domingo, 3 de julho de 2011

A Praia - O Eterno Retorno

7:42 AM. Um ruído galgou do rádio despertador interrompendo a letargia da noite. Acordei sobressaltado, satisfeito por não ser mais um dia de semana, mas um pouco desconsolado pelos dígitos que o relógio anunciava. Decidido em não deixar-me adormecer dei um pulo, esquivando-me ao chamamento do leito. Na escuridão, os ténues feixes de luz na forma dos dígitos do rádio despertador foram suficientes para aclarar o percurso até ao interruptor que eleva os estores. Carreguei. Subiram lentamente, como se soubessem as horas e o dia, que lhes pedi para despertarem. Fiz figas para que raios de sol conquistassem o soalho. O céu apresentou-se límpido, e o sol abençoou a intrepidez matinal a que me predispus. A mochila estava pronta desde a noite passada. Vesti os calções de banho e substitui a t-shirt. Tomei o pequeno-almoço. Zarpei!

Atravessei a ponte. Do lado de Lisboa a frescura da manhã convidava-a a reerguer-se dos episódios da noite. Do outro lado a enternecedora combinação de cores, na linha que separa o morro do horizonte, convidava a descobrir o mistério além. Cantei….”Aqui vou eu para a Costa!”….. e deixei-me guiar pelo refrão desta canção até ao fim da ponte. Alcancei tranquilamente o meu destino.
De manhã o sol enfrenta o mar olhos nos olhos. Fiz, por isso, a minha almofada de areia do lado do oceano. Estendi-me. Deixei-me impregnar pelos sons da natureza ainda dominantes, a rebentação das ondas, a leve brisa. Naturalmente, adormeci.

Despertei lentamente. Dominava agora a histeria humana, e para lá, além da histeria, o som das ondas. Dessa manifestação retornei à infância. Certamente uma das razões é a cacofonia dos pequeninos na sua voluptuosidade, na sua emancipação, na sua ignorância verdadeiramente sábia. Sem dúvida que as minhas incursões balneares familiares, quando era pequerrucho, também têm um peso significativo. A praia foi-me apresentada quando eu próprio era uma dessas crianças tresloucadas. Aprendi muitas brincadeiras na praia. Por isso, ainda hoje, gosto de assentar junto das crianças, das novas famílias, onde posso disfrutar da embriaguez areal dos pequenos. Fecho os olhos, e passo a ser um deles. O adulto, consciente, responsável, calculista, stressado, evapora-se no calor das brincadeiras, que me aquecem tanto como o calor do sol. De repente constato que apenas me faltam os baldes e as pás para ser um deles!

Retirei da mochila o meu bloco de notas. Escrevi...........
“Há coisas que me fazem retornar à infância. Uma dessas coisas é a praia. E hoje tive sorte. Aqueles dias de sorte. Aqueles dias em que pequenas coisas, aquelas coisas, que apreciamos, que nos encantam, que nos fazem sorrir, acontecem. Não me importo com a areia que aterra na minha toalha, por causa da correria gaiata, ao contrário dos avisos da mãe, para ter cuidado com o senhor. Pois bem, este senhor não precisa de, nem quer, cuidados! Que as crianças continuem ingovernáveis, rabinas, ariscas, simplesmente enfeitiçadas. “

Continuei a escrever.....
“Desvio o olhar para a minha direita. O mano mais velho corre atrás do mano mais novo, à volta do território demarcado pelo contorno do chapéu-de-sol. O riso dos manos, a alegria, a naturalidade do seu contentamento é contagiante. É como se o ar que eles dispersam se apoderá-se desse vício, e que transportado me atinge na inspiração seguinte, embebendo-se. Inopinadamente, circula-me no sangue aquele mesmo sorriso maroto, aquele brilho de inocência. Não desprendo os olhos dos manos. Não quero separar-me daquele sopro.
O mais velho provoca o mais novo, atingindo-o com um balde na cabeça (sem estragos!). É então que, distanciando levemente o meu olhar, descortino o sorriso do terceiro mano, ao colo da sua mãe, a deliciar-se com as traquinices dos mais velhos. O quanto não me vale este sorriso?! Para mim sei o que vale. Uma manhã saboreada na praia, uma boa disposição para o resto do dia, com certeza! Por que se há coisas que me fazem retornar à infância, uma dessas coisas é a praia."

