quinta-feira, 23 de agosto de 2012

A Identidade e, Abraço

Lido, numa tarde. Conhecem a rubrica do canal Euronews "No Comment"?

Sinopse de A Identidade, de Milam Kundera (Edições Dom Quixote):

"Chantal e Jean-Marc vivem juntos em Paris, e amam-se tanto que por vezes parecem confundir-se. Há situações em que, por um instante, nenhum dos dois se reconhece, em que a identidade do outro se dissolve e em que, por tabela, cada um duvida da sua própria identidade.
Todo aquele que ama, todo aquele que faz parte de um casal, já alguma vez experimentou essa sensação, porque o que mais teme no mundo quem ama é «perder de vista» o ser amado. Pouco a pouco, é isso que acontece a Chantal e Jean-Marc. Mas em que instante, diante de que gesto, em que circunstância precisa começa esse processo aterrador? É nesse momento de pânico que Kundera agarra o leitor, obrigado a mergulhar no labirinto que o próprio casal percorre e a cruzar, como ele, a fronteira entre o real e o irreal,entre o que ocorre no mundo exterior e o que, solitariamente, elabora uma mente dominada pela insegurança."


Relativamente a Abraço, de José Luís Peixoto: voltei-me a assustar.

Sinopse, de Abraço (Ediçoes Quetzal Editores):

"Abraço apresenta uma selecção de textos escritos por José Luís Peixoto ao longo dos últimos 10 anos.

A infância, o Alentejo, o amor, a escrita, a leitura, as viagens, as tatuagens, a vida. Através de uma imensa diversidade de temas e registos, José Luís Peixoto escreve sobre si próprio com invulgar desassombro. Esse intimismo, rente à pele, nunca se esquece do leitor, abraçando-o, levando-o por um caminho que passa pela ternura mais pungente, pelo sorriso franco e por aquela sabedoria que se alcança com o tempo e a reflexão. Este é um livro de milagre e de lucidez. Para muitos, a confirmação. Para outros, o acesso ao mundo de um dos autores portugueses mais marcantes das últimas décadas."

sábado, 4 de agosto de 2012

Aqui é Ramadão

Hoje, quando vinha do trabalho para casa, o silêncio impôs-se-me. Lembrei-me de uma folha de papel que tenho dentro da gaveta da minha secretária. Está guardada para vocês. Ainda está dentro da gaveta. Como estava a dizer, eu regressava do trabalho. Poucos minutos passavam das duas da tarde. Sim, das duas. Atravessámos a corniche ao longo da baía como fazemos todos os dias. Doha tem uma baía que, faz de Doha, suponho, uma cidade com uma baía. Estava maré alta e notei também na cor do mar, uma cor que já conhecem. A partir do lado da baía de onde partimos, distinguimos no lado oposto os edifícios altos do business district. É aqui que eu moro. Depois, depois é deixar-mo-nos percorrer pela corniche. Passamos pelo Museu de arte islâmica que está do lado do mar, e que vocês também já conhecem. Quando já nos encontramos a meio da corniche, se olharmos para o mar, ficamos com um retrato do mar e do céu de Doha, a que eu chamo de maréu.
Aqui, normalmente o céu e o mar confundem-se. Há dias em que não sabemos onde termina o mar e onde começa o céu e, outros dias, não sabemos onde começa o mar e onde termina o céu. Doha é uma cidade constantemente assombrada por uma névoa, o maréu, que nos esconde a esperança do azul do céu e a paixão do som do mar. Poucos são os dias azuis, límpidos, transparentes, definidos. Não se esqueçam da folha de papel que tenho dentro da gaveta para vocês. Depois de passarmos o meio da corniche passamos pela mascote dos Jogos Asiáticos de 2006 que recorda-me sempre e sempre o Gil da Expo 98. Se a isto tudo juntarmos o desfile de algumas palmeiras ente nós e o mar, ou melhor, entre nós e o maréu, e os edifícios altos mesmo altos, chegamos a casa.

