quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

Isto não é um Conto de Natal

Às vezes conhecemos pessoas que inesperadamente nos surpreendem. Às vezes conhecemos pessoas que nos obrigam a pensar, a repensar e a questionarmo-nos sobre nós, sobre tudo. E depois de conhece-las damos gratidão por elas terem aparecido na nossa vida. Infelizmente, (ou felizmente?) elas têm de aparecer na nossa vida porque têm muito mais a ensinar-nos do que nós a elas. O Pedro é uma dessas pessoas. Antes de me o apresentarem já me tinham dito que ele era especial, que depois eu ia perceber. Não me contavam o que era, porque era, mas sabiam que eu o ia achar especial. Porquê eu? Ou porquê ele? Seria por eu e por ele? Nunca me contaram nada e eu continuava ansiosa, curiosa, indiscreta. Uma vez vi-o ao longe, quando encontrei a Sara na rua, junto a um parque de diversões para crianças. Ele estava no parque, mas um muro escondia-o e só lhe consegui descortinar um sorriso enorme na boca e nos olhos, parece que apreciava a leveza das crianças. A Sara continuava a debitar conversa e conversa, mas eu não lhe ligava nenhuma, e continuava a tentar perceber quem estava para além daquele muro. Ele não largava as crianças, devia estar sentado num banco qualquer com a filha da Sara a fazer-lhe umas tranças, ao ritmo e bom gosto da miúda.

No dia de anos da Patrícia, ela convidou-nos para lá irmos ter a casa, passar a tarde, passar o serão, vermos uns filmes, jogarmos uns jogos, pormos a conversa em dia. Ofereci-me para ajudá-la, ela aceitou e cheguei mais cedo. O Cláudio, o namorado da Patrícia, também estava lá para ajudar, claro. Colocámos uns aperitivos, uns snacks, umas bebidas, numa mesa junto ao canto da sala, mesmo ao lado da árvore de Natal. O Cláudio arrumou a casa, enquanto eu e a Patrícia ficámos pela cozinha. A campainha tocou, o Cláudio abriu a porta, eram a Joana, o João, a Sandra e a Raquel. Limpei as mãos, espreitei para dentro do forno e verifiquei os biscoitos de amêndoas e os biscoitos de canela, tudo bem. Tive tempo de ir trocar umas palavrinhas com as minhas amigas, antes que todos os outros chegassem e as coisas ficassem mais confusas. Mais uns dez minutinhos e já estava de regresso à cozinha para tirar os biscoitos cá para fora! A Patrícia pediu-me para começar a fazer as panquecas, porque o Chico tinha acabado de lhe mandar uma mensagem a dizer que só demoravam mais dez minutos. E eu sabia que o Pedro vinha com o Chico, finalmente ia conhecer aquele rapaz que todos dizem que é especial, de quem todos gostam e, que só um dia vi ao longe escondido por pequeno muro e com um sorriso enorme na boca e nos olhos, enquanto a filha da Sara fazia-lhe umas tranças, ao seu bom ritmo e ao seu bom gosto. Ora bolas tinha logo de estar sentado, só lhe vi o sorriso, bonito por acaso. Talvez estivesse nervosa, toda a gente dizia que o devia conhecer, que tinha de o conhecer. Não me contavam o que era, porque era, mas sabiam que eu o ia achar especial. Porquê eu? Ou porquê ele? Seria por eu e por ele? Nunca me contaram nada e eu continuava ansiosa, curiosa, indiscreta. Pus-me a fazer as panquecas, quando eles chegaram. Não podia largar a cozinha, ou melhor não podia largar as panquecas, estava toda suja, lambi a massa das panquecas, e não gostava nada do avental que a Patrícia me emprestou, não podia ir à sala cumprimentá-los naquela ridícula figura. Só o Chico passou pela cozinha. O outro João, a Sara e o Pedro deixaram-se ficar pela conversa que reinava na sala. Só me queira livrar das panquecas, só queria ir para a sala e conhecer o Pedro. Com um ouvido na cozinha e outro na sala, lá ia escutando o que se passava na sala, parece que o Pedro é animado, debita piadas e conversa para todos, e parece que todos o gostam de ouvir. “Que histórias terá ele a contar?”; ruminava eu. Despachei-me das panquecas, ou melhor, lá me livrei das panquecas, limpei-me, tirei aquele maldito avental, e finalmente disse à Patrícia que ia para a sala. 
Aprontei a minha blusa, e quando dei por mim a sair da cozinha, eles disseram-me olá, mas as minhas pernas não ligaram e eu disse olá já estava a caminho da casa de banho, nem sei o que me deu, mas lá fui eu dar um retoque na maquilhagem. Respirei fundo, pensei que estava parva de todo, nem sabia porquê. Não podia ser por ele, ainda nem sequer o conhecia. Voltei. E quando voltei reconheci uma cara que não reconhecia, era ele. Ia para dar beijinhos a todos quando desvigorei. Não sei quanto tempo fiquei naquele estado, estúpida, inepta. Será que ele deu por isso? Pois claro que deu. Será que ele já está afeito a isto? Talvez. Será que ainda lhe doí? Não sei. Cumprimentei todos os meus amigos, e depois finalmente apresentaram-nos. Bem que me podiam ter dito que ele era tetraplégico, que estava numa cadeira de rodas, e que era isso a que se referiam. Pois claro que a outra coisa podia ser? Fiquei calada o resto da tarde e da noite, acho que todos perceberam, poucas mais palavras fui capaz de exprimir. Fiquei ali, sentada, primeiro no canto do sofá, depois no canto da mesa, e depois outra vez no canto do sofá, até que por fim, outra vez no canto da mesa. O Pedro é animado, nem parece que está numa cadeira de rodas, nem parece que lhe faltam os braços e as pernas. Foi ele que contou as histórias, e que histórias! Foi ele que contou as piadas, e que piadas! Foi ele, que animou o jantar, a noite, os jogos de mesa, os jogos de vídeo e tudo o que fizemos naquele dia. E eu feita parva, pensava, como é possível, alguém assim numa cadeira de rodas, para sempre, ter mais alegria do que eu, ser mais confiante do que eu, ser mais tudo do que eu? Onde vai ele buscar toda aquela força? Senti-me toda a noite como se fosse eu que que não tivesse pernas nem braços, como se fosse eu que não pudesse sair de uma cadeira de rodas, como se fosse eu que precisa-se dos outros para me irem buscar um copo de água, colocar a refeição na mesa. Senti-me como fosse eu que tivesse as penas e os braços cortados. Porquê? E ele? E ele, parecia que não lhe faltava nada. Parecia que ali tinha tudo o que precisava, tudo o que faria feliz, e que era capaz de tudo. O sorriso sempre bonito, os olhos sempre a brilhar. Parecia que não precisava de ir a lado nenhum, que o resto do mundo não lhe interessava, não existia, ou que todo o mundo estava nele e com ele? Na verdade pensei nisso a noite toda, enquanto tentava adormecer, coisa que não chegou a acontecer. Na verdade ele não podia sair dali, porquê preocupar-se com o que ali não está? Porquê lembrar-se do que não é possível, do que não pode alcançar e, porque não, simplesmente saber-se estar feliz? Na verdade, talvez já esteja habituado e treinado a aproveitar, com quem está, onde está, sem pedir mais, sem esperar mais, porque, saberá ele que não vai ter mais? Não vais ter mais? Parece-me que tem muito mais do que eu! Na verdade aprendeu a estar onde está e a dar-lhe valor. Talvez eu é que não saiba estar onde estou e a dar valor a tudo isso. Talvez seja eu que espere sempre mais, que procure sempre algo que nem sei o quê, quando talvez seja assim tão simples, saber-se usufruir, do que, e de quem, está connosco. Às vezes conhecemos pessoas que inesperadamente nos surpreendem. Às vezes conhecemos pessoas que nos obrigam a pensar, a repensar e a questionarmo-nos sobre nós, sobre tudo. E depois de conhece-las damos gratidão por elas terem aparecido na nossa vida. Infelizmente, (ou felizmente?) elas têm de aparecer na nossa vida porque têm muito mais a ensinar-nos do que nós a elas. O Pedro é uma dessas pessoas.

quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

Capitulo I - O tabuleiro de xadrez

Sentou-se. Mais uma vez, como todas as outras vezes, nas noites e noites que por ali desfilaram, fitou o tabuleiro. Os olhos fixaram as pedras brancas. Do outro lado as pedras pretas. Todos os dias, sem excepção, sentava-se num dos lados do tabuleiro conforme a marca apontava. Hoje era dia de jogar as brancas. Observou durante seis minutos a disposição do tabuleiro e decidiu-se, jogou um bispo. Amanhã seria a vez das pretas. Seria. Apenas seria. Porque amanhã, ela, não lá estará. Aprendeu a jogar xadrez com o pai ainda nem frequentava a escola. Quando era pequena jogava todos os dias com o pai, por vezes os jogos estendiam-se por serões. Agora, depois de pousar o bispo, sentiu-se confusa. Pela primeira vez o seu jogo seria interrompido, e não saberia quando o retomaria. Levantou-se e foi fazer um chá. O pequeno nervosismo começou a atacar. Aqueceu a chaleira, ainda gostava de fazer o chá à moda antiga, como a mãe sempre o fez. Optou por um chá branco, colocou a saqueta na chávena e depois da água aquecida, encheu. Pegou na chávena e voltou para a sala, onde deu uma volta de trezentos e sessenta graus perscrutando tudo à sua volta. É este o meu lugar, um dia voltarei, pensou ela. Queria terminar a partida de xadrez que iniciara mês e meio antes, mas sabe que não faria sentido. Lembrar-se-ia sempre da jogada do opositor, ela própria. Quando voltar terminará. A televisão estava desligada, e o silêncio imperava na casa. Vive sozinha desde que se divorciou, não há mais de seis meses. Os pais vivem no lado sul da ilha, ela vive no norte, numa pequena vila de pescadores, como quase todas as vilas daquela ilha. Em Siglufjörður, vila onde ela vive, gere um pequeno negócio de turismo. Herdou dos avós, por consentimento da mãe, uma casa nesta vila para a qual se mudou com o seu ex-marido. Juntos reabilitaram o edifício e decidiram arriscar um negócio próprio, apostando no crescente afluxo de turistas à ilha situada no meio do Atlântico norte.
Estamos em Março e as noites ainda são longas, mas apenas para quem não aqui cresceu e se acostumou. O seu pequeno negócio de Guesthouse dá para sobreviver, mas o que a mais fascina é o fluxo de pessoas a entrar e a sair. Não, não é a entrar e a sair por aquela porta de madeira. É o entrar e o sair das pessoas da sua vida, por vezes só uma manhã, outras vezes só uma tarde, por vezes um dia, vários dias, até vários meses. Acostumou-se às diferenças, às igualdades, ao supérfluo, ao interessante. Habituou-se às histórias, e apesar de nunca se ter ausentado da sua ilha, parecia que já conhecia o mundo. Até que um dia se perguntou: Mas o que é conhecer o Mundo? Sim, o que é? É conhecer as pessoas? É conhecer os lugares? É conhecer as pessoas e os lugares ou os lugares com as suas pessoas, ou será  as pessoas nos seus lugares? Será isto tudo e ainda mais? O que será? E foi assim que um dia terá tomado a decisão de partir e de conhecer.
Deixou-se ficar sentada, fixada no tudo e no nada. Pensa em tudo e não pensa em nada. A mala está pronta já faz dois dias. Não é pessoa de deixar as coisas para a última, não se desleixa, é precavida.
Na verdade, nem sabe bem o que deverá levar consigo. Não sabe que tipo de roupa precisará, nem quanta. Por isso decidiu-se por levar pouca, se precisar comprará onde carece, e mais importante, onde saberá do que lhe é útil. Não sabe por quanto tempo viajará, por onde, e se o fará sempre, ou não, sozinha. Por enquanto só sabe que partirá sozinha com uma mala de porão e uma mala de mão.
Circula pela casa em jeito de despedida, apercebendo-se que brevemente perderá este abrigo, a sua protecção, o seu aconchego. Pega numa maçã para ceia e embalada pelo sentimento nostálgico do futuro que pressente estende-se na sua cama, acariciando-a, e deixando-se transportar pela impressionante viagem do seu passado recente que a deixou agora onde está, e a que a pressionou a estar onde amanhã estará. Será que conseguirá dormir? A noite é passada entre o angustiante rebolar na cama e os pensamentos assombrosos dos próximos dias. Adormece sem por isso se dar. Acorda como sempre acordou sem despertador, mas deixa-se rebolar mais umas quantas vezes, para sentir o poder aconchegador do seu quarto, do seu resguardo. Toma o duche, o pequeno-almoço. Aproxima-se da janela despedindo-se desta imagem matinal. Sem mais demora, quer despachar-se, acabar com esta sensação e partir. Não vale a pena adiar. Não vale a pena .Ainda pouco passava das sete e meia da manhã quando um bom amigo, na sua habitual boa disposição e solidariedade, lhe bateu à porta. Preparava-se para fechar a porta quando inesperadamente pousa a mala e pede um minuto ao amigo. Volta a entrar em casa e sentou-se. Sentou-se? Sim. Durante três minutos deixou-se ficar. Estaria com dúvidas? Não. Depois de observado o tabuleiro de xadrez jogou um cavalo preto, pegou cuidadosamente no tabuleiro transportando-o até ao seu quarto, onde, no roupeiro, o espaço antes ocupado pela roupa que agora enche a mala que deixou pousada junto à porta de entrada, guardou o seu jogo para um dia terminar. Voltou à entrada. Ela e o amigo, juntos, percorreram os cansativos quatrocentos e vinte seis quilómetros de Siglufjörður para Keflavik, onde pernoitou, seguindo no dia seguinte viagem de avião. Destino? Roma.

