Um encontro com José Luís Peixoto
Hoje, que já não é hoje,
este blogue faz dois anos. Parabéns blogue! Não posso deixar de agradecer a
todos os visitantes, tanto os mais e os menos assíduos. Tenho de confessar que
é motivante e importante saber que o blogue tem os seus leitores. A todos os
que me têm acompanhado um enorme OBRIGADO. Mas tenho de admitir que quando
escrevo não posso esperar nada, não se pode esperar nada. Talvez, assim, e só
assim, se consiga escrever desinibidamente livre, e, talvez, assim, e só
assim, se consiga realmente ser verdadeiro. Por vezes releio os rascunhos que
fui escrevendo, e, por vezes, não sei bem se realmente sei escrever. Talvez,
tenha uma desinibição maior que a imaginação. Por falar nisso, conto-vos uma
estória. Este último fim-de-semana fui à feira do livro de Lisboa e aproveitei
para que os meus livros do José Luís Peixoto fossem autografados. Enquanto
aguardava na fila, por vezes, olhava para as outras pessoas que também estavam
na fila, a jovem mãe com uma menina pequena, a mulher a ler um dos livros do Zé Luís, a permanente conquista por um espaço nas barracas, e, por outras vezes,
pensava no que diria quando finalmente chegasse a minha vez. Ou, então, ainda
por outras vezes, olhava para o Zé Luís que parecia sempre muito simpático a
falar com as pessoas. E eu, eu descontraia. Até que. Chegou a minha vez. O meu tronco já estava
ligeiramente inclinado para a frente, em posição de arranque, e o meu pé
direito descolara ligeiramente do chão, quando um senhor, vindo de um qualquer
lado, pediu-me desculpa, só um minuto! Parei o meu arranque. Obviamente que, aquele
senhor, conhecia o Zé Luís. O Zé Luís levantou-se, cumprimentou o tal senhor,
falaram um pouco, o senhor voltou-me a pedir desculpa, eu voltei a dizer que
não havia problema, até que, o Zé Luís e o senhor se despediram, o senhor
voltou uma vez mais a pedir desculpa, e eu, eu avancei. É agora!, pensei. E o
Zé Luís, muito simpático, pediu-me novamente desculpa, dizendo que compreendia
ser chato estar há tanto tempo na fila, para que. Para que, quase quase no
momento, aquele momento, afinal, ainda não fosse o momento. Respondi que não
havia problema nenhum, que, assim, até aumentava o suspense e a emoção, aquele
suspense do, É agora!, …..não não é……. É agora!..... não……… agora é que é! E lá
se foi todo o plano das coisas que eu tinha pensado dizer quando chegasse a
minha vez. Já sentados, dei-lhe os dois livros, O Abraço, e, Dentro
do Segredo. E ele. Como te chamas? João Paulo. E eu. E eu disse-lhe que
quando lia as suas crónicas na Visão me assustava. E ele. Porquê? E eu. Por
causa da forma, da forma como vocês assimilam as coisas, você e o António Lobo Antunes, que
também escreve as suas crónicas para a Visão, a forma, a essência da coisas. E ele:
Mas o que eu escrevo é muito diferente do António. Assustado?? Talvez não seja
essa a palavra. E eu. Que outra palavra será então, se como me sinto é mesmo
assustado? E sim, por serem diferentes é que me assusta, exactamente por ter de
existir algo comum. E ele. Assustado? Talvez seja um boa palavra. Tu escreves? E
eu, eu a pensar que ele tem é de me despachar, claro que, assustado, vendo bem,
arruma-se o assunto, serve mesmo! E eu. Vou escrevendo umas coisas, mas não
tenho jeito. O que é que eu havia de dizer em frente do José Luís Peixoto? Que
não escrevo nada mal?! Que até sou assim assim?! E ele. Porquê? E o que é que as pessoas acham do que escreves? E eu. Só os meus amigos é que vão lendo, e até vão dizendo que gostam, mas amigos são sempre suspeitos. E ele. Porquê? Confiança, tens de ter
confiança, porque é que hás-de escrever mal? E eu, lá disse. Tenho muito para
aprender. E ele. Eu não sei se o que tu escreves é muito complexo, tipo Eça de
Queiroz, ou se é daquelas coisas lamechas, mas…………… e eu não ouvi mais nada
porque fiquei a pensar, como é que afinal eu escrevo? Mas, como disse, não
escrevo nada de jeito, e descontrai. Falámos mais um bocado, sobre esta coisa
do escrever. E eu, a pensar se perguntaria, ou não, todas aquelas coisas
absurdas que me tinha lembrado enquanto aguardava na fila, mas que, por
momentos, um senhor amigo do Zé Luís, as tinha eclipsado. Pergunta, dizia para mim! Não, não
sejas absurdo! E eu. Claro que perguntei. Diga-me uma coisa, não sei se isto
lhe faz sentido, mas na sua escrita não precisa de encontrar um balanço entre
desinibição e imaginação? E ele. Ele, ficou a olhar para mim. E lá disse. Tens
de escrever o que te apetece, sem obrigação, e sem te preocupares em nada. Não
escrevas a esperar nada. E eu. Sim, claro, isso seria um erro muito grande.
Aliás, quando comecei a escrever, sempre disse que jamais o faria no dia em que ambicionar um qualquer tipo de retorno. Mas. Mas eu não disse isto, e
disse só que, sim, que era um grande erro. E voltei a encher os pulmões para
uma nova pergunta. E você, quando escreve, por acaso é uma pessoa térrea ou
fica com a cabeça no lugar da imaginação da sua escrita, e tudo cá fora, à volta, é outro mundo, não conseguindo concentrar-se
em mais nada? E ele? E ele, voltou a olhar para mim. Porra, que pergunta mais
estúpida! Eu sabia que devia ficar calado! Afinal aquele senhor amigo do Zé
Luís tinha lá aparecido a bom tempo, para te pôr no lugar, mas tu, tu, não
ligaste nenhuma! E ele, ele lá disse. Tens é de ter confiança e de escrever sem
medo o que quiseres escrever, seja o que for, e tens de praticar e batalhar muito. Treinar e aprender muito. E eu. Que pergunta mais parva!
Mas não disse isto. Por esta altura, imagino eu, que o Zé Luís já pensava que
dar autógrafos nem sempre é fácil. Levantámo-nos. Uns obrigados, uma boa sorte
do Zé Luís, uma boa sorte para o Zé Luís, como se fosse ele que precisasse de
sorte.
É desta forma que vos
digo que tenho gostado bastante de escrever e que quero continuar a escrever.
Para os mais curiosos,
acrescento que actualizei a Página das Estatísticas.
Espero brevemente ter
novas ideias, mas, espero ainda mais, que as saiba contar.
Obrigado.


2 comentários:
Parabens,
Como te disse gosto muito do que escreves, Acho que não tens nada a temer.Gosto especialmente dos teus pequenos episodios, Para mim os que mais me ficaram na memoria, Foi o da Praia e os filhos da China.
Continua ;)
PS: Ubuntu Rules!!!
Sergix
Gosto Gosto Gosto...Muito!
Já sabes que quero um autógrafo, teu! E prometo não fazer perguntas dificeis ;)
Beijinhos
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