Hoje eu tinha fome. Muita. Apetecia-me comer assim que chegasse a casa. Quando chegámos estavam cá as senhoras da limpeza. Eu tinha muita fome e já tinha o almoço preparado desde ontem porque já sabia que ia chegar com muita fome. É Ramadão. Por isso é que eu sai às duas da tarde. No Ramadão só trabalhamos das oito da manhã às duas da tarde, num total de seis horas. Durante o Ramadão os muçulmanos não podem comer entre o nascer do sol e o pôr-do-sol. Nós também não. Não podemos comer, nem beber, nem sequer mastigar pastilha elástica em locais públicos. Só às escondidas. Felizmente a minha empresa tem este horário em que saímos mais cedo e, assim, podemos almoçar em casa às duas e meia da tarde. A minha empresa também disponibiliza uma pequena sala, onde podemos comer um reforço e beber qualquer coisa ao longo da manhã.
Como eu estava a dizer, eu tinha chegado a casa e fui comer. As empregadas de limpeza são do Nepal e não se importaram que eu comesse. Eu perguntei. Comi feijão frade. Mas continuei sempre a pensar naquela folha de papel que tenho aqui ao pé de mim mas que ainda não tirei de dentro da gaveta da minha secretária. Comi com o mesmo silêncio que se me impôs no caminho para casa e que me fez lembrar a folha de papel de que já vos falei. Quando acabei de comer apetecia-me pensar. Por isso pensei em ir lá abaixo fumar um cigarro. Fumar um cigarro é bom para pensar. Dá-nos uma desculpa para podermos pensar sem precisarmos de dizer que vamos pensar. Se eu disser que vou lá abaixo fumar um cigarro não é nada de estranho. Depois de estar a fumar posso pensar. Mas se disser que vou lá abaixo pensar, talvez, já vos pareça um bocado estranho. Por isso, apesar de saberem que eu não fumo eu digo que vou lá abaixo fumar. Qualquer dia compro um cigarro artificial só para segurar entre os meus dedos e para as pessoas pensarem que estou mesmo a fumar. Assim, já poderei pensar à vontade sem pensarem que sou uma pessoa estranha. Mas esbarrei num problema: é Ramadão e, durante o Ramadão também não se pode fumar na rua. Sim, também não se pode fumar. Decidi não deixar de lá ir abaixo. No restaurante do nosso edifício encontrei dois portugueses a almoçar. O restaurante tem uma licença especial que lhe permite servir refeições ao almoço durante o Ramadão. A grande maioria dos restaurantes estão fechados até ao pôr-do-sol. Sentei-me junto deles e fiquei a olhar para a televisão onde passavam os Jogos Olímpicos. Eu fingi que estava a ver os Jogos Olímpicos; mas estava a pensar. Eu estava a pensar que tenho uma folha de papel dentro da gaveta do meu quarto que escrevi para vocês.