domingo, 2 de outubro de 2011

Os putos jogam à bola

Os putos estão lá baixo. Estou a ouvi-los. Pelo barulho de certeza que jogam à bola! De vez em quando uns gritos de euforia, é golo! Levantei-me da minha posição confortável de sentado no sofá e espreitei. Espreitei os putos. Jogam à bola! Um dia também fui puto e também joguei à bola! Agora sei. Agora sei que nessa altura alguém se levantava da sua posição confortável do sofá e via os putos. Jogam à bola, pensava esse tal alguém! Há coisas que se repetem, mas só o sabemos quando lá chegamos. Chegamos e percebemos que não somos os primeiros e que não somos os últimos. Muitas coisas, quase todas. Por isso não vou inventar. Inventar para quê? Já tantos inventaram! Imaginar? Imaginar para quê? Já tantos imaginaram! Escrever? Escrever para quê? Já tantos escreveram! E é isso que vou aproveitar. O que de bom já foi inventado, imaginado, escrito. Hoje quero ser simples.
Tudo começou depois das férias. Sim, em Agosto! O primeiro Domingo de regresso a Lisboa. Aquele Domingo. Ai, como custa esse Domingo. A tarde pedia descanso. Quem disse que as férias não cansam? Fiz-lhe a vontade. Sentei-me naquele sofá, naquele mesmo em que hoje me levantei para ver os putos! Jogam à bola, ainda jogam à bola! Estendi as pernas e comecei a ler “O Sonho do Celta” de Mário Vargas Llosa. Sentado no sofá de pernas estendidas a ler um livro! Pareceu-me uma forma esplendorosa de terminar as férias! Que tal vos parece? Mas foi difícil. O tipo de escrita não é o que mais me convence. A acção movimentava-se lentamente. Não me estava a prender. Parei. Não vale a pena insistir. Lanchei e voltei a ler mais umas paginazinhas. Mas. Mas ainda não. Fechei. Deixei para outro dia. No outro dia? No outro dia já não parei! E nos outros também não! Da Irlanda ao Congo, do Congo à Grã-Bretanha, da Grã-Bretanha à Amazónia, da Amazónia à Irlanda! Qualquer coisa assim do género. Estive lá! Dos colonos ingleses à emancipação Irlandesa, o que sabem? Os europeus civilizados, diziam eles, e os escravos africanos e sul-americanos, negavam eles, também eles. Contaram-me e impressionaram-me! Uma história que ensina, que relembra, que abala, uma história que merece ser contada. Uma história sobre nós, quem somos todos, quem são alguns e quem são outros. As ignomínias, diz o autor. A indolência, os insolentes. O género humano, a nossa condição, uma vida à deriva ou uma vida encontrada? Acabei o livro também sentado no sofá. No mesmo sofá. Porque o livro merecia. Não, não era eu que merecia, era o livro. Porque esta história também nos transforma. Aconselho, recomendo, sugiro! E os putos? Os putos? Nesse dia não ouvi os putos.
E no outro dia? No outro dia, era outro Domingo. Um Domingo de Setembro. Agarrei noutro livro. Agora, um pequeno, rápido, simples. “Hoje não” de José Luís Peixoto. Vários contos. Saí nesse Domingo. No Jardim da Tapada das Necessidades havia por lá um Out Jazz. O dia estava soalheiro. Levei o livro comigo. Deitei-me na relva, num espaço aberto. Ao fundo o palco. À volta outras pessoas para ver o jazz e, à volta das pessoas, um jardim, as árvores, os pássaros, as flores dos jardins. Adormeci. Acordei. Ouvi a música. E comecei a ler o livro. Pelo meio havia uns putos. Pediam aos pais para irem jogar à bola! E mais uma vez, estavam lá uns putos, outros putos, a jogar à bola. E eu. Eu li metade do livro e depois fechei-o. Voltei a relaxar, ouvia-se um som de jazz . Aproveitei o dia soalheiro, só queria descansar. Cada vez mais quero descansar. Descansei e voltei para casa. À noite li mais um pouco. No outro dia terminei o livro, era pequeno. E agora? Agora o quê? Querem saber dos putos? Agora também não sei deles, não os ouço. Os putos não! Não era dos putos que queriam saber!? Os livros! E agora, que outro livro?
Há já algum tempo que me preponha a descobrir Rafael Garcia Marquez. Nunca o li. “Cem anos de Solidão”, que tal? Comecei. E todos me diziam: “Esse é que é um grande livro! Vais gostar!”. Mas não estava a gostar. Ainda agora o tinha iniciado e já não sabia quem era quem. Já me tinham avisado! Até me chegaram a mostrar um mapa das personagens, rabiscado no verso da capa, para ajudar a leitura do livro, se não me engano! O Rafael é uma gajo lixado. Mas não era isso. Fechava o livro porque não gostava. Depois voltava a tentar, talvez já gostasse. Tentei umas três ou quarto vezes. Mas as personagens pareciam-me objectos, marionetas, sem vida própria. Não conseguia entrar dentro delas. Não gostava, estava quase a parar. E agora? Quantos de vocês me caem em cima?! Ai, que já me doí………. Estava quase a desistir, quase, quase, mas ainda não. Até que alguém me perguntou se estava a ser capaz de ler o livro? Respondo que não, que estou para desistir. E o retorno é o melhor que podia ser! “Eu não consegui, desisti a meio!”. Ya ho! Assim já tinha forças para desistir! Peremptoriamente: não me estava a interessar saber mais. Talvez tenham faltado os putos da bola. Onde estavam eles? Não sei.
É que para mim não vale a pena insistir num livro de que não se gosta. Com tantos livros para ler, dentro dos nossos gostos, porquê perder tempo com um de que não nos dá prazer? Não. Não sou dessas pessoas, que vai até ao fim por teimosia.Vou ler um que goste! E foi assim, que peguei num livro perdido lá pelas estantes do meu pai. “Papillon”. E estou a gostar. Um livro difícil. Duro. Mas estou a gostar. Porque na vida não me interessa somente conhecer o seu lado belo, esplêndido. Porque viver é também conhecer o seu lado horrível, incomodo. Porque para crescer é preciso conhecer os dois lados. Entretanto, alguém já me disse que também tentou lê-lo, mas desistiu. É verdade que é duro,  severo, árduo. Mas eu vou continuar. Tal como os putos que continuam a jogar à bola lá em baixo. Porque gostam, porque não querem estar noutro lado a jogar outro jogo. É aquele jogo, é aquele livro. Já os ouço outra vez. Vou-me levantar. Vou vê-los. E vou esperar por um golo!

domingo, 11 de setembro de 2011

Era uma vez um português, um inglês e um brasileiro

Isto bem que podia sair em jeito de anedota. Daquelas anedotas. Daquelas anedotas em que: “Era uma vez um português, um inglês e um brasileiro.” Mas não. Isto não é uma anedota.

Elas eram duas. Eles eram dois. Ela, ela apresentou-se como Headhunter, a outra, a outra apresentou-se como Country Manager. Ele, ele apresentou-se como Chief Executive Officier (CEO), o outro, o outro apresentou-se como Clinical Research Analyst. Era sexta-feira. E estavam todos no mesmo workshop, naquele workshop supostamente de Industry & Inovation, dizia-se. A meio da manhã, a desejada pausa, o coffee-break. Ela, precisava de fazer uma chamada urgente. Meteu a mão na mala e tirou o seu smartphone. Fez a sua chamada. Ele precisava de ver um e-mail urgente. Puxou a pasta, tirou a seu tablet, ligou-se à internet. No e-mail lia-se qualquer coisa como: “FYI. Ver ficheiro anexado. Atenciosamente.”
FYI?????? A primeira vez que tinha lido aquela sigla, lembrou-se da sua ignorância. Ou não? Com a ajuda de um colega entendeu, For Your Information.
Ele aproveitou enquanto estava on-line para consultar uma transferência bancária. Acedeu ao serviço Home-banking. Inseriu o username, password e carregou login. À entrada uma mensagem do seu Personal Advisor anunciava-lhe as novidades. Pela música ambiente escutava-se uma banda qualquer portuguesa, a cantar em inglês. Entretanto apareceu um outro qualquer, que, dizia-se, era operador de call-center, nesse tal workshop. Queria ouvir a anedota. Qual anedota? A anedota de um português, um inglês e um brasileiro. Ah essa anedota! Mas isto não é uma anedota já disse. Mas ele esperou. Ainda acreditava que havia uma anedota. Deixou-se ficar. Esperou pelo quê? Esperou pelos quatro. Pelos quatro? Sim, pelos quatro. Esperou que os quatro começassem a cavaquear. A contar a anedota? Mas isto não é uma anedota! Parece que ela acabou a chamada e que ele terminou os ofícios da internet, não antes de fazer um download e de navegar na cloud. É agora a anedota? Não! A outra disse a ela que amanhã queria ir tomar o brunch, mas não sabia onde. Ela sugeriu um spot. Dizia que era um lugar que estava in, e que aos Sábados existia a tal da happy-hour. Eles achavam graça, mas desconversaram. O outro perguntou a ele: “Conheces alguma clinica dentária que me aconselhes?”. “Até conheço – respondeu ele – Por acaso até tenho aqui um cartão deles, porque fui lá há pouco tempo”. E entregou-lhe o cartão. Happy Smiling – Dental Clinic dizia. O outro sorriu. Um sorriso amarelo. “Happy Smiling, com que então?! Nome inglês. Mas é portuguesa?”. “Sim, claro que é portuguesa.” (Claro?). “Só perguntei porque o nome é inglês.” Retorquiu o outro. “Sim, mas sabes que agora as estratégias de marketing dizem que o que vende é o que parece ter sucesso. Nomes anglo-saxónicos, são sinal de internacionalização, logo sucesso. Mesmo que seja mentira. Marketing”. Respondeu ele. “Sim, parece que o que se faz por cá, designa-se logo em inglês, assim pode-se vender lá fora!”. Afirmou o outro. “Pois. O problema é que para se vender cá, mesmo o que se faz por cá, também já se tem de fazer em inglês.” Entretanto, o intervalo do coffee-break esgotava. Aproveitaram para combinar onde iriam almoçar. A outra sugeriu que, devido ao curto espaço de tempo disponível, optassem por um rápido, e simples, fast-food. Mas ela, queixou-se. Não se sentia Well’s, e não queria comer dessas porcarias, precisava, sim, de passar pela farmácia. Desde ontem, depois daquela sessão de fitness, num qualquer centro de bodyconcept, que qualquer coisa, não sabe onde, não sabe o quê, lhe doía, o melhor mesmo é fazer um check-up. Entretanto, já esquecido, continuava lá escondido o operador de call-center. Até que gritou. “Então e onde está o inglês?!”……… Os quatro surpreenderam-se! Os seus pescoços conduziram as suas cabeças para trás e os olhos cresceram na direcção do tal outro, o do call-center. “O inglês??? Qual inglês”. Replicaram. “Sim! O inglês da anedota?” Disse o operador. “Anedota?!” Escutou-se em uníssono. “Sim a anedota. Não vão contar uma anedota de um português, um inglês e um brasileiro?” …….. “Não! Isto não é uma anedota! Já dissemos!” E a música ambiente continuava, com uma outra qualquer banda portuguesa, a cantar também ela uma outra letra qualquer em inglês. Afinal de contas, talvez isto, não seja mesmo uma anedota. Onde está o português? E o inglês? Ah! Já percebi. Afinal não é um inglês! É o inglês! E afinal não é um português! São os portugueses! Mas falta um brasileiro? Ou será o brasileiro? Mau. Onde está o brasileiro? Continuando. O workshop terminou. Todos opinaram que tinha sido uma boa sessão para estabelecer novos contactos, mas mais do que isso fortaleceram o seu know-how. Combinaram, amanhã, Sábado, irem ao tal brunch e ao cinema. Ele sugeriu: ”Que tal os Smurfs”. “Wharever…. amanhã logo se vê”. Retrucaram.

