sábado, 18 de junho de 2011

Silêncio, que se vai cantar o Fado

Um jantar. Uma tasca de Fado no Bairro Alto. Uma alemã. Um alemão. Ela, conheci-a na Grécia, ele, é o namorado. Cumpro a minha tarefa de anfitrião. Surpreendi-me quando lhes sugeri uma tasca de Fado, pois a resposta foi qualquer coisa como “What’s that?”. Talvez existisse uma pequena desarticulação de sotaque, mas não, eles desconheciam o que era o Fado. Insisti, mencionando que, quem vem a Portugal tem de ouvir Fado, é a nossa alma, a nossa cultura. É inevitável. Convenci-os. Sempre me questionei, como é que os estrangeiros gostam de Fado? Existe uma integração inequívoca da letra e da melodia. Mas gostar é diferente de compreender e de assimilar. Contei os minutos até surgir a questão, “What’s the lyrics?”. Não sendo a primeira vez que me defrontei com tal desafio, já sabia que a cantiga não passaria por traduzir a letra mas explicar a história. Eles simpatizaram, pois pediram-me continuamente para os elucidar A minha relação com o Fado sempre foi-me, no mínimo, estranha. Só gosto de Fado ao vivo. Adoro, e penso sempre que é desta. É desta que vou começar a ouvir Fado. Mas não. Nunca foi desta.
Atravessei as construções pombalinas e pós-pombalinas da encosta da Sé, indiferente ao recorte das suas casas nobres,  e trepei. Trepei mais. Fui recebido pelas construções pré-pombalinas dos bairros do Castelo. Deambulava, pelas ruas estreitas, mantendo o olhar direccionado para baixo, espionando as armadilhas que as pedras me guardavam. Subitamente, uma janela aberta declara-me uma canção, declara-me um Fado. Inesperadamente tolhei. Era um Fado gravado a que eu me afeiçoei. Apreciei a fotografia. O ponto de fuga lá à frente, onde o vértice de uma parede combinava com uma pedra da rua. As escadinhas a anunciar o mistério de uma outra viela. Um postigo a abraçar um gato mais afável. Os sons do bairro. O azul do céu queimado pelo laranja do pôr-do-sol. Deixei-me impregnar pelo cenário. Deixei-me.
A origem do Fado não é consensual. Desde a teoria de que naufragou em Portugal por marinheiros vindos do Brasil, no século XIX, influenciados pela música de escravos, Lundum, até à teoria de que derivou das canções melancólicas dos mouros que permanecerem na cidade após a sua expulsão pelos cristãos. Em qualquer dos dois casos, é explicável a sua dor, a sua mágoa, a sua tristeza. O Fado não escapa ao fado, ou de se fundar na saudade e amargura daqueles que fugiam, como o sol foge, para lá da embocadura do Tejo, ou de se apoiar na lembrança e na aflição daqueles que viram os seus expulsos, renegados, predados. Independentemente da sua origem, interessa-me o que é o Fado, no que se tornou?
Consta que, inicialmente começou por se manifestar de forma mais espontânea, alimentando-se nas histórias do quotidiano e temas populares. Seja como for, o Fado revela as marcas das múltiplas culturas e civilizações que nutriram Lisboa. Considerando que foi nos bairros da colina do Castelo que o Fado se popularizou, é compreensível que os mesmos becos e vielas que inspiraram os seus iniciadores, continuem, ainda hoje, a inspirar quem se lhes cruza. O Fado evoluiu certamente fecundado desta essência a que chamamos alma lusitana. É essa alma que preciso de encontrar quando ouço o Fado. Sem ela o Fado nada me diz, nada me conta. É um cenário, da colina, que me faz empreender por essa jornada. É um Fado tosco, numa tasca tosca, que me impele a consumi-lo. Da mesma forma que muitas vezes não entendo o significado de umas palavras ao telefone, porque não fito a postura do emissor, também no Fado, preciso de testemunhar o fadista, sentir-lhe a tensão, sentir-lhe o propósito. Sentir as cordas da guitarra a reverberarem pelo espaço, escutar aquele silêncio consagrador da plateia. Sentir-lhe o gáudio em sôfrego e o sofrimento em exultação, tudo isto é triste, tudo isto é Fado! Se o Fado nasceu da espontaneidade, então é ela mesma que carece de tomar presença, e de que necessito testemunhar. Só no seu acto e no nosso encontro o compreendo. Tal como ele, sou português.