Quando voltei para casa as senhoras da limpeza já cá não estavam. A minha cama estava feita de lavado. Depois, depois vem sempre e sempre aquele momento em que pensamos que só vamos descansar um bocadinho em cima da cama. Quase quase sempre, acabo a dormir a sesta. Digo sempre que não, que não pode ser porque logo à noite custar-me-à a adormecer, mas acabo sempre e sempre a dormir a sesta. E tu? Eu devo ter sonhado com uma folha de papel. Uma folha de papel que tenho dentro da gaveta da minha secretária porque, quando acordei, reflecti sobre essa folha de papel. Liguei o computador e comecei a escrever. Agora já são dezanove horas e os muçulmanos devem estar a quebrar o jejum, o Iftar. A quebra do jejum é às seis e meia da tarde. É fácil de saber quando são seis e meia da tarde porque ouve-se um chamamento em todas as colunas de som das mesquitas. Também, nos edifícios, ouve-se o chamamento no sistema de música ambiente. Após o repasto do Iftar eles realizam a primeira reza da noite que dura cerca de quinze minutos. Esta reza também tem um nome mas eu não consegui perceber. Lá na empresa, um muçulmano, de Omã, explicou-nos o que é o Ramadão, é por isso que eu sei. O Ramadão é o mês inérico do Islão, uma época de bondade, em que os muçulmanos devem ajudar os pobres e devem fazer boas acções. Prolonga-se durante trinta dias e, simbolicamente, é o mês em que o Corão, a palavra de Alá, foi revelado ao profeta Maomé.
O Muçulmano que nos explicou sobre o Ramadão era muito simpático, mas eu não percebia o nome que ele dava às coisas em árabe. Aprendi que o Ramadão está dividido em três fases: na primeira fase, os primeiros dez dias, os muçulmanos esperam pela misericórdia de Alá; na segunda fase, os segundos dez dias, os muçulmanos pedem o perdão a Alá; nos últimos dez dias, a terceira fase, eles pedem a Alá para os eximirem do inferno. O muçulmano de Omã, que era muito simpático, disse que, seguido ao Iftar e à primeira reza, é ocasião para confraternizar com a família e para voltar a comer, antecedendo a reza mais importante que é a das nove às dez da noite. É nesta reza, e que também tem um nome especifico que eu não compreendi, que eles fazem aquilo, aquilo que eu chamo de vinte Alás, porque também não percebi o nome que daquilo: quando estão a rezar em joelhos sobem e baixam os braços. O muçulmano de Omã, fez um exemplo. Talvez, eu não percebesse o nome das coisas em árabe que ele nos ensinou, apenas por não entender árabe, ou talvez, porque de vez em quando eu deixava de ouvir o muçulmano muito simpático e ficava a olhar pela janela, num lugar que nem eu próprio conheço muito bem. Mas lembro-me que, após terminada a reza muito importante dos vinte Alás, às vinte e duas horas, é ocasião de ir visitar os pobres e de ajudá-los, entregando-lhes comida, oferecendo eletrodomésticos ou, qualquer outra coisa que os pobres necessitem, prolongando-se esta accção até à meia-noite, hora da próxima reza. Pelo que eu percebi esta é a última reza da noite. Enquanto o árabe de Omã falava eu não tinha nenhuma folha de papel comigo. Depois da reza da meia-noite há uma outra fase, que eu também não sei o nome, porque não percebi o árabe que o muçulmano muito simpático de Omã dizia. Esta última fase de convívio é quando eles devem estreitar os laços com a família e devem ler quatro páginas do Corão por cada dia: o objectivo é que até ao fim do Ramadão leiam por completo o Corão, em família. Para terminar, o Suhur, é a última refeição antes do jejum. Nesta refeição eles comem bastante para aguentarem o dia de jejum. O muçulmano de Omã disse que eles evitam comidas com sal e açucares prevenindo terem sede durante o dia. Pelo que percebi, é depois desta refeição que eles se deitam, por volta das três e meia da manhã. Por isso é normal, durante o dia, os muçulmanos andarem com muito sono. Também é normal estarem de temperamento mais irritadiço. Ainda me lembro de outras coisas que se devem respeitar durante o Ramadão: não se pode fazer sexo durante o dia, não devem ser pronunciadas palavras obscenas e a petulância não deverá ser tolerada. Respondendo à vossa pergunta, à noite já podem ter relações. É suposto ser uma época de paz e tranquilidade. As crianças e os idosos, ou pessoas debilitadas, não são obrigadas a fazer o Ramadão. Às crianças, o Ramadão pode ser introduzido de forma gradual, atingindo a sua plenitude após a puberdade. Em jeito de desabafo, o Project Manager do meu projecto, que é muçulmano, confessou-me que o Ramadão é uma desculpa para que os muçulmanos cometam todos os pecados e mais alguns, ao longo dos restantes dias do calendário, uma vez que, serão absolvidos de todos os pecados e compensados pelas boas acções realizadas nesta época, a panaceia do mundo Islâmico. Quando o muçulmano muito simpático de Omã terminou, eu voltei à minha secretária e, com a minha mão direita agarrei uma caneta enquanto que, com a minha mão esquerda puxei o meu bloco de notas. Escrevi qualquer coisa e arranquei a folha. Trouxe-a para casa e guardei-a. Agora, agora acabei de abrir a gaveta da minha secretária. Lá de dentro tirei uma folha de papel. Vou lê-la.                                                                            Acabei agora de a ler. Nesta folha, tenho os apontamentos sobre o Ramadão que foram descritos pelo muçulmano muito simpático de Omã. Na folha está escrito quase tudo o que acabei de escrever. Esqueci-me de algumas coisas, que vou acrescentar.                                                                                 Já está. Eu hoje pensei muito de como vos ia descrever o que tinha apontado numa folha de papel. É muito difícil de vos escrever os meus apontamentos num texto de blogue. Eu vou ler outra vez o que escrevi.                                  Já li. Agora, agora acho que vou lá abaixo fumar um cigarro e, depois de fumar, talvez, volte para corrigir qualquer coisa do que vos escrevi.

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