No outro dia, ele e ela, antes de saírem, deitados no sofá, viam televisão. Aqueles programas. Entrevistavam o Tiago Bettencourt. Questionavam-no se não se sentia tentado em compor em inglês. “Não.” E interrogou: “Será que esses que escrevem e cantam em inglês também falam em inglês com as namoradas? Curioso na música portuguesa é que tantos compõem em inglês a pensar na internacionalização, que para venderam lá fora têm de cantar em inglês. Mas curiosamente quem mais vende lá fora, são os fadistas, os Madredeus, agora os Deolinda.”

Também, nesse outro dia, o outro e a outra, estavam em casa antes de sair. O outro lia uma revista daquelas de tirada semanal. Uma crónica do Ricardo Araújo Pereira. “Olha – comentou para a outra – O Ricardo dos gatos diz que continua a preferir chamar Estrumpfes aos Smurfs! Diz que a multinacional argumenta que é preciso uniformizar o nome dos bonecos dentro de cada língua. Por isso em Portugal e no Brasil são Smurfs! Curiosamente (ou não?) em Espanha são Pitufos, mas na Catalunha são Barrufets! Lá já podem ter dois nomes!” E nem sequer são ingleses.

Já no cinema, compraram os bilhetes e escolheram os lugares. Entraram. Sentaram-se. Ao lado um gajo qualquer a comer pipocas. “Já tenho saudades dos Smurfs!” Disse a outra. “Estrumpfes!” Exclamou o gajo do lado, o tal que estava a comer pipocas. “Desculpe?”. “Sim, em português para mim é Estrumpfes!”. Apesar da pouca luminosidade a outra reconheceu-o. Não, não é o Ricardo Araújo Pereira. “Desculpe, por acaso você não é senhor de ontem no coffee-break?” Questionou. “Sim, sou eu, o gajo do call-center e agora também o gajo das pipocas. Pensavam que escapavam à anedota?”Afirmou o gajo das pipocas, o tal gajo do call-center. “Mas qual anedota?!”. Bradaram todos. E lá explicou o operador: “Já disse que tem de haver um brasileiro na anedota. E vai haver! Porque Estrumpfes, em português, e com o novo acordo ortográfico seria Estrumfes!”. Ah! Cá está um brasileiro! Um brasileiro não, o brasileiro. O acordo ortográfico, ai o acordo ortográfico.


Uns portugueses, o inglês e o brasileiro, a tal anedota que afinal não é anedota. Pessoalmente não vou defender a utilização de anglicismos na nossa língua. Também não vou defender o actual acordo ortográfico, apesar de começar a achar que pelo menos o acordo ainda nos defende em qualquer coisa. Os seus defensores argumentam dois motivos principais: a uniformização da língua portuguesa, facilitando o intercâmbio literário entre os países lusófonos, e o facto de o português não ser uma língua de trabalho aceite na ONU por possuir duas grafias oficiais, a portuguesa e a brasileira. Concordo com um acordo ortográfico, talvez não este. Mas pensando bem, quem agora vai aprender a escrever português, no futuro não terá as nossas revelias. Alguma vez nos revoltamos por já não escrever Rei com y, e Farmácia com Ph? E muito provavelmente quando essas mudanças aconteceram também muitos as contrariaram. Mas nós que aprendemos a grafia de hoje contrariámos? Não. O normal é o que nós aprendemos. E agora na moda estão os anglicismos. Estamos a ficar preguiçosos, e já, nem sequer, nos damos ao esforço de traduzir os neologismos, que imperativamente ficam-se pela sua denominação anglo-saxónica. Isto será o que os pequenos aprenderão no futuro. Mas dos anglicismos ninguém se queixa, porque é cool…. Queixem-se do que quiserem, e defendam o que quiserem, mas que o façam e que o defendem com alguma razão. Porque ainda não ouvi ninguém que se queixa do acordo a contestar os anglicismos. É que se isto fosse uma anedota, e se na verdade era uma vez um português, talvez esse português fosse um velho. Um velho? Sim um velho. Dizem que sim, lá para os lados do Restelo.

domingo, 21 de agosto de 2011

A Feira


Estava prostrado à porta da casa-de-banho, onde pela última vez observou o pai a colocar o aftershave nas feições abatidas e resignadas que naquele dia se lhe impunham. O irmão tomava o pequeno-almoço, lá em baixo. O pai, encara-se uma última vez ao espelho e, ainda sem ter notado a presença do seu mais novo, Filipe, coloca ambas as mãos apoiadas no lavatório, enfrentando-se. Por fim, derradeiramente como quem expira aliviando todo o seu peso, em forma de resignação, expulsa frustradamente todas as suas dores, descendo a cabeça em termos de rendição. Foi, seguidamente ao acordar de todos os seus tormentos, que virando-se na direcção de saída, constata a ingénua figura do seu filho mais novo. Talvez, um pouco surpreendido, o seu arranque inicial dissipa-se, fazendo as suas pernas perder a razão do seu sustento, ajoelhando-se perante aquela frágil criatura e abraçando-o como nunca o tinha abraçado e como um dia desejará voltar a abraçar. Chorou, chorou e chorou. Lágrimas escorriam-lhe abundantemente entranhando-se na pele do seu filho, como que se tentassem para sempre pertencer a dois corpos distantes.

