quinta-feira, 19 de setembro de 2013

O fim do Mundo

A noite traía-o. Trazia-lhe os pesadelos, a dúvida, o peso de tudo o que era de dia. Interrogava-se, mas tentava sempre fechar os olhos e dormir. Há uma semana que estavam acantonados perto de uma aldeia montanhosa e solitária à qual tinham de prestar auxílio humanitário e protecção, tudo o que pudesse salvar aquelas pessoas da miséria de uma existência invisível e indizível. A aldeia tinha sido ocupada como refúgio passageiro de um bando de criminosos, foras da lei, cuja única recordação era a truculenta violação das mulheres adultas e adolescentes, o espancamento dos homens, e o furto das colheitas de subsistência. Quando eles chegaram equipados dos pés à cabeça, como extra-terrestres, os aldeões olharam desconfiados e alquebrados para aquela nova coluna de forasteiros que eles não sabiam o que lhes haviam de roubar agora. A desconfiança dissipou-se com a passagem dos dias após os apoios, médico e alimentar, prestados. Ninguém na aldeia falava outra língua senão o dialecto local e ninguém daquele contingente falava aquele dialecto. Comunicavam por gestos mas guiavam-se pelas palavras do olhar, que, em qualquer lugar não tem nada mais que um só dialecto. Ele, olhava para as tisicas crianças famintas, sujas, e temia perder as forças. Por vezes, algumas corriam atrás dele, agarrando-lhe pelas calças, gritando "Choc! Choc!", tal como aprenderam, suplicando assim por mais uma daquelas barras de chocolate que lhes davam, e que até há chegada destes forasteiros jamais imaginavam. E quando estava de turno a servir refeições? A dor de ver aquelas figuras de trapilhos a estender a mão para receber como se recebessem da mão de Deus. Não que se sentisse Deus, longe disso, mas sim o tormento das suas interrogações. Que lugar seria aquele, para que, quem ali nascesse não tivesse outro destino senão aquele mesmo? E, como, num lugar onde nada existe se pode semear todas as humanas ignomínias, como ódio, a indolência, a vingança, a ganância, e todas as torpes do ser humano?
http://feedanza.deviantart.com/art/Desert-mountains-348100480
Mas ainda haviam os turnos de reconhecimento e ronda do local. Era então que subiam mais e mais aquelas montanhas rochosas, de paisagem inóspita, árida e áspera. Quando subia as inertes montanhas, era quando ele pensava que estava no fim do mundo. Lá em cima deixava-se ficar no cume e olhava, voltando a pensar que só podia estar no fim do mundo. O que mais se pode chamar a um lugar onde nada existe senão o nada? Nada mais que apenas as formas da natureza nua, desprovida de qualquer cheiro de esperança e de vida? Que lugar é este onde nem sequer uma flor quer crescer, onde nem sequer uma gota o quer regar, onde nem sequer o som quer ouvir-se? Ficava assim absorto a olhar para o deserto árido das montanhas asiáticas onde só o o sofrimento das pessoas na aldeia o relembrava que não estava noutro planeta.
Mas era a noite que mais lhe custava. Perscrutava o céu das noites de lua nova onde o azul-noite era um azul-puro e onde as estrelas eram mais estrelas. Afinal, ele estava no fim do mundo e no fim do mundo só se pode estar mais perto das estrelas. Depois era a estranha ausência do som, que, estando ele mais perto das estrelas era como se estivesse mais perto da tranquilidade do espaço celeste. E, por fim, depois de não haver nada mais para além dele mesmo na imensidão do espaço celeste, era a estranha sensação de nunca ter estado tão dentro dele mesmo, não fosse o fim do mundo o lugar onde o interior toca o exterior, tal como o céu toca as estrelas.
Era assim que a noite o traía, trazendo-lhe os pesadelos, a dúvida, o peso de tudo o que era de dia. Interrogava-se, como num lugar onde nada existe se pode semear todas as humanas ignomínias, e se pode encontrar todas as torpes do ser humano? E, depois, quando finalmente tentava fechar os olhos e dormir, lembrava-se que tudo será possível existir onde o ser humano chegar, mesmo até, no fim do mundo. 

