As tuas palavras ternas
E agora, depois de casada,
depois de filhos, é que me dá para esta angústia. Continuo sem
perceber se a culpa é minha, se é tua, se de ambos ou de ninguém.
Há um ano que vivo assim, sobressaltada, sem te punir na
desconsideração do olvidamento. Mas. O meu marido, os meus filhos,
os meus pais. Sempre gozámos as férias em Agosto, desta vez lá
vamos em Julho, lá convenci o meu marido.
"Porquê?" perguntou ele "Porque é que queres em Julho, se sempre
gozámos as férias em Agosto?". E eu a tentar convence-lo que
me apetece mudar, experimentar outro mês
para conhecermos pessoas diferentes, para desta vez não te ver a
ti, sabia eu dentro de mim. Espero que não tenhas tido a mesma
ideia, também tens a tua mulher, a tua
filha. Ontem, ao arrumar as malas, as minhas roupas, peguei naquela
t-shirt que me gabaste, dizias que era era bonita, era a cor dos
meus olhos, e voltei a colocá-la dentro do armário, claro que
não a vou levar, até que antes de fechar a mala, voltei a pegar na
t-shirt e enfiei-a dentro da mala, nem a dobrei, não quero saber,
mas que parva que eu sou, como se a fosse vestir à espera de te
encontrar. Conhecemo-nos uns dias antes, antes desse dia em que nos beijámos, naquela vila Alentejana. A tua
mulher preenchia os dias na praia, dizias tu, o meu marido ia de jipe
com os amigos fazer todo-o-terreno, dizia eu. E sobrávamos nós, na
vila, onde, à tarde, a seguir de almoço tu ias ao café, onde, à
tarde, a seguir de almoço eu ia ao café, e, onde, trocámos as
primeiras palavras. Logo logo as nossas agradáveis conversas muito
agradáveis demasiado agradáveis. Eu, lá ia repetindo, “O meu
marido, …..os meus filhos....”, e tu, lá ias repetindo, “A
minha mulher,..... a minha filha......”. Talvez, tenha sido esse
alívio, essa descompressão, a culpa de tudo isto, daquele momento.
Desarmei-me, desarmaste-te. Naquele dia, confessámo-nos tanto tanto
tanto que abandonámos o café já quase fim de tarde, e, deambulámos
pela vila, por vielas de chão de pedra e casas caiadas, riscadas a cor de céu a cor de sol.
Respirámos a tranquilidade, como não se respira em qualquer outro
lugar; o tacto suavizante do Alentejo. Talvez tenha sido essa
tranquilidade, essa suavidade, que nos tenha resgatado, ou, talvez,
tenhamos apenas sido nós, que, nos tenhamos esquecido de muitas
coisas, porque, por vezes, seria tão bom ignorar tantas coisas.
Salpicados no tempo, diferentes grupos de jovens turistas
estrangeiros regressavam da praia, passando por nós com o
descomprometimento habitual de quem está longe longe longe de todas
as preocupações que só existem no lugar onde vivemos. Talvez, nós,
estivéssemos, também, um pouco assim, porque, não me lembro de
sentir o medo de encontrar alguém, conhecido, que descortinasse o
segredo que sentíamos a crescer. Eu adorava a tua litania, e, apesar
de eu ser uma grande tagarela, só queria escutar as tuas palavras.
Continuava a fazer-te perguntas não te dando tréguas, e tu, por
vezes, tentavas que eu também falasse um pouco de mim, mas, quando
perguntavas-me qualquer coisa, eu respondia rápido rápido rápido e
virava a pergunta de novo para ti. Mas tu que me entendias, lá
insistias em perguntar-me algo, ou elogiar-me algo, porque, assim, lá
eu ia sabendo que me davas atenção. E eu. Gostava. Consegui
extorquir-te alguns desabafos e alguns queixumes, que te davam uma
expressão de menino reguila, zangado, que, a mim, me despertaram um
desejo de te proteger, de te apaziguar. Quase no fim fim de tarde,
como se tivéssemos esperado por aquela hora do pôr-do-sol,
parámos, e observámos aquela rua estreita de
pedras, as suas casas caiadas, envolvendo-se numa bruma cor-de-fogo.
Concupiscentemente os meus dedos levemente acariciaram o teu braço,
a eletricidade, até que,........ até que me mostrei e lá me saiu um.....
