O buraco negro
De vez em quando há coisas que me
fazem lembrar os sonhos de quando eu era criança. Ou, para não vos enganar, de
quando o meu corpo ainda era pequeno. Eu pensava que iria viajar pelo espaço
inter-estrelar. Eu iria a outras estrelas e outros planetas. Eu iria a outras
galáxias. Eu iria viajar por um buraco negro. Eu iria ser um viajante
intrépido, em todo o espaço e tempo que desconhecemos. Hoje, se tivesse essa
oportunidade não sei se seria um viajante inter-estrelar. Não sei se optaria
por siderar-me por mundos que desconheço. Não sei se escolheria embriagar-me
pelos sons do espaço. Não sei se escolheria perder-me num qualquer lugar que,
hoje, ninguém imagina existir, onde o tempo e o espaço acontecem abandonados um
do outro. Talvez não. Como poderia lidar com forças e universos maiores do que
tudo se, muitas vezes, nem conseguimos lidar com as forças e lugares que
conhecemos no nosso próprio pequeno mundo? Redondo, azul, castanho, redondo, um
ponto ainda mais pequeno no universo do que tu e eu neste mundo? É, agora, que
vos digo que esta história não é sobre os meus sonhos inter-galácticos. E, não
é uma história feliz.
Uns dias depois peguei num jornal. Ao acaso. Por acaso. Pior. Também morreram três filhos, gémeos, de um casal de neozelandeses. Os únicos. Eles tinham recorrido a tratamentos de fertilidade. Tinham lutado para ter um filho. Tiveram três. E agora? Agora........agora foi um momento em que me senti resvalar por um buraco do qual é difícil escapar. Mais uma vez voltei-me a lembrar quem sou e o que somos. E, depois, todos os meus problemas, que não são problemas, nunca foram, desapareceram. Apesar de já terem passado quase dois meses, ainda não esqueci. Não sofri, não perdi, não senti.... mas não esqueci. Não posso, e não quero, ter em mim tamanha indolência. Não deixarei, facilmente, desvanecer-se de mim uma parcela ínfima da infinita dor que a outros dificilmente se dissipará. Dizem que um buraco negro é o resultado de uma deformação do espaço tempo. Sim. Acredito que todo o tempo e todo o espaço daqueles pais seja, agora, imensurável. Que caíram num mundo onde o tempo é um lugar inóspito e os lugares são um tempo perdido. É que um buraco negro é limitado por uma superfície a que chamam de horizonte de eventos. Um horizonte que marca a região a partir da qual não mais, se pode voltar. Passando essa região a força do buraco é tal que mesmo a luz não lhe escapa, tudo é consumido. Sem luz, é um corpo negro.
Esta é uma história triste. De crianças. De adultos. De todos. Por isso quero cessá-la, rápido. Sem mais me consumir, sem mais te consumir. Para isso pergunto-te: lembras-te de seres criança e imaginar que um dia irias embarcar numa viagem espacial como aquelas que se vêem nos filmes de ficção científica? Talvez não tinhas sido uma dessas crianças. Talvez o teu irmão? Um amigo? Se não, um qualquer rapaz, trolha, lá da escola primária? Eu sonhei. Eu queria ser astronauta. Eu devo ser um desses rapazes trolhas. E tu? O teu irmão? Um dos teus amigos? Não havia nada mais misterioso e audaz do que ir descobrir tudo o que ainda desconhecemos. E depois eu lia os livros de astronomia. E concebia dentro de mim todas as imagens dos planetas, das galáxias, das constelações, dos buracos negros e de todas as outras coisas que ainda hoje os telescópios procuram. Por isso um dia, há muito tempo, comprei um livro sobre buracos negros. Fiquei a saber tudo sobre buracos negros. Bem, pelo menos, fiquei a saber tudo o que se teoriza sobre os buracos negros. Ou melhor, não fiquei a saber nada, porque agora não me lembro de quase nada. Talvez não queira saber mais. Talvez não. Como poderia lidar com forças e universos maiores do que tudo se, muitas vezes, nem conseguimos lidar com as forças e lugares que conhecemos no nosso próprio pequeno mundo? Redondo, azul, castanho, redondo, um ponto ainda mais pequeno no universo do que tu e eu neste mundo?
Houve um incêndio. Aqui. Em Doha. Num centro
comercial. Dezanove pessoas morreram: treze crianças, quatro educadoras de
infância e dois seguranças. Dizia-se que três das crianças eram irmãos,
espanhóis. Senti qualquer coisa que não sei descrever. Uma paralisação. Talvez,
um momento de sanidade, de consciencialização. Talvez um momento que nos faz
lembrar quem somos e o que somos, mais do que todos os outros momentos
redundantes e sonambulescos do dia, de todos os dias. E, depois, depois de
voltar a ser alguém, invadiu-me um sentimento misto de horror e de cautela.