sábado, 11 de junho de 2011

A(s) ideia(s)

Um dia parei, sentei-me e apeteceu-me escrever. O meu braço tornou-se a extensão das minhas concepções, a minha mão a sua definição, e uma caneta qualquer deslizava sobre uma folha de papel que hoje não sei onde está. Desde esse dia, já perdi tantas folhas de papel quantas aquelas que guardo soltas. Por isso, hoje, deixei a caneta tranquilamente pousada sobre a secretária. A noite está amena, guardo o quarto com os estores das duas janelas abertos pelas gretas, deixando a aragem acariciar-me o tacto. Ajeitei a cama, peguei no portátil, sentei-me à cabeceira, estendi as penas e coloquei o portátil sobre as coxas. Vou construir um blogue!
A ideia do que quero está assente. Esboço uma visualização da estrutura e estética do blogue, mas esbarro na primeira questão do blogger: inserir o endereço? As regras definem-se ao início. E, assim o dono do jogo quer me lembrar que nem sempre na vida as coisas terminam na forma das suas ideias iniciais. A minha primeira escolha já não está disponível. Faço uma segunda tentativa. Novamente, não está disponível. Convenço-me que blogues há muitos, e que a questão do endereço vai dar luta. Inspiro fundo, desafiando a frescura da aragem a sentir-me pelo interior, aligeirando-me a leve irritação. Consequentemente experimento o calor do portátil a manifestar-se sobre as coxas, levando-me a procurar uma posição mais confortável.
Viro e reviro os olhos à procura de novas ideias. Não sei exactamente quantas olhos já revirei, já nem sei mesmo para onde estão virados. E quantas vezes passei as mãos pela cabeça? Talvez seja melhor abrir um separador novo e começar a digitar endereços até "encontrar o meu". A noite está adormecida e o silêncio impõe-se. Afasto o portátil das coxas, pouso-o sobre a cama, levanto-me, puxo o cabo das colunas e conecto-o. Filtro as músicas por jazz e blues e deixo-as correr aleatoriamente. Demoro uns minutos a voltar a concentrar-me no blogue, ou melhor, nos outros blogues! Avalio as semelhanças e dissemelhanças dos blogues que têm  o “meu endereço”, ao meu próprio. Estou surpreendido! Não me quero identificar com os blogues que acabei de visitar! Já não quero os “meus endereços”! Mas no fundo será que existe alguma relação com os endereços dos blogues e as pessoas? Deve existir, pelo menos um elo mínimo. Em quanto me posso rever nesses blogues? O quanto me posso julgar e chocar a mim próprio? Confesso que, não quero saber esta resposta, mas deixo-vos este desafio: digitem os endereços de blogues que vocês gostavam de dar ao vosso blogue, e vejam o quanto encontram de vós próprios e o quanto não querem sequer imaginar que é mesmo vosso! No mínimo é engraçado……
Acabei também por descobrir que a maioria dos blogues acabam abandonados, esquecidos, temporariamente ou mesmo permanentemente. Certamente não colocarei mensagens todos os dias, nem provavelmente semanalmente. Gostaria de colocar uma mensagem semanalmente, mas já sei que não vou ter tempo, paciência ou mesmo imaginação. Quando é que me vou fartar disto? Não sei.  Também não quero saturar a audiência. Vou tentar escrever poucas mensagens, mas mensagens que vos dêem prazer a acompanhar, proporcionando-vos uma leitura agradável. Será um espaço onde exercerei a minha opinião, a minha visão, a minha leitura. Não será para acompanharem o que faço e onde estou.
Se isto vai resultar? Volto a repetir: nem sempre na vida as coisas terminam na forma das suas ideias iniciais.

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O Espaço, o Tempo e o Silêncio

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