Sentado no sofá, André, o irmão mais velho aguarda-os. Desceram as escadas em ritmo lento, como quem não anseia tocar o destino. Os três agarraram os blusões que descansavam no cabide junto à porta para o exterior. Saíram. Caminharam. Entraram no carro estacionado na serventia que serve a moradia e, que hoje seria abandonada ao fluir temporal das transformações da vida.
André, já com 16 anos, acompanhou, em prenúncio do futuro próximo, o pai na frente do carro. Filipe, de 6 anos, atrás. O percurso até à feira fez-se em silêncio. Ninguém. Nenhum. Nem um deles quebrou. O silêncio, a reflexão venceram. A mãe aguardava-os sozinha no local e à hora combinados, junto à entrada da feira. Filipe, correu alegremente incapaz de resistir ao sorriso e à saudade maternais. O pai dirigiu-se à mãe. Um olhar desapegado reflectia-se em ambos. Ele pede-lhe uma última hora, ele e os seus dois filhos na feira. De cara virada e olhar remoto ela acenou positivamente.
Deambularam os três entre o desfile de algodão doce, churros, pipocas, farturas.  À direita uma roda gigante, um barco pirata, uma montanha russa. À esquerda carrosséis mais infantis: uns aviõezinhos, uma selva, uma mini-pista de carros. André colocou Filipe às suas cavalitas. É que também para ele a separação ao seu irmão mais novo e à sua mãe seria penosa. Pai e mãe em vontade com a vontade da vida seguirão caminhos distintos. Ele voltará, ainda hoje, com André para um qualquer país estrangeiro. Ela e Filipe ficarão. É que de Filipe ainda de 6 anos, a mãe não consegue separar-se, mas de André, com 16 anos, jovem vigilante da vida adulta, seguirá, para um outro país, com mais oportunidades, estudará numa boa universidade. Mas nesta escolha da vida Filipe e André serão afastados um do outro.

Seguiram para os carrosseis infantis onde o pai colocou Filipe num daqueles carrosseis em que animais de rosto feliz, giram e giram em volta de um eixo enquanto os seus corpos ondulam como as ondas do mar. André e o pai esperaram. Filipe desprende-se naquele movimento constante, de cima-baixo-cima-baixo….. sorrindo, rindo…….. voltando a sorrir, a rir, a sorrir. Como é fácil uma criança sorrir. O pai observa-o, e é nesse instante, que embalado ao som de uma qualquer música de feira, liberta-se do que o consome, e observa a felicidade, o sorriso, a luxúria de Filipe. Sabia que não tão cedo voltaria a apreciar a sua infantilidade, se por acaso esse dia ainda chegasse. Na sua cabeça fotografias sucessivas iam-se materializando, arquivando-se na forma de memórias, de saudade, de nostalgia. Foi nesse momento que André fixando as tímidas lágrimas do seu pai, apercebeu-se da veracidade e da significância daquele momento, consciencializando-se pela primeira vez da finitude da vida, abrindo lugar ao seu primeiro passado. O tempo encurtava. Perceberam que não poderiam deixar os seus últimos momentos marcarem-se pelo que perderiam, mas sim, que teriam esta última oportunidade para brincarem juntos, de rirem e sorrirem. E agora, só isso, e isso só interessava. Ao fundo, uma qualquer música de feira. Jogaram jogos, entraram em carrosseis, comeram farturas! E, no fim, ao fundo, outra qualquer música de feira.

Continuaram a passear. E todos, agora, com um grande sorriso. Porque sim, o que interessava era aquele momento, e aquele momento era um momento para sorrir.

Mas Filipe parou. É que na feira havia uma pequena organização para encontrar um lar para animais abandonados. Filipe não resistiu……. correu para eles. E como qualquer cliché, pediu um ao pai. Queria um cachorrinho, todo preto, de pêlo curto, e com patinhas e peito de malha branca. O pai, claro, não lhe o podia permitir. Não seria ele a assumir a responsabilidade pelo cachorro, teria de ser a mãe. Tentou, explicar isso a Filipe, mas claro que ele mesmo percebendo, não quis perceber. Mas não precisou de insistir. É que para aquele pai, não lhe restava nada mais, do que ambicionar, ainda mais, um sorriso maior, o maior dos sorrisos, na cara de Filipe. Sabia que a mãe, muito provavelmente não aprovaria, mas depois pensou: “Também ela quererá ver um sorriso na cara do Filipe. Também ela compreenderá, que o cachorro não é uma compensação, mas se é ele que é preciso para alegrar o nosso filho, de certeza que não o recusará. E pensará que sou sempre o mesmo irresponsável, por nem sequer lhe perguntar se aceita este cachorro? Sim, mas que pense de mim o que quiser, porque a mim o que me vale é a alegria do meu filho aqui, agora. Sim, sou egoísta dirá ela, que pense mal de mim o que quiser. Já quis saber dela, agora quero saber do meu filho”.
E assim, Filipe, levou o cachorrinho preto de patas e peito branquinhos.
Caminharam de volta, para a mãe. Ela, viu o cachorro. Suspirou, abanou a cabeça, mas interiormente comoveu-se. Percebeu o porquê. Acho-lhe piada. Mas não o admitiu. Aquele cachorro, só lhe daria, a ela, mais trabalho, mais chatices. Mas interiormente também ela sorriu. Ao pai, ela não nada disse.

É que há um dia, o primeiro dia da nossa vida que perdemos, algo ou alguém muito importantes. E esse dia não esquecemos, nunca. É que este dia, foi para Filipe, o dia, o primeiro que perdeu alguém: o pai, o irmão.

Mas na vida, também há um dia, o primeiro em que ganhamos algo ou alguém muitos importantes. E esse dia também jamais esqueceremos. É que este dia, foi para Filipe, o dia, o primeiro que ganhou alguém: um cachorrinho, que seria o seu próximo amigo.

Curiosa é, assim, a história de Filipe. É que o primeiro dia em que perdeu algo é também o primeiro dia em que ganhou. E no futuro, como verá Filipe este dia? Como conseguirá compreende-lo? É que se é fácil entender ou marcar um dia, em que ganhámos e outro em que perdemos, como aceitar que a vida nos reserve o mesmo dia para duas formas diferentes? Essa foi a sorte de Filipe.

segunda-feira, 1 de agosto de 2011

Conhecer uma pessoa, uma guerra.............alguém e algo desconhecidos

Pouso o livro. Mantenho-o perto, arriscadamente perto de mais. Mas se já li este livro, por que é que me custa tanto, agora, depois de lido, voltar a encará-lo? É que, só depois de tomar consciência do seu conteúdo, posso desmistificar a sua capa. Identifico, assim, uma questão:

E se a infância for um lugar a que se não deseja retornar?




O propósito espaço em branco tem um significado. Simboliza o espaço temporal que a frase ecoa na minha cabeça, mantendo-me apaticamente estagnado. É que, se a minha infância é um lugar a que nunca me recuso regressar, torna-se dificilmente compreensível, para mim, o entendimento de uma infância oposta. É no entanto este sentimento que me percorre. 

Encaro desta forma, uma história que não vale a pena encenar. Uma história que não vale a pena descrever o que me rodeia, o que me envolve, onde estou. Nada. Porque não interessa onde estou. Porque nada pode alterar essa história. Essa história é a história da própria História.

Não há nada a esconder. Cada página folheada, cada palavra, apenas, e apenas me elucida: 38 milhões de falsos destinos. Falsos? Falsos……falsos são 38 milhões de óbitos. É por isso que hoje, não vale a pena envolver-vos. Porque hoje estou na envolvência e nos lugares daqueles incómodos seis anos. E, de certeza que querem que eu descreva este cenário? Eu não quero. Mas é exactamente a construção dos cenários, que me faz gostar de História. Hoje alcanço isso, talvez graças a este livro. A relação é recíproca: a História é a história dos Homens, e são os Homens que construem a História. Porque quando apreendo um pedaço de História, associo cada passo, revejo cada passo, nos passos dos Homens. E tal como conhecer uma pessoa me fascina, conhecer a História é conhecer as histórias de todos aqueles que a fizeram, e fazem, parte da História. É por isso que, quando leio um livro de História, revejo todas as histórias daqueles que a História conta.

