais estranho. Por alguma razão viemos brincar cá para fora, já não sei se foi logo a seguir às fotografias, se a seguir de almoço. Quando ia para a rua, lembrei-me de chamar a avó, que não estava connosco. À entrada da porta da cozinha acho que a avó falava sozinha, porque não estava lá mais ninguém. Dizia qualquer coisa como: “O nosso azar é vivermos todos os dias”. Só memorizei esta frase porque a seguir o avô disse uma frase parecida. Mas isso já foi lá fora quando estávamos a brincar. Eu comandava a moto de neve. Fazia oitos pelo pátio, em volta destas duas árvores, até que, ao virar-me, na direcção do avô, para continuar a ver a moto, vi o avô a olhar para o céu, com uma concentração diferente, longínqua. Também olhei. Vi um grande azul. Fui ter com ele, e perguntei para onde olhava. Ele respondeu qualquer coisa que não me lembro e depois disse:
“A nossa sorte é vivermos todos os dias. Não te esqueças, Hans.” E antes de terminar “Nada, Hans. Não me ligues. O teu avô está a perder o tino!” E foi por isso que fixei. Voltei a olhar para tentar ver se via alguma coisa, para acreditar no avô, e foi então que vi aviões a deixar um rasto de fumo. Apontei. E ele explicou-me sobre as trilhas de avião!
Mas onde está o meu pai? “Pai?” Grito. Não tenho resposta. Entro dentro de casa. “Pai?”. Nada. Ainda bem que os meus avós nunca dispuseram muitas fotografias, aliás, quase nenhumas, pela casa. Agora, seria muito triste encontrá-las. Não vou abrir a gaveta. Eles morreram há pouco tempo. Vou à casa de banho e qualquer coisa fixa-me ao espelho. Quando era pequeno não me conseguia ver neste espelho. O meu pai, ou o meu avô, tinham de me pegar ao colo. Agora estou aqui sozinho. Os meus avós devem-se ter olhado todos os dias neste espelho, todos os dias que aqui viveram. Que memórias, este espelho, terá deles? Pergunto-me, como se os espelhos tivessem memórias! Se tivessem, poderiam contar-me todos os dias dos meus avós! Como se lembrassem dos meus avós! Como se, amanhã, se lembrassem de mim! Mas são apenas seres inanimados. Como se podem lembrar? Jamais os seus rostos serão novamente projectados por este espelho. Nada mais, além da realidade, e da verdade, podem reflectir. A mentira nunca poderá estar neles. O que não existe, não pode. E todos os dias nos dizem a verdade. Todos os dias, o que somos, por fora. Dizem-nos. A verdade, a verdade é que vivemos todos os dias. Ouço o meu pai a chamar-me. Deve estar na sala.
–“Vais ajudar-me a levar algumas coisas para o carro. Temos de arrumar outras coisas aqui em casa. Mas primeiro vamos almoçar à cidade que eu estou cheio de fome!”
Dizem que eu sou parecido com o meu pai. Não sei se é verdade. Ainda não perguntei a um espelho! A verdade, verdade, é que vivemos todos os dias.