Acreditei, com um grau de cepticismo, na dimensão do acaso. Dos três filhos
morreram os três? Não, afinal ainda têm outro filho. Menos mau, ouvi alguém
dizer. Menos mal, mas como, pensei eu? Poderá o amor estar compartido
no coração dos pais? Talvez seja menos difícil? Que forças restam a
este casal? Vivo alheio a esse sentimento distinto e nobre, de ter alguém,
alguém mais importante do que nós próprios a roubar-nos a vida. Mas. Mas
imagino que será a partir desse sublime momento que, perderemos todo o egoísmo,
toda a mesquinhez, toda a frivolidade de uma existência centrada num universo
que julgamos estar carimbado com o nosso nome. E passamos a orbitar em torno de
uma estrela que nos ilumina, alimentado-nos da energia que nos transmite. Mas
as três estrelas que iluminavam o universo de um casal espanhol, explodiram,
transformando-se num buraco negro. E desse buraco negro, não escapam os pais,
um buraco com uma força maior do que qualquer coisa e alguém. Tal como um
buraco negro se forma quando uma estrela fica sem combustível, fazendo o seu
núcleo contrair-se até ficar reduzido a uma fracção do seu tamanho, a um pai e
uma mãe, que perdem as suas estrelas, o seu âmago contrai-se
a um ponto irracional de existência desprovido de sentido e de qualquer luz. E,
tal como num buraco negro, a gravidade produzida é de uma força desmesurada,
sugando tudo o que encontra. E suga. E subtraí. E tira. E consume. E toda a
energia de um pai e de uma mãe, suponho, deve ser alienada. O que resta no centro é um buraco negro.
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Os trigémeos neozelandeses |
Uns dias depois peguei num jornal. Ao acaso. Por acaso. Pior. Também morreram três filhos, gémeos, de um casal de neozelandeses. Os únicos. Eles tinham recorrido a tratamentos de fertilidade. Tinham lutado para ter um filho. Tiveram três. E agora? Agora........agora foi um momento em que me senti resvalar por um buraco do qual é difícil escapar. Mais uma vez voltei-me a lembrar quem sou e o que somos. E, depois, todos os meus problemas, que não são problemas, nunca foram, desapareceram. Apesar de já terem passado quase dois meses, ainda não esqueci. Não sofri, não perdi, não senti.... mas não esqueci. Não posso, e não quero, ter em mim tamanha indolência. Não deixarei, facilmente, desvanecer-se de mim uma parcela ínfima da infinita dor que a outros dificilmente se dissipará. Dizem que um buraco negro é o resultado de uma deformação do espaço tempo. Sim. Acredito que todo o tempo e todo o espaço daqueles pais seja, agora, imensurável. Que caíram num mundo onde o tempo é um lugar inóspito e os lugares são um tempo perdido. É que um buraco negro é limitado por uma superfície a que chamam de horizonte de eventos. Um horizonte que marca a região a partir da qual não mais, se pode voltar. Passando essa região a força do buraco é tal que mesmo a luz não lhe escapa, tudo é consumido. Sem luz, é um corpo negro.
Esta é uma história triste. De crianças. De adultos. De todos. Por isso quero cessá-la, rápido. Sem mais me consumir, sem mais te consumir. Para isso pergunto-te: lembras-te de seres criança e imaginar que um dia irias embarcar numa viagem espacial como aquelas que se vêem nos filmes de ficção científica? Talvez não tinhas sido uma dessas crianças. Talvez o teu irmão? Um amigo? Se não, um qualquer rapaz, trolha, lá da escola primária? Eu sonhei. Eu queria ser astronauta. Eu devo ser um desses rapazes trolhas. E tu? O teu irmão? Um dos teus amigos? Não havia nada mais misterioso e audaz do que ir descobrir tudo o que ainda desconhecemos. E depois eu lia os livros de astronomia. E concebia dentro de mim todas as imagens dos planetas, das galáxias, das constelações, dos buracos negros e de todas as outras coisas que ainda hoje os telescópios procuram. Por isso um dia, há muito tempo, comprei um livro sobre buracos negros. Fiquei a saber tudo sobre buracos negros. Bem, pelo menos, fiquei a saber tudo o que se teoriza sobre os buracos negros. Ou melhor, não fiquei a saber nada, porque agora não me lembro de quase nada. Talvez não queira saber mais. Talvez não. Como poderia lidar com forças e universos maiores do que tudo se, muitas vezes, nem conseguimos lidar com as forças e lugares que conhecemos no nosso próprio pequeno mundo? Redondo, azul, castanho, redondo, um ponto ainda mais pequeno no universo do que tu e eu neste mundo?
5 comentários:
Bem... speechless my friend!!!! Fiquei muito sensibilizada com esta história... Carry on!!! Love to read what you write!!!
Muito bom dos melhor se não o melhor até agora.
Sérgio
Muito obrigado! É sempre bom saber as vossas opiniões.
Continuem a aparecer por aqui, são bem-vindos :)
O Zé Miguel também quer ser astronauta, mas por agora só rebola!!!
O Zé Miguel já o vi no tapete de peito para baixo e a levantar os braços a pensar que tava a voar :)
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