Como pessoas, temos o nosso passado. E para conhecer uma pessoa, é preciso conhecer o seu passado. Mas não podemos deixar de assumir que, onde estamos, também tem o seu passado. E se o Homem e a História são um produto recíproco, então, não é para mim suficiente interessar-me somente pelo passado das pessoas. Sou obrigado a largar o egocentrismo da nossa individualidade e a conhecer o passado de todos nós.

Li ” A Europa em Guerra 1939-1945” de Norman Davies, mas não me bastou.

Li “As grandes batalhas da História: Midway, Al-Alamein, Monte Cassino, Estalinegrado, Kursk, Normandia”.

Aprendi que em Midway, exactamente as ilhas a meio caminho no Pacífico, entre a América e a Ásia, os EUA derrotaram a supremacia naval do Japão invertendo o rumo da guerra no Pacífico.

Aprendi que em Al-Alamein, e com a Operação Tocha, os Aliados ganharam supremacia no Norte de África, factor importantíssimo para controlo e abastecimento de petróleo.

Aprendi que em Monte Cassino, Polacos, Franceses e Americanos privaram a Alemanha do seu maior aliado, a Itália, abrindo caminho para a conquista de Roma.

Aprendi que as batalhas de Estalinegrado e de Kursk privaram a Alemanha de conquistar Moscovo, invertendo o rumo na Europa. Sim….na Europa, não só a Leste. É que se os Soviéticos não derrotassem a Alemanha, e não a submetessem a um terrível desgaste, esta não se teria enfraquecido a Oeste, debilitando os seus recursos a Ocidente, a favor da frente Leste, e desmoralizando as tropas. Só assim foi possível o desembarque na Normandia e o avanço dos Ocidentais até Berlim. É que se os Soviéticos não tivessem derrotado a Alemanha na frente Leste, os EUA e a Grã-Bretanha não se atreveriam a desembarcar na Normandia. Porquê? Em 1940 britânicos lançaram a operação Dínamo, com o objectivo de evacuarem os soldados britânicos, e franceses de Dunquerque na França. Evacuaram mas falharam, apesar de oficialmente ter sido um sucesso Mas quem sabe disto? Quem conta isto? Milhares de soldados morreram devido ao fogo aéreo alemão, mas isso………..isso foi ocultado pelos britânicos e curiosamente ainda não vi um filme sobre esta batalha. E depois? Depois….. depois da capitulação de França praticamente não houve guerra na Europa Ocidental, só na frente Leste. Batalhas…….. batalhas na frente ocidental, para além de pequenos conflitos, só bombardeamentos aéreos, a guerra do Atlântico e em 1944 o desembarque na Normandia. É que tal como conhecer uma pessoa, não posso acreditar no que me contam sobre ela. Só conhecendo-a, só explorando-a, posso na verdade saber quem é.

Aprendi os horrores da frente Leste. Aprendi que o que Americanos, Britânicos e Franceses contam da guerra, é apenas uma pequena parte do esforço de guerra, da carnificina, dos horrores. Porque esses horrores, a verdadeira guerra, foi a Leste, não foi a Ocidente. E deixo-vos uma pequena tabela com a dimensão das mortes nos diferentes cenários da guerra. E digam-me se ainda acham que o Dia D é a batalha vital? Que o dia D é o palco dos heróis de guerra? 

Batalha
Mortes
Operação Barbarossa (invasão da URSS pela Alemanha)
1 582 000
Batalha de Estalinegrado
973 000
Cerco de Leninegrado
900 000
Batalha de Kiev
657 000
Operação Bagration (avanço da URSS para a Europa Central depois de derrotar os alemães em Kursk)
450 000
Batalha de Kursk
325 000
Batalha de Berlim
250 000
Invasão da França pela Alemanha
185 000
Operação Overlord (desembarque dos aliados na Normandia)
132 000
Batalha de El Alamein (África)
4 650

Museu da Guerra - Varsóvia

Acredito, agora, que a Segunda Guerra Mundial não se ganhou numa batalha, num desembarque, numa região, por um país. Foi um conjunto de acontecimentos que definiram os outros. Sem essa sequência, o destino seria outro. Não foi o dia D, não foi a batalha de Kursk, não foi a batalha de Estalinegrado, não foram os soviéticos, não foram os americanos, não foram os britânicos. Ou melhor, foram, mas foram todos. É que, tal como uma pessoa, podemos justificar aquilo que nos tornámos, quem somos, invocando um e um só dia? Talvez, admito, até possamos invocar um acontecimento que tenha alterado e contribuído fortemente a nossa vida. Mas, maioritariamente, não é a nossa vida uma sequência de acontecimentos, que nos vai transformando, construindo? Uns mais importantes, outros menos, tudo bem. Uns mais decisivos, outros em nada. A História assim também o é. E não esqueçamos que tal como uma pessoa, as batalhas são apenas o resultado final, o resultado visível de algo muito mais profundo, muito mais abrangente, é somente aquilo que se vê, mas só vendo não se conhece.


Continuo em busca de mais….quero saber mais. Estou, por isso, a ler um novo livro: “Uma guerra desconhecida” de Paul-Marie Gorce. E é esta dedicação a este tema que a semana passada, tomou um colega a abordar-me: “João, tu gostas de História em geral ou gostas é da Segunda Guerra Mundial?” Retorqui que gosto de História, mas que a da Segunda Guerra me fascina particularmente. Talvez pela sua proximidade. Talvez pela sua magnitude. Talvez por ser a mais bem documentada, a gravada, a que ainda hoje se pode testemunhar. Mas talvez, por ser aquela que ainda nos marca. Que ainda está presente. Aquela que ainda hoje lembra Checos e Polacos, por exemplo, a detestarem Russos e Alemães. Sim…..…já conheci Checos e Polacos……….já vivi com eles……… já estive na Polónia e na República Checa, não falo ao acaso. A Segunda Guerra, aquela que até 1989 ditou a divisão da Europa em dois blocos. Aquela cuja nossa Europa foi construída pelos que nela cresceram, pelos que nela obtiveram as primeiras memórias deste mundo, memórias de guerra. Porque quem nela nasceu, quem nela cresceu, até hoje foram aqueles que governaram. 

É por isso que para nós Europeus, a visão de entrar em guerra, de violar um país é diferente da dos EUA. Sim, porque eles nada sofreram, além de uma esquecida guerra civil, além de uma singular ilha no Pacifico, até ela, por eles tomada. Que a maturidade e as lições da Segunda Guerra não sejam esquecidas pelos novos Europeus, por nós. Que aprendamos com a História de todos e não só o com a nossa própria. Como pessoas, temos o nosso passado. E para conhecer uma pessoa, é preciso conhecer o seu passado. Mas onde estamos também tem o seu passado. Homem e História são um produto recíproco. Não é para mim, suficiente, interessar-me somente pelo passado das pessoas.Sem espanto, comprei, assim, um novo livro: “Sete líderes em guerra”, de Marc Ferro. A influência destes sete homens na guerra? Porque quando apreendo um pedaço de História, associo cada passo, revejo cada passo, nos passos dos Homens. E tal como conhecer uma pessoa me fascina, conhecer a História é conhecer as histórias de todos aqueles que a fizeram, e fazem, parte da História. Sou obrigado a largar o egocentrismo da nossa individualidade e a conhecer o passado de todos nós.

domingo, 3 de julho de 2011

A Praia - O Eterno Retorno

7:42 AM. Um ruído galgou do rádio despertador interrompendo a letargia da noite. Acordei sobressaltado, satisfeito por não ser mais um dia de semana, mas um pouco desconsolado pelos dígitos que o relógio anunciava. Decidido em não deixar-me adormecer dei um pulo, esquivando-me ao chamamento do leito. Na escuridão, os ténues feixes de luz na forma dos dígitos do rádio despertador foram suficientes para aclarar o percurso até ao interruptor que eleva os estores. Carreguei. Subiram lentamente, como se soubessem as horas e o dia, que lhes pedi para despertarem. Fiz figas para que raios de sol conquistassem o soalho. O céu apresentou-se límpido, e o sol abençoou a intrepidez matinal a que me predispus. A mochila estava pronta desde a noite passada. Vesti os calções de banho e substitui a t-shirt. Tomei o pequeno-almoço. Zarpei!