Quase quase quase... Um Conto de Natal - PARTE IV








PARTE IV – O AZAR

–“O nosso azar é vivermos todos os dias”.
Assalta-me uma confusão de pensamentos. Prendo-me. Olho-me ao espelho. Não me desprendo de mim. E tomo atenção ao meu rosto. Procuro as rugas que não tinha ontem, mas que tenho hoje. Procuro o cabelo que ontem, ainda brilhava, mas que hoje é baço. Procuro no espelho os sinais diferentes de ontem e encontro-me nos meus olhos. Parecem-me a única parte do rosto que não envelheceu. Viro os olhos e percorro-me no reflexo do espelho. Levanto as mãos ao nível do rosto e acaricio a minha pele. Não sinto a lisura, a suavidade de ontem. De ontem não. De um dia, atrás, muito atrás que eu não me lembro. Toco no cabelo e não sinto, já não sinto a sua vitalidade. Apanho o cabelo. Viro-me de perfil, para um lado, depois para o outro. O que terá Franz respondido a Maike quando ela lhe perguntou se me ainda achava bonita? Já não sou bonita, eu sei. Como posso ser? Sou velha, sim já sou velha. Não é isso que me abala. Agora, sei que, olhar-me ao espelho é uma atitude defectível. O espelho é como alguém insidioso, traiçoeiro, que todos os dias nos engana. Vemo-nos todos os dias ao espelho, e, assim, todos os dias, não notamos as diferenças para com o dia de ontem. Iludimo-nos, porque não constatamos que mudamos. Quem se vê todos os dias não pode ver as diferenças. É o nosso azar, porque um dia, um dia quando olharmos bem, já não somos jovens e bonitos e, e depois atemorizamo-nos, mas já perdemos tudo. O corpo está sempre à frente da mente. Em todo o tempo para trás, vivemos enganados, diferentes da nossa condição. Se, todos os dias, o espelho não me ludibriasse, talvez, talvez eu olhasse mais para dentro de mim em vez de para fora. E, assim, talvez, vivesse mais perto da minha condição. Vivemos iludidos de um envelhecimento que não nos escapa, feroz, inexorável. O azar da nossa vida é vivermos todos os dias.
Desprendo-me do espelho. Tenho lágrimas a escorrer-me pelo rosto. Limpo-as. Não me podem ver assim. Volto para a cozinha, mas ainda os ouço a falar na sala. Não posso ouvi-los. Estou sensível. Vou chamar o Franz para me ajudar na cozinha, talvez assim parem.
–“Franz?”, e chamo-o escondendo-me na esquina do corredor.
Peço ajuda na cozinha. Recusamos a ajuda das noras. Ele vem, eu fujo para a cozinha, já me arrependi, ainda devo ter estas lágrimas no rosto.
–“Vou só passar, primeiro, pela casa-de-banho. Já te ajudo.”
–“Está bem”, ainda bem, ainda bem, ainda bem, que alívio, que sorte.
Posso recompor-me. Franz demora algum tempo a voltar. Elisa e Eva gritam-me da sala que vão lá para fora brincar com os miúdos. Perguntam se preciso de ajuda. Não, digo que não, claro. Ouço os sons que vem junto à porta, são sons de quem veste casacos, blusões, e ouço Hans:
–“Vou buscar a moto que o avô me deu!”
–“Depois não te esqueças das luvas”, diz Elisa.
E ouço a porta a bater. Há uns dois ou três anos, Franz, comprou um escorrega para os cachopos, que, eles, gostam muito. Nós também. Ainda não limpámos a neve de todo o pátio mas não faz mal, com a neve os miúdos e os meus filhos construíram um boneco de neve. Já perdeu um braço. Maike, tenta consertá-lo, mas não consegue. E foi para o escorrega. Ao olhar para os cachopos penso alto, “O azar da vida é vivermos todos os dias”, e uma sombra inócua debaixo do umbral da cozinha…
–“O que disseste avó?”, é Hans.
Traz ao colo um comando e a prenda do avô. A minha voz treme:
–“Nada, filho, nada, a avó não disse nada. Está a pensar sozinha”
Hans desaparece e volto-o a encontrar pela janela, lá fora. E:
–“Então, de que ajudas é que precisas?”.
Atrapalho-me……nem me lembrei de fingir que estou a fazer qualquer coisa. Será que ele notou?
–“Nada…. Já não é nada. Já fiz”.
Continuo a olhar pela janela e digo:
–“Vai brincar com os netos.”
Tento esconder o perfil onde sinto uma lágrima a escorrer-me. Espero que ele não tenha visto. Foi para a sala. Ai, esqueci-me de lhe dizer que foram lá para fora.
–“Sabes onde estão eles, Ingrid?”
–“Desculpa, estão lá fora”.
E continuei a olhar pela janela. Gosto de ver os meus netos a brincar.

