quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

Capitulo I - O tabuleiro de xadrez

Sentou-se. Mais uma vez, como todas as outras vezes, nas noites e noites que por ali desfilaram, fitou o tabuleiro. Os olhos fixaram as pedras brancas. Do outro lado as pedras pretas. Todos os dias, sem excepção, sentava-se num dos lados do tabuleiro conforme a marca apontava. Hoje era dia de jogar as brancas. Observou durante seis minutos a disposição do tabuleiro e decidiu-se, jogou um bispo. Amanhã seria a vez das pretas. Seria. Apenas seria. Porque amanhã, ela, não lá estará. Aprendeu a jogar xadrez com o pai ainda nem frequentava a escola. Quando era pequena jogava todos os dias com o pai, por vezes os jogos estendiam-se por serões. Agora, depois de pousar o bispo, sentiu-se confusa. Pela primeira vez o seu jogo seria interrompido, e não saberia quando o retomaria. Levantou-se e foi fazer um chá. O pequeno nervosismo começou a atacar. Aqueceu a chaleira, ainda gostava de fazer o chá à moda antiga, como a mãe sempre o fez. Optou por um chá branco, colocou a saqueta na chávena e depois da água aquecida, encheu. Pegou na chávena e voltou para a sala, onde deu uma volta de trezentos e sessenta graus perscrutando tudo à sua volta. É este o meu lugar, um dia voltarei, pensou ela. Queria terminar a partida de xadrez que iniciara mês e meio antes, mas sabe que não faria sentido. Lembrar-se-ia sempre da jogada do opositor, ela própria. Quando voltar terminará. A televisão estava desligada, e o silêncio imperava na casa. Vive sozinha desde que se divorciou, não há mais de seis meses. Os pais vivem no lado sul da ilha, ela vive no norte, numa pequena vila de pescadores, como quase todas as vilas daquela ilha. Em Siglufjörður, vila onde ela vive, gere um pequeno negócio de turismo. Herdou dos avós, por consentimento da mãe, uma casa nesta vila para a qual se mudou com o seu ex-marido. Juntos reabilitaram o edifício e decidiram arriscar um negócio próprio, apostando no crescente afluxo de turistas à ilha situada no meio do Atlântico norte.
Estamos em Março e as noites ainda são longas, mas apenas para quem não aqui cresceu e se acostumou. O seu pequeno negócio de Guesthouse dá para sobreviver, mas o que a mais fascina é o fluxo de pessoas a entrar e a sair. Não, não é a entrar e a sair por aquela porta de madeira. É o entrar e o sair das pessoas da sua vida, por vezes só uma manhã, outras vezes só uma tarde, por vezes um dia, vários dias, até vários meses. Acostumou-se às diferenças, às igualdades, ao supérfluo, ao interessante. Habituou-se às histórias, e apesar de nunca se ter ausentado da sua ilha, parecia que já conhecia o mundo. Até que um dia se perguntou: Mas o que é conhecer o Mundo? Sim, o que é? É conhecer as pessoas? É conhecer os lugares? É conhecer as pessoas e os lugares ou os lugares com as suas pessoas, ou será  as pessoas nos seus lugares? Será isto tudo e ainda mais? O que será? E foi assim que um dia terá tomado a decisão de partir e de conhecer.
Deixou-se ficar sentada, fixada no tudo e no nada. Pensa em tudo e não pensa em nada. A mala está pronta já faz dois dias. Não é pessoa de deixar as coisas para a última, não se desleixa, é precavida.
Na verdade, nem sabe bem o que deverá levar consigo. Não sabe que tipo de roupa precisará, nem quanta. Por isso decidiu-se por levar pouca, se precisar comprará onde carece, e mais importante, onde saberá do que lhe é útil. Não sabe por quanto tempo viajará, por onde, e se o fará sempre, ou não, sozinha. Por enquanto só sabe que partirá sozinha com uma mala de porão e uma mala de mão.
Circula pela casa em jeito de despedida, apercebendo-se que brevemente perderá este abrigo, a sua protecção, o seu aconchego. Pega numa maçã para ceia e embalada pelo sentimento nostálgico do futuro que pressente estende-se na sua cama, acariciando-a, e deixando-se transportar pela impressionante viagem do seu passado recente que a deixou agora onde está, e a que a pressionou a estar onde amanhã estará. Será que conseguirá dormir? A noite é passada entre o angustiante rebolar na cama e os pensamentos assombrosos dos próximos dias. Adormece sem por isso se dar. Acorda como sempre acordou sem despertador, mas deixa-se rebolar mais umas quantas vezes, para sentir o poder aconchegador do seu quarto, do seu resguardo. Toma o duche, o pequeno-almoço. Aproxima-se da janela despedindo-se desta imagem matinal. Sem mais demora, quer despachar-se, acabar com esta sensação e partir. Não vale a pena adiar. Não vale a pena .Ainda pouco passava das sete e meia da manhã quando um bom amigo, na sua habitual boa disposição e solidariedade, lhe bateu à porta. Preparava-se para fechar a porta quando inesperadamente pousa a mala e pede um minuto ao amigo. Volta a entrar em casa e sentou-se. Sentou-se? Sim. Durante três minutos deixou-se ficar. Estaria com dúvidas? Não. Depois de observado o tabuleiro de xadrez jogou um cavalo preto, pegou cuidadosamente no tabuleiro transportando-o até ao seu quarto, onde, no roupeiro, o espaço antes ocupado pela roupa que agora enche a mala que deixou pousada junto à porta de entrada, guardou o seu jogo para um dia terminar. Voltou à entrada. Ela e o amigo, juntos, percorreram os cansativos quatrocentos e vinte seis quilómetros de Siglufjörður para Keflavik, onde pernoitou, seguindo no dia seguinte viagem de avião. Destino? Roma.

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