Foi, assim, sem espanto, que senti subitamente uma espécie de deja vú. A descrição é simples: dois manos, dois calções de banho idênticos. Alguém se identifica? Aquela paranóia horrível, mortificante, que as mães tem de vestir os filhos de igual. Que recordação! Ainda hoje penso nas consequências que esses episódios podem ter no desenvolvimento da pessoa? Que impacto, que trauma, carrega esta mania maternal? Intriga-me. Um dia gostaria de ler um estudo científico que avalie esta situação. E com estas últimas frases pondero a hipótese que não quero admitir: fiquei traumatizado! Afinal, que homem, ainda hoje, não suspira, não dirige a mão à cabeça, não arregala os olhos, ou não concede uma risada solene, quando lhe questionam se, por acaso, o trajavam de igual ao irmão quando eram pequenos? Curiosamente, nunca vi as meninas vestidas iguais à mãe. Mas já vi os meninos vestidos iguais ao pai. E assim deverá ter nascido aquele jogo das diferenças. Encontra as 10 diferenças nestas duas imagens!? E imagino uma fotografia de dois manos cortada ao meio.”
Se tivesse uma máquina fotográfica à mão, tiraria uma fotografia e colocaria neste blogue os dois manos de hoje e os manos de ontem. A prova de um quadro intemporal. Por esta razão apresento somente os manos de ontem (onde é que está o umbigo?!).

O sol já tinha perdido a sua timidez matinal, e por esta altura já almejava por me refrescar. Abandonei a toalha. Caminhei. Cumpri o ritual para entrar na água. Entrei e trocou-se a ordem. Primeiro o som das ondas, e depois lá, além da rebentação das ondas, a histeria humana. E deixei-me relaxar pela inversão do cenário.
Voltei à toalha, sentindo o efeito ambivalente da frescura da água e cálido do sol. Deitei-me e deixei-me ficar, apenas e só, comigo.

Mas as crianças não repousam. Perscrutei à minha direita, um catraio que escavava, escavava, escavava. Um buraco considerável. O pai avisou, “Já chega, já tá fundo...pará!”. Claro que........ não parou. Continuou. Um pouco mais tarde, e desta vez, a mãe levantou-se, “Éééeéééé.....tão fundo. Filipe...já chega! O buraco já é maior que tu! As pessoas vão cair no buraco. Pára!”...... Claro que.....não parou. Juntaram-se os irmãos. Aproximaram-se mais crianças. Literalmente uma creche. Contemplavam o buraco. Algumas juntaram-se à odisseia, estimulando-me a curiosidade, pois já não avistava os pequenos que estavam lá dentro. Na verdade, só via areia a esvoaçar. E na contenção de um adulto, forcei-me em não me levantar e espiar o buraco. Mas queria! Contive-me. Inevitavelmente não consegui escapar ao buraco e julguei,... “D'aqui a nada parece o buraco orçamental!”..... Até que o buraco chegou ao limite, o pai, agarrou nos cachopos e tirou-os lá de dentro. Batidos mas não vencidos exercerem um grito de guerra: “Vamos à água!”. E lá foram os pequeninos. Entretanto, outros cachopos que se amontoaram para cuscar, tombaram mesmo no buraco. Observei os artistas que arquitectaram o buraco e pensei ....”Afinal parece mesmo o buraco orçamental! (ou o buraco de um e outro banco privado)”. As analogias são evidentes: O buraco é fundo, mesmo fundo, maior do que as possibilidades de quem o fez. Quem o fez desertou, e regozija-se à beira mar, impune. Quem não o fez caiu, e espera agora que uma mão se estenda. Qualquer coisa como uma ajuda…….uma ajuda externa. Só faltava mesmo saber quem taparia o buraco? ...Claro que..... tapou-o quem caiu nele, quem não contribui para a sua existência. Buracos, é mesmo coisa de crianças. Não se preocupam com as consequências quando o fazem, e retiram desse acto uma satisfação imensa. E depois.......... depois esquivam-se ao sacrifício de o taparem. E com esta apreciação alivio-me. Já não tenho vontade de escavar buracos. Afinal,….talvez…… não sou criança. Retornei ao modo adulto detectando que os raios de sol ganhavam contornos verticais, avisando-me que era hora de recolher. Assim, voltei a largar a minha infância, por que se há coisas que me fazem retornar à infância, uma dessas coisas é a praia.

Pesquisar neste blogue

Seguir por Email

Contador

O Espaço, o Tempo e o Silêncio

No Sábado à noite eu tomava um café com dois ou três amigos num pequeno bar da minha pequena cidade quando, a meio da conversa, surgiu um de...

Popular Posts

Blog Archive

Acerca de mim

Simplesmente, alguém que gosta de ler e escrever...