Quase quase quase... Um Conto de Natal - PARTE III










PARTE III – A SORTE

–“A nossa sorte é vivermos todos os dias.”
Assalta-me uma confusão de pensamentos. Prendo-me. Olho-me ao espelho. Não me desprendo de mim. E tomo atenção ao meu rosto. A pele. A pele rugada. As feições. As feições, não me lembro destas feições. Os espelhos não têm memória. Quantos de vocês se lembram de uma imagem ao espelho? Quantos de nós? Os espelhos nunca se lembram de nós. E um dia, mais tarde, olhamos com atenção, e reparamos que o espelho, cada dia, todos os dias, só mostra aquilo que somos, por fora. E o hoje, não pode ser igual ao amanhã. Mas, para nós, mas para nós entre o hoje e o amanhã não há diferença. Precisamos de somar muitos dias, para um dia. Para um dia, sim, nos assustarmos. Como se não nos tivéssemos olhado ao espelho todos os dias que ficaram para trás. Como se, o que somos hoje, fosse uma mutação de um dia longínquo, um dia de que não nos lembramos. A nossa sorte é que vivemos todos os dias, e, em cada dia não sentimos que envelhecemos. Assim, assim é mais fácil. Não sofremos todos os dias por sabemos que amanhã perderemos uma ínfima parte da nossa jovialidade. Os espelhos não têm memória, nem se lembram de nós. A nossa sorte é vivermos todos os dias.
Continuo a olhar-me ao espelho. Pelo espelho passo os meus dedos, como se pudesse tocar na minha pele. Como se fosse o espelho que tivesse o tacto da minha pele. Não tem, não tem nada. Apenas tem uma fugacidade que nada é de mim. Que não me conhece. Solto-me do espelho, e vou ter com Ingrid à cozinha. Encontro Ingrid a olhar pela janela.
–“Então, de que ajudas é que precisas?”, perguntei eu.
–“Nada…. Já não é nada. Já fiz”.
Ingrid olha pela janela. Diz-me para ir brincar com os netos. Hoje está esquisita. Parece que lhe noto uma lágrima desbotada no rosto. Deve ser ilusão minha. Devo estar um pouco desconcentrado, com toda esta história do espelho. Volto para a sala, mas não vejo os miúdos. Nem as noras.
–“Sabes onde estão eles, Ingrid?”
–“Desculpa, estão lá fora”.
E é para eles que Ingrid olha. Pela janela, pelo mundo da nossa janela. Visto o blusão e calço as luvas. Lá fora, continua frio. Temos um pátio coberto de neve. Em alguns espaços já limpámos a neve. Noutros não. Duas árvores ladeiam o passeio até à estada que fica a cerca de seis metros da casa. São árvores altas, e também estão cobertas de neve. Hans brinca com a moto telecomandada, de lagartas de neve, que eu lhe ofereci este Natal. Ainda é um brinquedo grande. Os outros, com as minhas noras, deslizam por um escorrega que comprei hás uns dois ou três anos, para eles brincarem no pátio. O dia continua de um azul bonito. Mas está muito frio. Derek pede a Hans para brincar um pouco com a sua moto telecomandada, mas Hans não deixa. Elisa, a mãe de ambos, ralha com Hans, e ele, um pouco contrariado, passa o comando ao irmão. As meninas continuam no escorrega e riem-se muito quando caem na neve! Tento-me lembrar da minha primeira recordação ao espelho, mas nada. E olho para o céu. Olho para o céu. Como se no céu fosse encontrar a projecção desse dia, do dia em que me conheci a um espelho. Claro que, nada. Hans, vem ter comigo e pergunta-me para onde estou a olhar. Digo que, para nada, para lado algum. Depois pergunta-me em que estou a pensar. Hesitei. Hesitei……..
–“A nossa sorte é vivermos todos os dias.”
–“Qual sorte?”, ouço de uma voz inocente.
–“A nossa sorte é vivermos todos os dias. Não te esqueças, Hans.” – mas que maluquices estou eu a dizer ao miúdo? – “Nada, Hans. Não me ligues. O teu avô está a perder o tino!”
Por momentos Hans, não disse mais nada e eu também não.
–“Olha!” – e Hans aponta para o céu, onde quatro riscas brancas, sem ordem aparente, rasgam o azul esperança – “O que são avô?”
Quatro aviões cruzam o céu, cada um para seu lado, como que formando um quadrado, uma tela de pintura no céu. Quatro rastos, de fumo branco, bem alto, lá no alto, como pincéis de mãos invisíveis.
–“São apenas aviões.”
–“Mas porque deixem aquele raso branco avô? Já vi muitos aviões no céu e nunca tinha visto uma rasto branco.”
–“É apenas um efeito de criação, digamos que, de nuvens artificiais.”
–“Nuvens artificiais? Mas os aviões sobem para criar nuvens? Porque não há nuvens? É preciso nuvens?”, a sua voz era…….. inocente.
–“Não! Não é preciso criar nuvens. Podem ser aviões normais de passageiros ou outros aviões, não sabemos. É muito simples. Ninguém quer criar nuvens, mas, o funcionamento do avião liberta vapor de água para a atmosfera a temperaturas muito muito quentes, como quando vez as panelas no fogão a deitar vapor. Depois, como está muito muito frio na atmosfera, o vapor de água libertado pelo avião condensa formando aquelas trilhas de nuvens artificiais, como, quando por exemplo, o vapor das panelas encontra um vidro frio fazendo o vidro embaciar. Percebeste?”
–“Simmmm!”
E limitei-me a apreciar a beleza de um céu azul esperança rasgado por trilhas de um branco pueril.