Atravessei a ponte. Do lado de Lisboa a frescura da manhã convidava-a a reerguer-se dos episódios da noite. Do outro lado a enternecedora combinação de cores, na linha que separa o morro do horizonte, convidava a descobrir o mistério além. Cantei….”Aqui vou eu para a Costa!”….. e deixei-me guiar pelo refrão desta canção até ao fim da ponte. Alcancei tranquilamente o meu destino.
De manhã o sol enfrenta o mar olhos nos olhos. Fiz, por isso, a minha almofada de areia do lado do oceano. Estendi-me. Deixei-me impregnar pelos sons da natureza ainda dominantes, a rebentação das ondas, a leve brisa. Naturalmente, adormeci.

Despertei lentamente. Dominava agora a histeria humana, e para lá, além da histeria, o som das ondas. Dessa manifestação retornei à infância. Certamente uma das razões é a cacofonia dos pequeninos na sua voluptuosidade, na sua emancipação, na sua ignorância verdadeiramente sábia. Sem dúvida que as minhas incursões balneares familiares, quando era pequerrucho, também têm um peso significativo. A praia foi-me apresentada quando eu próprio era uma dessas crianças tresloucadas. Aprendi muitas brincadeiras na praia. Por isso, ainda hoje, gosto de assentar junto das crianças, das novas famílias, onde posso disfrutar da embriaguez areal dos pequenos. Fecho os olhos, e passo a ser um deles. O adulto, consciente, responsável, calculista, stressado, evapora-se no calor das brincadeiras, que me aquecem tanto como o calor do sol. De repente constato que apenas me faltam os baldes e as pás para ser um deles!

Retirei da mochila o meu bloco de notas. Escrevi...........
“Há coisas que me fazem retornar à infância. Uma dessas coisas é a praia. E hoje tive sorte. Aqueles dias de sorte. Aqueles dias em que pequenas coisas, aquelas coisas, que apreciamos, que nos encantam, que nos fazem sorrir, acontecem. Não me importo com a areia que aterra na minha toalha, por causa da correria gaiata, ao contrário dos avisos da mãe, para ter cuidado com o senhor. Pois bem, este senhor não precisa de, nem quer, cuidados! Que as crianças continuem ingovernáveis, rabinas, ariscas, simplesmente enfeitiçadas. “

Continuei a escrever.....
“Desvio o olhar para a minha direita. O mano mais velho corre atrás do mano mais novo, à volta do território demarcado pelo contorno do chapéu-de-sol. O riso dos manos, a alegria, a naturalidade do seu contentamento é contagiante. É como se o ar que eles dispersam se apoderá-se desse vício, e que transportado me atinge na inspiração seguinte, embebendo-se. Inopinadamente, circula-me no sangue aquele mesmo sorriso maroto, aquele brilho de inocência. Não desprendo os olhos dos manos. Não quero separar-me daquele sopro.
O mais velho provoca o mais novo, atingindo-o com um balde na cabeça (sem estragos!). É então que, distanciando levemente o meu olhar, descortino o sorriso do terceiro mano, ao colo da sua mãe, a deliciar-se com as traquinices dos mais velhos. O quanto não me vale este sorriso?! Para mim sei o que vale. Uma manhã saboreada na praia, uma boa disposição para o resto do dia, com certeza! Por que se há coisas que me fazem retornar à infância, uma dessas coisas é a praia."

Foi, assim, sem espanto, que senti subitamente uma espécie de deja vú. A descrição é simples: dois manos, dois calções de banho idênticos. Alguém se identifica? Aquela paranóia horrível, mortificante, que as mães tem de vestir os filhos de igual. Que recordação! Ainda hoje penso nas consequências que esses episódios podem ter no desenvolvimento da pessoa? Que impacto, que trauma, carrega esta mania maternal? Intriga-me. Um dia gostaria de ler um estudo científico que avalie esta situação. E com estas últimas frases pondero a hipótese que não quero admitir: fiquei traumatizado! Afinal, que homem, ainda hoje, não suspira, não dirige a mão à cabeça, não arregala os olhos, ou não concede uma risada solene, quando lhe questionam se, por acaso, o trajavam de igual ao irmão quando eram pequenos? Curiosamente, nunca vi as meninas vestidas iguais à mãe. Mas já vi os meninos vestidos iguais ao pai. E assim deverá ter nascido aquele jogo das diferenças. Encontra as 10 diferenças nestas duas imagens!? E imagino uma fotografia de dois manos cortada ao meio.”
Se tivesse uma máquina fotográfica à mão, tiraria uma fotografia e colocaria neste blogue os dois manos de hoje e os manos de ontem. A prova de um quadro intemporal. Por esta razão apresento somente os manos de ontem (onde é que está o umbigo?!).

O sol já tinha perdido a sua timidez matinal, e por esta altura já almejava por me refrescar. Abandonei a toalha. Caminhei. Cumpri o ritual para entrar na água. Entrei e trocou-se a ordem. Primeiro o som das ondas, e depois lá, além da rebentação das ondas, a histeria humana. E deixei-me relaxar pela inversão do cenário.
Voltei à toalha, sentindo o efeito ambivalente da frescura da água e cálido do sol. Deitei-me e deixei-me ficar, apenas e só, comigo.

Mas as crianças não repousam. Perscrutei à minha direita, um catraio que escavava, escavava, escavava. Um buraco considerável. O pai avisou, “Já chega, já tá fundo...pará!”. Claro que........ não parou. Continuou. Um pouco mais tarde, e desta vez, a mãe levantou-se, “Éééeéééé.....tão fundo. Filipe...já chega! O buraco já é maior que tu! As pessoas vão cair no buraco. Pára!”...... Claro que.....não parou. Juntaram-se os irmãos. Aproximaram-se mais crianças. Literalmente uma creche. Contemplavam o buraco. Algumas juntaram-se à odisseia, estimulando-me a curiosidade, pois já não avistava os pequenos que estavam lá dentro. Na verdade, só via areia a esvoaçar. E na contenção de um adulto, forcei-me em não me levantar e espiar o buraco. Mas queria! Contive-me. Inevitavelmente não consegui escapar ao buraco e julguei,... “D'aqui a nada parece o buraco orçamental!”..... Até que o buraco chegou ao limite, o pai, agarrou nos cachopos e tirou-os lá de dentro. Batidos mas não vencidos exercerem um grito de guerra: “Vamos à água!”. E lá foram os pequeninos. Entretanto, outros cachopos que se amontoaram para cuscar, tombaram mesmo no buraco. Observei os artistas que arquitectaram o buraco e pensei ....”Afinal parece mesmo o buraco orçamental! (ou o buraco de um e outro banco privado)”. As analogias são evidentes: O buraco é fundo, mesmo fundo, maior do que as possibilidades de quem o fez. Quem o fez desertou, e regozija-se à beira mar, impune. Quem não o fez caiu, e espera agora que uma mão se estenda. Qualquer coisa como uma ajuda…….uma ajuda externa. Só faltava mesmo saber quem taparia o buraco? ...Claro que..... tapou-o quem caiu nele, quem não contribui para a sua existência. Buracos, é mesmo coisa de crianças. Não se preocupam com as consequências quando o fazem, e retiram desse acto uma satisfação imensa. E depois.......... depois esquivam-se ao sacrifício de o taparem. E com esta apreciação alivio-me. Já não tenho vontade de escavar buracos. Afinal,….talvez…… não sou criança. Retornei ao modo adulto detectando que os raios de sol ganhavam contornos verticais, avisando-me que era hora de recolher. Assim, voltei a largar a minha infância, por que se há coisas que me fazem retornar à infância, uma dessas coisas é a praia.