terça-feira, 17 de setembro de 2013

Desafio - Bibliotecas

Decidi responder a um pequeno desafio lançado por um blogue que vou acompanhando. O desafio é escrever qualquer coisa sobre a biblioteca que costumamos frequentar. Em baixo apresento-vos o pequeno texto que escrevi. Quem quiser pode participar livremente no desafio!

"Não me lembro da primeira vez que entrei na biblioteca da minha cidade. Não sei se ainda era pequeno pequenino e andava na Escola Primária, ou se, já só era pequeno pequeno e andava no Escola Preparatória. Era num edifício velhinho e o velho soalho de madeira rangia rangia. Lá dentro, eu gostava do cheiro que, mais tarde, vim a descobrir que é o cheiro dos livros antigos, velhos, mas bons bons. Eu e os meus amigos consultávamos livros para fazermos os trabalhos da escola. Quando os textos eram longos tirávamos fotocópias e, quando eram curtos, copiávamos para o caderno. Lembro-me de levarmos cartolinas onde colávamos as fotografias recortadas das revistas ou jornais e escrevíamos com lápis de cor ou canetas de feltro. Quando já éramos mais crescidos crescidos transcrevíamos as fotocópias ao computador. Mais tarde, já eu grande mas não crescido, foi construída a nova Biblioteca Municipal Laureano Santos. A primeira vez que nela entrei estranhei o piso regular e senti nostalgia pelo rústico som do soalho antigo. O cheiro dos livros ainda não impregnara o edifício e, por isso, saí um pouco desiludido. Quando voltei, convenci-me que esta seria a minha nova biblioteca. E aluguei o meu primeiro livro. Mas não sei qual!”

Para ver o texto publicado com fotos:

http://as-leituras-da-fernanda.blogspot.pt/2013/09/bibliotecas-de-portugal-biblioteca_13.html

Para participar no desafio:

http://as-leituras-da-fernanda.blogspot.pt/2013/07/desafio-bibliotecas-de-portugal.html

