sexta-feira, 30 de março de 2012

A mulher cor de arco-íris

Apresento-me com os cotovelos apoiados no parapeito da janela aberta. De vez em quando levo o cigarro à boca. Lá fora uma mulher vestida de arco-íris. Ela dança.  Ela dança como uma serpente dançarina. Mas enquanto uma serpente dançarina dança enfeitiçada pelo som de uma flauta mágica, a dança, a dança da mulher cor de arco-íris é o feitiço. Será a dança ou a mulher que enfeitiça? Os meus cotovelos continuam apoiados sobre o parapeito da janela aberta e, de vez em quando, continuo a levar o cigarro à boca. Quando o faço, devo reproduzir daquelas caras misteriosas, semicerrando o olhar, mas não passa disso, não há mistério. Ainda há dez minutos estava a chover e, lá fora, para lá do meu quintal, os transeuntes, parece que seguem um percurso qualquer com a regra de evitar as demais poças de água.
Não sei o que me trouxe até esta casa, até esta janela, mas não estou na minha casa. Estou algures a meio caminho da casa onde devo ficar e da casa de onde vim. Às vezes deixo-me ficar em sítios que não conheço e que nada me dizem, porque se não ficar, certamente, nunca, nada me dirão. Ainda existe em mim a dúvida se os sítios me fascinam mais do que as pessoas desses sítios. Continuo a tentar ganhar coragem para sair daqui, mas que coragem há a ganhar para sair de um sítio onde nada tenho? Talvez tenha mais do que penso, mas não sei o quê. E não consigo sair enquanto não perceber o que me tem feito ficar. Depois de aprender, sim, depois posso ir-me embora.
Há um mês que estou aqui, que aluguei esta casa, com um quintal lá fora, onde, de uma janela aberta se vê uma mulher vestida de arco-íris. Não sei por que é que ela dança, não ouço música nenhuma. Mas, lá está ela, enfeitiça-me com os seus movimentos de serpente. Tantas mulheres serpente que já conheci. Tantas outras que perdi. E o seu sorriso? Tão belo quanto o arco-íris. O que valeria aquele sorriso se todo o resto do seu corpo não sorrisse também? É esse o feitiço da mulher vestida cor de arco-íris. O seu sorriso não está na beleza única da vizinhança do contorno dos seus lábios, mas é em si, todo o contorno daquela mulher. Reparo que os meus movimentos de levar o cigarro à boca estão sincronizados com um qualquer movimento da sua dança, mas não sei o que me lança o braço. Aos poucos uns sons delicados na minha cabeça, mas não sei de onde vêm. Talvez seja música. É a música que a mulher cor de arco-íris está a dançar! Agora a dança daquela mulher faz sentido, agora aquela mulher faz sentido. Aos poucos a mulher cor de arco-íris vai-se afastando da minha janela e, assim, de mim. Desesperadamente, lanço e relanço o braço, com o cigarro na mão, à boca, na esperança que o movimento da sua dança se volte a sincronizar com o meu fumar, fazendo-a voltar. Ela não volta e desaparece, como o arco-íris desaparece num horizonte de névoa.
O cigarro acaba. Prendendo o dedo médio ao polegar solto-o, lançando a beata, que cai em cheio numa poça de água do meu quintal, escutando-se um suspiro funesto de um cigarro a perecer. Viro-me para dentro de casa mas continuo a ouvir a música que ela dançava. Porventura, mais do que o corpo, a cabeça roga-me por descanso. Vou até lá fora e deito-me na rede. Mal me deito recomeça a chover. Deixo-me balançar pela ternura da rede, observando a chuva com um outro cigarro na mão e, penso que, provavelmente, já seja tempo de partir. É que se este lugar tem uma luz diferente de todos os outros, já não me vale cá ficar, certamente não verei luz mais bela que um arco-íris dançante. Espero que acabe de chover porque decidi ir até à estação de autocarros saber o dia em que sai o próximo para fora daqui. Parou, a chuva. Dou um salto enérgico da rede e passo para lá do meu portão. De repente, sinto os pés enlameados, molhados, desconfortáveis. É normal andar por aqui descalço. Também lhe ganhei o hábito. Faço o mesmo jogo dos passados transeuntes, evitando as poças de água, safando-me da lama.
Da minha casa à estação, que não passa aliás de um apeadeiro, são cerca de vinte cinco minutos a pé. Já devem ter passado uns quinze, vinte minutos, quando reparo que uma mulher, com os cotovelos apoiados sobre o parapeito da janela da sua casa, está a olhar para mim. Ela pergunta-me se eu estou a dançar? Estranho a pergunta, mas encaro-a como uma brincadeira, sem desvendar a sua intenção. Respondo-lhe que não, não estou a dançar. Questiono-lhe porquê? Ela diz-me que parece que estou a dançar, uma dança engraçada. Repito que não estou a dançar. Talvez seja o efeito mirabolante, esquivando-me às poças, fitando a lama. Paulatinamente, volto a escutar a música da mulher cor de arco-íris à minha volta, divisando que danço como uma serpente. Reconheço as cores daquela mulher. Ela está apoiada com os cotovelos sobre o parapeito da janela da sua casa. Diz-me que é difícil andar nestes caminhos depois de chover, e que ainda há pouco era ela quem dançava! Eu sorri……. deve-lhe ter parecido um sorriso contornado a cores de arco-íris.  Pergunta-me onde vou? Digo-lhe que vou até ao apeadeiro, saber quando sai o próximo autocarro. Afirma que não vale a pena ir, sai todas as terças-feiras por volta das dez e meia da manhã. Assenti. Sinto-me embriagado. Revivo uma imagem tenuemente nítida, os passos belos da sua dança. É mesmo ela? Há movimentos a que damos especial significado mesmo quando eles, de especial, nada têm. Há movimentos que nos parecerem sensuais e afrodisíacos quando a nossa mente nos ilude. Ou seremos nós a iludir a nossa mente? Puxo mais um cigarro na tentativa de aliviar a cabeça e quando olho para a janela ela já lá não está. Só uma janela fechada, vazia. Procuro os fósforos pelos bolsos mas não os encontro. Devo-os ter deixado em casa.