sábado, 18 de junho de 2011

Silêncio, que se vai cantar o Fado

Um jantar. Uma tasca de Fado no Bairro Alto. Uma alemã. Um alemão. Ela, conheci-a na Grécia, ele, é o namorado. Cumpro a minha tarefa de anfitrião. Surpreendi-me quando lhes sugeri uma tasca de Fado, pois a resposta foi qualquer coisa como “What’s that?”. Talvez existisse uma pequena desarticulação de sotaque, mas não, eles desconheciam o que era o Fado. Insisti, mencionando que, quem vem a Portugal tem de ouvir Fado, é a nossa alma, a nossa cultura. É inevitável. Convenci-os. Sempre me questionei, como é que os estrangeiros gostam de Fado? Existe uma integração inequívoca da letra e da melodia. Mas gostar é diferente de compreender e de assimilar. Contei os minutos até surgir a questão, “What’s the lyrics?”. Não sendo a primeira vez que me defrontei com tal desafio, já sabia que a cantiga não passaria por traduzir a letra mas explicar a história. Eles simpatizaram, pois pediram-me continuamente para os elucidar A minha relação com o Fado sempre foi-me, no mínimo, estranha. Só gosto de Fado ao vivo. Adoro, e penso sempre que é desta. É desta que vou começar a ouvir Fado. Mas não. Nunca foi desta.
Atravessei as construções pombalinas e pós-pombalinas da encosta da Sé, indiferente ao recorte das suas casas nobres,  e trepei. Trepei mais. Fui recebido pelas construções pré-pombalinas dos bairros do Castelo. Deambulava, pelas ruas estreitas, mantendo o olhar direccionado para baixo, espionando as armadilhas que as pedras me guardavam. Subitamente, uma janela aberta declara-me uma canção, declara-me um Fado. Inesperadamente tolhei. Era um Fado gravado a que eu me afeiçoei. Apreciei a fotografia. O ponto de fuga lá à frente, onde o vértice de uma parede combinava com uma pedra da rua. As escadinhas a anunciar o mistério de uma outra viela. Um postigo a abraçar um gato mais afável. Os sons do bairro. O azul do céu queimado pelo laranja do pôr-do-sol. Deixei-me impregnar pelo cenário. Deixei-me.
A origem do Fado não é consensual. Desde a teoria de que naufragou em Portugal por marinheiros vindos do Brasil, no século XIX, influenciados pela música de escravos, Lundum, até à teoria de que derivou das canções melancólicas dos mouros que permanecerem na cidade após a sua expulsão pelos cristãos. Em qualquer dos dois casos, é explicável a sua dor, a sua mágoa, a sua tristeza. O Fado não escapa ao fado, ou de se fundar na saudade e amargura daqueles que fugiam, como o sol foge, para lá da embocadura do Tejo, ou de se apoiar na lembrança e na aflição daqueles que viram os seus expulsos, renegados, predados. Independentemente da sua origem, interessa-me o que é o Fado, no que se tornou?
Consta que, inicialmente começou por se manifestar de forma mais espontânea, alimentando-se nas histórias do quotidiano e temas populares. Seja como for, o Fado revela as marcas das múltiplas culturas e civilizações que nutriram Lisboa. Considerando que foi nos bairros da colina do Castelo que o Fado se popularizou, é compreensível que os mesmos becos e vielas que inspiraram os seus iniciadores, continuem, ainda hoje, a inspirar quem se lhes cruza. O Fado evoluiu certamente fecundado desta essência a que chamamos alma lusitana. É essa alma que preciso de encontrar quando ouço o Fado. Sem ela o Fado nada me diz, nada me conta. É um cenário, da colina, que me faz empreender por essa jornada. É um Fado tosco, numa tasca tosca, que me impele a consumi-lo. Da mesma forma que muitas vezes não entendo o significado de umas palavras ao telefone, porque não fito a postura do emissor, também no Fado, preciso de testemunhar o fadista, sentir-lhe a tensão, sentir-lhe o propósito. Sentir as cordas da guitarra a reverberarem pelo espaço, escutar aquele silêncio consagrador da plateia. Sentir-lhe o gáudio em sôfrego e o sofrimento em exultação, tudo isto é triste, tudo isto é Fado! Se o Fado nasceu da espontaneidade, então é ela mesma que carece de tomar presença, e de que necessito testemunhar. Só no seu acto e no nosso encontro o compreendo. Tal como ele, sou português.

sábado, 11 de junho de 2011

A(s) ideia(s)

Um dia parei, sentei-me e apeteceu-me escrever. O meu braço tornou-se a extensão das minhas concepções, a minha mão a sua definição, e uma caneta qualquer deslizava sobre uma folha de papel que hoje não sei onde está. Desde esse dia, já perdi tantas folhas de papel quantas aquelas que guardo soltas. Por isso, hoje, deixei a caneta tranquilamente pousada sobre a secretária. A noite está amena, guardo o quarto com os estores das duas janelas abertos pelas gretas, deixando a aragem acariciar-me o tacto. Ajeitei a cama, peguei no portátil, sentei-me à cabeceira, estendi as penas e coloquei o portátil sobre as coxas. Vou construir um blogue!
A ideia do que quero está assente. Esboço uma visualização da estrutura e estética do blogue, mas esbarro na primeira questão do blogger: inserir o endereço? As regras definem-se ao início. E, assim o dono do jogo quer me lembrar que nem sempre na vida as coisas terminam na forma das suas ideias iniciais. A minha primeira escolha já não está disponível. Faço uma segunda tentativa. Novamente, não está disponível. Convenço-me que blogues há muitos, e que a questão do endereço vai dar luta. Inspiro fundo, desafiando a frescura da aragem a sentir-me pelo interior, aligeirando-me a leve irritação. Consequentemente experimento o calor do portátil a manifestar-se sobre as coxas, levando-me a procurar uma posição mais confortável.
Viro e reviro os olhos à procura de novas ideias. Não sei exactamente quantas olhos já revirei, já nem sei mesmo para onde estão virados. E quantas vezes passei as mãos pela cabeça? Talvez seja melhor abrir um separador novo e começar a digitar endereços até "encontrar o meu". A noite está adormecida e o silêncio impõe-se. Afasto o portátil das coxas, pouso-o sobre a cama, levanto-me, puxo o cabo das colunas e conecto-o. Filtro as músicas por jazz e blues e deixo-as correr aleatoriamente. Demoro uns minutos a voltar a concentrar-me no blogue, ou melhor, nos outros blogues! Avalio as semelhanças e dissemelhanças dos blogues que têm  o “meu endereço”, ao meu próprio. Estou surpreendido! Não me quero identificar com os blogues que acabei de visitar! Já não quero os “meus endereços”! Mas no fundo será que existe alguma relação com os endereços dos blogues e as pessoas? Deve existir, pelo menos um elo mínimo. Em quanto me posso rever nesses blogues? O quanto me posso julgar e chocar a mim próprio? Confesso que, não quero saber esta resposta, mas deixo-vos este desafio: digitem os endereços de blogues que vocês gostavam de dar ao vosso blogue, e vejam o quanto encontram de vós próprios e o quanto não querem sequer imaginar que é mesmo vosso! No mínimo é engraçado……
Acabei também por descobrir que a maioria dos blogues acabam abandonados, esquecidos, temporariamente ou mesmo permanentemente. Certamente não colocarei mensagens todos os dias, nem provavelmente semanalmente. Gostaria de colocar uma mensagem semanalmente, mas já sei que não vou ter tempo, paciência ou mesmo imaginação. Quando é que me vou fartar disto? Não sei.  Também não quero saturar a audiência. Vou tentar escrever poucas mensagens, mas mensagens que vos dêem prazer a acompanhar, proporcionando-vos uma leitura agradável. Será um espaço onde exercerei a minha opinião, a minha visão, a minha leitura. Não será para acompanharem o que faço e onde estou.
Se isto vai resultar? Volto a repetir: nem sempre na vida as coisas terminam na forma das suas ideias iniciais.

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