quinta-feira, 5 de setembro de 2013

O que eu tenho para te dizer

Com o fim das férias, Setembro. Para trás as manhãs manhãs e os fins de tarde na praia. O sossego das praias longe da cidade, dos prédios, de toda a confusão da qual queríamos fugir. Na tranquilidade da areia branca e fina a leve brisa do vento afastava-me de qualquer lugar, mesmo dali. Nesse torpor das palavras silenciosas da natureza adormecia. De manhã acordavas-me quando o sol já era forte e íamos para o apartamento almoçar. Depois adormecias e sentava-me a ler uma revista ou, simplesmente, a pensar em qualquer coisa. Por vezes, quando era preciso, ia ao supermercado. Não tínhamos televisão, ainda bem. Líamos o jornal para saber as notícias, chegava. Nas férias preciso de fugir de tudo, mesmo de tudo, incluindo todas as coisas que só me fazem perder tempo. Enquanto dormias a sesta pensava em como deveria dizer-te o que tanto preciso contar-te, se, até, deveria contar-te nestas férias ou só depois? Mas quando acordavas ligavas logo o portátil e consultavas o e-mail da empresa. E ficavas ali um tempo a responder. E eu. Já não dizia o que te queria dizer. Voltávamos para a praia quando o sol já não era forte, quando a temperatura era agradável, morna. Este verão a temperatura da água estava maravilhosa. Nadámos muito. Um ou outro dia convidámos alguns amigos para vir ter connosco, outras vezes, fomos ter com eles. Em todas as viagens de carro telefonaram-te da empresa. Atendias com o telemóvel ligado ao sistema de som do carro e eu ficava, assim, a ouvir todas as coisas que não percebo e que tu fazes no teu emprego. Talvez um dia venha a perceber alguma coisa. Nos fins de tarde, antes de irmos para casa, passávamos por um café ou um bar qualquer à beira da praia, e ficávamos ali sentados a ver o pôr-do-sol, tu, sempre com um cocktail, eu, sempre com um sumo fresco daqueles tipo tropical. Nos primeiros dias ligavas-te à internet através do telemóvel usando o plafond da empresa mas rapidamente gastaste o tráfego a que tens direito. Nos dias seguintes, sem saberes, eu tentava sempre levar-te para um bar sem wi-fi, porque quanto te ligavas à internet possuía-te uma obsessão e não me ligavas nenhuma. Não conversávamos e pouco nos olhávamos, tu, sempre com a cabeça inclinada para baixo como se as férias não se passassem ali. Ainda te enganei nos primeiros dias mas depois começaste a seleccionar os bares com wi-fi. Cedi para não me zangar. Não haveria problema se falássemos, mas tu nunca falavas.
A seguir ao pôr-do-sol íamos para casa, tomávamos banho, e saíamos para jantar fora. Eu procurava um restaurante acessível, de bom gosto, e se possível, discreto, sem a confusão dos dias de férias de Agosto. Tu só perguntavas se tinha wi-fi? Quando o restaurante me interessava tapava os ouvidos e entrava lá para dentro para marcar mesa, sem querer saber a tua opinião. Sem internet, lá conversávamos um bocadinho. Não interessava a conversa. Depois do jantar passeávamos pela marginal, pelos vendedores ambulantes, até nos voltarmos a sentar num bar qualquer para beber um copo, comer um gelado, descansar as pernas. Até teres descoberto aquele bar com wi-fi. Paravas sempre ali, porque eu vinha sempre um pouco mais atrás, na distracção de todas as coisas da venda ambulante. No bar, ligavas-te outra vez à internet, e eu, olhava. Não para ti. Para todos os outros que pareciam estar ali, tal como tu, só para uma coisa. Cabeças baixas a espreitar para os pequenos visores de onde, em quase todos, irradiava uma luz branca e azul, provavelmente o Facebook, como uma praga de pirilampos. Às vezes queixavas-te que não estavas a conseguir ligar-te à net, que deveria ser de todas aquelas pessoas estarem ligadas e enfraquecerem o sinal. Ainda bem! Todos os bares e restaurantes com wi-fi estavam cheios cheios. Deixavas-me no lugar da solidão e foi assim, nesse lugar, onde reencontrei guardada num cantinho da memória, a lembrança daquelas caravanas de telefones fixos que, quando éramos crianças, eram colocadas nas cidades do Algarve para telefonarmos para casa. Lembrei-me das filas que havia para entrar nessas caravanas, só para dar uma simples notícia à família, só para saberem que estava tudo bem. E, depois, era fácil voltar às férias. Uma vez por outra o meu pai passava-me o auscultador para falar com o avó, a avó, avisando-me um tempinho depois para me despachar que a chamada era cara. E, enquanto tu fazias companhia ao Facebook, lembrei-me também do primeiro telemóvel do meu pai que, numa dessas férias, usámos pela primeira vez para telefonar para os avós. Nesse ano ainda havia filas nas caravanas dos telefones, mas no ano a seguir já não e, no outro ano, jamais vi as caravanas. Bem que estar num café ou bar contigo é quase a mesma coisa que estarmos dentro duma dessas caravanas. As férias foram passando e nem tive tempo de te dizer o que ando há algum tempo para te dizer. Pensava que nas férias seria fácil, mais fácil, que iríamos ter tempo para falar mais, mas, principalmente, para falar melhor, ou seja, ouvirmo-nos melhor. Mas talvez tenha sido melhor assim, porque, acabámos as férias e eu não te disse o que tenho para te dizer: ainda te amo muito mas estou apaixonar-me por outra mulher.

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