Uma cor arco-íris cega-me ao abrir-se a porta daquela casa. Pergunto-lhe se tem fósforos, quero acender o meu cigarro, o meu cérebro precisa de folegar. Num gesto de braço em forma de arco-íris, ela convida-me a entrar. Aceito. Antes de entrar pela porta limpo os pés e as pernas com a água que está dentro de um balde. Entrei. Lá dentro uma casa simples, simples de mais, como qualquer casa nesta terra, em que chão é que eu estou? Uma cama, uma mesa, duas cadeiras, à volta prateleiras com comida, roupas, poucas e, algumas bugigangas. Ao centro o fogo para cozinhar. Reparo que ela está sozinha, o que não me deixa muito confortável. Ela pergunta-me o que faz um homem como eu por aqui, sozinho, a viver numa casa tão simples como a sua, sozinho, e sem nada a fazer? Nestas terras fala-se. Nem sei bem o que enunciar. Talvez, até, nem saiba bem porque estou aqui. Entretanto estendeu-me uma lasca da fogueira e acendi o meu cigarro. Menciono que estou a meio caminho da cidade para a qual devo ir trabalhar, mas, que, decidi aproveitar, por um bocado, a aventura. Retorque que sou louco, que aqui nada há de aventura e, um mês, é bem mais do que um bocado. Não concordo e, por momentos, perdemo-nos nas palavras do sentido de uma aventura. Não a consigo convencer, nem ela a mim, parece que não nos vamos entender. A frialdade da discussão é ateada, pela música que ainda a imagino dançar e, não apaziguo em mim o seu trejeito sensual. Percebendo o meu desconforto e, porventura, tentando vencê-lo, acaricia-me a pele. Sinto o seu toque penetrar-me as veias e o sangue aquenta-se. Sinto-lhe o pé a subir-me pela perna e admirado pela beleza do toque do arco-íris, possuo-a, ali, agora. Uma. Duas. Três vezes. Deixo-me ludibriar pelo jogo de cores e no fim ela beija-me com os seus lábios grossos nascendo dentro de mim as cores de um arco-íris, deixando-me num mundo que não é o meu. Adormeço noutro lugar.