Quase quase quase... Um Conto de Natal - PARTE II











PARTE II –O ROSTO

É sempre assim quando chega o Natal. Os filhos, as noras, os netos, e eu e Franz. O Natal já passou e falta menos de uma semana até ao ano novo. Lá em cima, nos quatros, ainda estão todos a dormir, mesmo Franz. A cada ano que passa os netos estão maiores. Claro que estão. Que outra coisa haveriam de estar? O Hans é muito parecido com o pai dele, o meu filho. Lembro-me bem de, quando éramos eu, Franz, os dois miúdos, e os meus pais ou os pais de Franz. Hans é tal e qual o seu pai. Em tudo. Este Natal senti uma dor lancinante ao ver os meus netos. Dos meus olhos, parecia que, em vez dos meus netos, via os meus filhos. E vinham-me recordações. Memórias. Recordações. E assustei-me. Em mim, pouco ou nada sinto de diferente, desde o tempo dos meus filhos para o tempo de agora, dos meus netos. Será assim mesmo? Como não me posso sentir diferente? Sinto-me mais cansada, sim. Sinto uma lassidão que antes desconhecia, sim. Mas curioso é, que sinto, também, que nunca perdi qualquer coisa dentro de mim, qualquer coisa que nunca mudou, não sei se, a minha voz (interior?), se, a minha forma, se, o meu eu? Há qualquer coisa em nós que parece imutável. Eu sei que Franz guardou quase todas as nossas fotografias. Acho que estão numa gaveta do móvel da sala. Vou ver. Cá estão. Eu aos dez, eu aos vinte, eu aos trinta, quarenta, cinquenta. Franz aos dez, vinte, trinta, quarenta, cinquenta. Nós. Não me recordo da maioria das fotografias. Olho para as fotografias como que espantada por aquilo que éramos. Uma fotografia, um momento infinitesimal da nossa vida, um sopro de tempo, que um dia, mais tarde, nos assombra na mesma proporção para a distância a que foi tirada, como se todo o tempo entre a fotografia e o agora pesasse. Há uma fotografia de Franz que me capta a atenção. Talvez seja por me fazer recordar os dias em que o conheci. Deve ter sido tirada mais ou menos nessa altura. Tem o corte de cabelo de então, e acho que reconheço o blusão. Andávamos os dois na Universidade. Ele era estudante do segundo ano e eu do terceiro. Sim, eu sou mais velha do que ele. Ele era um homem alto e esguio, magro. Bonito. Gostava muito do cabelo dele, macio, e louro como o ouro. Nesse tempo era fácil apaixonarmos, porque nada sabíamos. Assim, era fácil iludirmo-nos. Confundir paixão com amor e beleza com belo. Talvez me esteja a cair uma lágrima. Acho que estou a ouvir barulhos lá de cima. Alguém deve estar a acordar. Deve ser Franz. Não quero que ele me veja assim, vulnerável, nervosa. Com alguma pressa, volto a colocar as fotografias dentro da gaveta.
–“Bom dia!”, diz Franz.
–“Bom dia! Precisamos de ir ao centro.”
–“Está bem. Agora de manhã?”
–“Sim, se puderes.”
–“Pode ser.”
Tomamos e pequeno-almoço e saímos. Lá em cima, mais ninguém acordou.
Desde que vi as fotografias que estou nervosa. Não sei porquê. Parece que tenho medo de mim própria. Não sei o que se passa. Fizemos algumas compras de supermercado, poucas, tomámos um café numa pastelaria e agora voltamos para casa. Subimos por uma rua e sigo um pouco atrás de Franz. De vez em quando ele pára, olha para trás, para mim, e eu sorrio. Ele sorri de volta, mas ainda não sei ele percebeu que não estou muito bem. Por isso é que me deixei ficar um pouco para trás. Talvez, até, nem tenha feito de propósito, mas este estado absorto, distrai-me da banalidade. Agora ele parou mas espera por mim. Baixo um pouco a cabeça e dou-lhe um toque com o cotovelo para seguirmos. Mas espera, digo eu. Peço a ele para levar os sacos. Ele leva. Chegamos a casa. Hans, vem lançado, e abraça-me. Quase que caio porque tenho os sacos na mão e não me consigo equilibrar.
–“Tonto!”
Não estou bem e é melhor fugir por um bocado. Vou-me distrair para a cozinha, sozinha. O Franz parece que vai para a sala com os netos. Primeiro fui vestir qualquer coisa mais confortável. Quando subia as escadas parece que ouvi falar em fotografias? Não pode ser. Devo estar mesmo nervosa. Não sei porquê este estado. Como se eu nunca tivesse olhado para aquelas fotografias antes. É melhor concentrar-me nas coisas da cozinha. Vou para a cozinha arrumar as compras, poucas, não há muito para arrumar. Da sala chegam-me alguns risos. Devem estar a brincar. Mas não, não. E ouço Maike a perguntar:
–“Achavas a avó bonita avô?”
–“Sim, a tua avó era muito bonita!”
–“E ainda achas a avó bonita?”
E deu-me um baque……….fiquei tão atemorizada que não ouvi a resposta. Provavelmente, é melhor não ter ouvido. Respiro fundo e penso que é melhor ir até à casa-de-banho. Entro na casa-de-banho e não evito, não evito. Olho-me ao espelho. Entre mim e o espelho o tempo pára. A vida pára. Porque de um lado e do outro somos iguais, somos o mesmo, somos o mesmo rosto. E. E é então que me vem à cabeça, a ideia do azar, do nosso azar:

Quase quase quase... Um Conto de Natal - PARTE I



PARTE I – A FOTOGRAFIA

Caminho por ruas estreitas, de chão negro, pedra negra, encoberta, por vezes, pela neve. Das ruas limparam a neve de Natal que, repousa encostada aos edifícios, como uma enorme fita branca que decora, de um lado e do outro a rua. O contraste da cor da pedra e da cor da neve torna estas ruas de uma beleza singular, simples, como dois opostos que se complementam. Subo a rua, sem avistar nenhum outro transeunte. Mas não sigo sozinho. Comigo, Ingrid, a minha mulher. Vem um pouco mais atrás. Além de Ingrid, só o silêncio de uma rua vazia, o silêncio frio, como o frio acolhedor dos dias entre o Natal e o ano novo. O céu está azul. Subo e, de vez em quando, olho para as montras, que, de um lado e do outro, estão a ser remodeladas para os saldos. Não tenho as luvas calçadas, por isso, mantenho as mãos dentro dos bolsos do blusão. Por momentos paro, olho para trás, e vejo Ingrid que sorri para mim. Estranho. Não, não é o sorrir que é estranho. Estranho é aquela forma de sorriso. Não sei. Há coisas que eu nunca percebi nela. Esboço também um sorriso. Conhecemo-nos nesta cidadezinha quando éramos estudantes, e aqui ficámos. Cada um arranjou o seu emprego, depois comprámos uma casa e tivemos filhos, que já estão crescidos e que já têm, também eles, os seus filhos, ou seja, os nossos netos. Todos os Natais são passados na nossa cidade, aqui, no norte. Entretanto, Ingrid apanhou-me e dá-me uma pancadinha com o cotovelo para seguirmos. Pede-me para levar os sacos do supermercado. Calço as luvas e agarro os sacos. Alguns comerciantes, de vez em quando, assomam à porta do estabelecimento, espreitando, mas depressa voltam para dentro, porque está muito frio cá fora. Continuamos a andar, e depressa chegamos ao limite urbano. O carro está já ali, e seguimos para casa. Quando entramos dentro de casa, ouvimos os netos. Brincam com as prendas de Natal. Hans, o mais velho, de sete anos, vem a correr até nós, e dá um abraço a Ingrid, que quase cai desequilibrada, porque nem teve tempo de colocar os sacos do supermercado no chão. Entretanto, aparece Claudia, a mais nova. Dispo-me do blusão, calço umas pantufas e pego-a ao colo. Vamos para a sala. Não temos lareira, mas o aquecimento central e as luzes dos candelabros, a meia-luz, e cor âmbar, tranquilizam-me, como se sentisse centelhas imaginárias de uma quadra natalícia. A luz do céu azul que entra pelas janelas também aquece. Vejo que está tudo uma grande confusão! Nem o castelo de Hans, já erecto, altivo, impõe respeito, mesmo, mesmo no meio da sala! Como podia? Elisa, uma das minhas noras, diz-me que não sabe onde, mas os cachopos descobriram uma fotografia do avô, muito novo, ainda muito novo, não sabe ela onde? De facto, não tenho fotografias espalhadas pela casa, pelo menos minhas. Também não sei. Os malandros devem ter vasculhado as gavetas. Ai os malandros! Sento-me no sofá e Hans vem sentar-se ao meu colo. Mostra-me uma fotografia e pergunta-me se sou eu? Olho bem para a fotografia, a preto e branco, e, sim, sou eu. Mas era muito novo. Deve ter sido mais ou menos na altura em que conheci Ingrid. Peço a Hans para saltar, para eu ir buscar mais fotografias. Ao levantar-me, lembro-me de perguntar:
–“Mas onde arranjaste tu essa fotografia?”
–“Estava no sofá.”
–“No sofá? – Mas só podia estar no sofá se alguém mexeu na gaveta. –“Alguém andou a mexer nas gavetas?” – Mas ninguém respondeu.
Abro a gaveta do móvel da sala e, claro, está desarrumada, Hans, o malandro? Tiro os álbuns de fotografias e sento-me novamente no sofá, puxando Claudia para o meu colo. Chamo, Hans, Derek, Maike e Elisa e Eva, as minhas duas noras. Desfilo pelos álbuns de fotografias. Fotografias desde a minha infância, até aos meus filhos, mostrando os meus tempos de estudante e de militar, de antigas namoradas e, claro, de Ingrid. Onde está ela? Deve estar na cozinha a arrumar as compras do supermercado. Maike, de quatro anos, olhos azuis profundos e um louro pueril, diz-me, com alguma surpresa dela, que eu era magro!
–“Já foste magro avô?”
–“Sim, já fui!”, já fui magro, já fui jovem e um dia o meu cabelo já foi ouro em vez de prata. E Ingrid…
–“A avó era muito bonita!”, continua Maike.
Sim como era bela, repito dentro de mim, como me lembro! Conto algumas histórias aos miúdos, principalmente das primeiras fotografias de quando comecei a namorar com Ingrid.
–“Achavas a avó bonita avô?”
–“Sim, a tua avó era muito bonita!”
–“E ainda achas a avó bonita?”
Esta pergunta retumba em mim, como um grito ecoando pelos vales das montanhas. Como posso responder eu a esta pergunta, sendo verdadeiramente honesto? Sim, ainda acho Ingrid muito bonita, mas claro, não a mesma beleza que me cativou quando a conheci. Agora, agora a beleza é diferente. Mas eu sei que Maike não me pergunta por esta beleza diferente que, só depois do tempo, se pode conhecer.
– “Sim, cada vez acho a tua avó mais bonita.”
Que mais posso eu responder, a uma criança, que, que ainda só conhece a beleza perecível do rosto? Como lhe posso explicar, que não estou a falar da mesma beleza que ela me questiona? Até que ouço:
–“Eu também acho a avó muito bonita”, diz Maike, num sorriso enorme!
Continuamos entre histórias. Alguns minutos. As minhas noras vão pegando e despegando em fotografias. E, entre elas, de risos prazenteiros, lá vão comparando os seus maridos, ou seja, os meus filhos, a mim e a Ingrid, quando mais novos.  O nariz é meu, as orelhas são dela, os olhos, as mãos, os olhos, o cabelo, os olhos, o queixo, os olhos, o tom de pele, a pele, o rosto, o rosto……
Entretanto aparece Ingrid no corredor, e pede-me ajuda na cozinha. Elisa e Eva prontificam-se, mas nós recusamos, dizemos a elas para ficarem com os miúdos. Onde estão os meus filhos? Devem ter saído. Digo a Ingrid que ainda vou passar pela casa-de-banho. Caminho pelo corredor e retumba, “E ainda achas a avó bonita?”, “E ainda achas a avó bonita?”, “E ainda achas a avó bonita?”… e eu? E a minha beleza efémera?, já fui magro, já fui jovem e um dia o meu cabelo já foi ouro em vez de prata….. Entro na casa-de-banho e não evito, não evito. Olho-me ao espelho. Entre mim e o espelho o tempo pára. A vida pára. Porque de um lado e do outro somos iguais, somos o mesmo, somos o mesmo rosto. E. E é então que me vem à cabeça, a ideia da sorte, da nossa sorte:

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