Acordo e não sei quanto tempo passou. Ao fundo uma mulher. Lembra-me alguém. O que aconteceu? Onde estou? Demoro algum tempo a encontrar-me. Estou fatigado, esgotado. Ela volta-se, sorri-me. Sorrio de volta. Lentamente.......memórias. Lentamente.......detalhes, emoções, sensações. E volto a sentir um fervor matizado dentro de mim. Talvez seja melhor ir andando. Para onde ia eu? Apercebendo-se do meu despertar, ela, vira-se. Com um sorriso contornado em forma de mulher, pergunta-me se quero comer alguma coisa. Agradeço e ela estende-me um cesto com frutas, que mais me parece um arco-íris de frutas. Digo-lhe que tenho voltar. Não sei para onde. Declara que adorou estar comigo. Através de um olhar tímido e fugidio, pede-me que, um dia, antes de partir, a deixe dançar para mim, de novo. Assenti. Cambaleado, saio pela porta. Lá fora, na rua ainda enlameada, sigo um percurso qualquer com a regra de evitar as demais poças de água e de, safar-me da lama. Volvo a cabeça, não sei sobre que feitiço, quando reparo que uma mulher, com os seus cotovelos apoiados sobre o parapeito da janela da sua casa, está a olhar para mim. Paulatinamente, volto a escutar a música da mulher cor de arco-íris à minha volta, apercebendo-me que danço como uma serpente. Não sei o que me trouxe até esta casa, até esta janela, já estarei na minha casa? Às vezes deixo-me ficar em sítios que não conheço e que nada me dizem, porque se não ficar, certamente, nunca, nada me dirão. Será que ainda existe em mim a dúvida se os sítios me fascinam mais do que as pessoas desses sítios? Continuo a tentar ganhar coragem para sair daqui, mas que coragem há a ganhar para sair de um sítio onde nada tenho? Ou, precisarei, hoje, dessa coragem? Talvez tenha mais do que penso, e talvez já saiba o quê. E talvez já saiba o que me faça ficar. Depois de aprender, sim, depois posso ir-me embora, mas talvez já não faça sentido partir. É que à minha volta o dia é de cor de arco-íris.

sexta-feira, 9 de março de 2012

O Silêncio

Não vale a pena sem o silêncio. É que no silêncio estão contidas todas as palavras e as não-palavras. E as não-palavras dizem muito mais que todas as palavras. As palavras são inconsequentes, o silêncio não. Primeiro é o respeito, depois a compreensão. E depois da compreensão é um olhar cúmplice. A cumplicidade. E depois volta o silêncio. Porquê as palavras?  Para dizerem o que sabemos? Porque, se as disserrmos riscamos o som mágico que está para além das palavras, que está para além do respeito e da compreensão e, que só o silêncio conhece. Sem ele não vale a pena. Mas, um dia tem de chegar uma palavra. Sim, porque não se vive do silêncio, vive-se das palavras. É por isso que o silêncio é tão bom. Porque ausentasse-nos a imposição de viver.

E por um bocado distraio-me. Distraio-me porque no silêncio encontro todos os sons do mundo e que as palavras não deixam ouvir. E ai encontro todos os sons dentro de mim. E ai encontram todos os sons dentro de mim. E ai encontro todos os sons dentro de ti. É assim o meu silêncio, e o vosso? O som do meu silêncio é verdadeiro, é puro, e não há nenhum silêncio igual ao meu, igual ao teu, porque o silêncio vem sempre e, sempre só de dentro de nós. As palavras vêm sempre depois do silêncio. Ou pelo menos, deviam vir. Porque só depois de sabermos que entendem o nosso silêncio, saberemos que perceberão as nossas palavras. E o contrário não é verdade. Porque, por quantas mais palavras expliquemos o nosso silêncio, a linguagem do silêncio não é, só, as palavras. Por isso é impossível compreender o silêncio por palavras. Mas como no silêncio estão todas as palavras e as não-palavras, depois do silêncio, e só então, podemos compreender as palavras, e muito mais que só palavras. E então percebemos tudo o que o mundo nos está a tentar dizer. E então percebemos tudo de nós. E então percebemos tudo dos outros. Só podemos conhecer alguém se conhecermos o seu silêncio. É assim que sabemos que podemos confiar em alguém, quando o seu silêncio não incomoda, quando o nosso silêncio não incomoda.

Primeiro é o respeito, depois a compreensão. E depois da compreensão é um olhar cúmplice. A cumplicidade. Que mais vos posso dizer sobre o silêncio? Não há muito mais. Esgotei as palavras. Porque, por quantas mais palavras expliquemos o nosso silêncio, a linguagem do silêncio não é, só, as palavras. Por isso é impossível compreender o silêncio por palavras. E depois do  silêncio Depois do silêncio vem tudo. Não vale a pena sem o silêncio. 

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O Espaço, o Tempo e o Silêncio

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