“Adoro falar contigo”, e. Afastei-me. E tu? Mantiveste-te afastado, não disseste nada, e eu,
eu à espera da tua reacçao para poder reagir depois de ti. E tu.
Nada. E eu. Aproximei-me, como podias tu não dizer nada? Feita parva
aproximei-me, mas porquê?
Murmurei qualquer coisa que não me lembro, de certeza que
não foram palavras, apenas um murmúrio das palavras que te queria e
das palavras que não te queria dizer. E tu? Nada. Como nada?!
Aproximei-me mais ainda e senti a tua resposta: as tuas mãos, as
tuas mãos, as tuas mãos sobre a minha região lombar, e o teu rosto
meigamente encostando-se ao meu, o pronúncio dos teus lábios,
perto. Começaste com aquela lenga lenga das tuas palavras ternas
como se tivéssemos vinte anos e fossemos livres livres livres, como
se o sonho ainda fizesse parte de nós. E eu, dentro de mim, a
gostar. Desencostaste o rosto e eu desviei os olhos para não te
encontrar, mas queria tanto que me encontrasses. Comecei a tremer
tremer, não queria que me largasses mas queria afastar-me, e lá
disse, na esperança de te demover, que fosses tu a recuar porque eu
não era capaz, e lá disse, “...... o meu marido......., os meus
filhos......., a tua mulher........”. Tentei chamar-te à razão
quando eu própria estava fora dela, tu ias soltar-me, tu devias
soltar-me. Lá dei um passo a tentar recuar, mas tu agarraste-me com
mais força e eu, assustada. Os nossos ventres tocaram-se e senti o
calor que já nada tinha a ver com o calor das tardes de Verão no
Alentejo. Como o rasto de uma brisa a tua mão explorou-me o rosto, e
sobre os teus ombros envolvi-te num abraço. Enternecida, procurei as
palavras do teu olhar. Lá, nesse olhar, um reflexo: os lábios, os
meus lábios. Senti o desejo enorme de te beijar, mas não tanto como
o desejo de seres tu a beijar-me. Naquele momento já não tinha
qualquer controle sobre mim e era tua. Podias ter feito o que
fizestes. Quando os nossos olhares finalmente encontraram-se, eu,
vendo dentro de ti, e tu, vendo dentro de mim, aproximámos os nossos
lábios, quase quase juntos, e o calor da tua respiração entrou
dentro de mim. O sangue, vivo, vivo.
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http://www.myspace.com/artistwoodruff |
Agarrei-te mais no meu abraço, e tu prendeste-me mais nos teus braços, e, descontrolada, lá me saiu-me um som,
estúpido, um frouxo "han?..." que bem entendeste,
quando eu comecei a inclinar a cabeça, a fechar os olhos e a
respirar propositadamente para dentro de ti, para que o meu calor
tivesse o mesmo efeito que o teu teve em mim. As nossas bocas
aproximaram-se ainda mais e, naquele momento, já nada deixaria de
acontecer. Colocaste a tua mão por detrás do meu pescoço, uma
última respiração, e beijámo-nos. Deixámos de estar em qualquer
lugar sem ser em nós. Encontrei a verdade e a sinceridade de todas
as tuas palavras e de todos os teus gestos no ardor daquele beijo,
enloquecendo-me na sua proveura, na sua libertação Abracei-te mais,
e, envolvemo-nos na candura de uma nuvem de algodão doce.
Terminado, largámo-nos.
De soslaio, um delicado olhar intimo. Abandonámo-nos. Sim, deixámos
as nossas mãos deslizar levemente sobre os contornos dos nossos
braços, evidenciando o significado daquele beijo. E afastámo-nos,
porque, sabíamos que, todas as palavras não seriam suficientes. Não
olhei para trás. E tu, olhaste? Naquelas férias não voltei àquele
café, não voltei àquelas ruas, porque não te podia encontrar. Mas
todos os dias pensava se lá estarias. Se estarias sentado na nossa
mesa à minha espera. Se terias voltado a percorrer as nossas ruas, com a esperança de me encontrar tão perdida quanto a
tua ansiedade de me encontrar? E pensava: "E agora, depois de
casada, depois de filhos, é que me dá para esta angústia. Não
percebo se a culpa é minha, se tua, se de ambos ou de ninguém."
E todos os dias, quando dava comigo sozinha em casa, vestia aquela
t-shirt verde, cor dos meus olhos, e olhava-me ao espelho em busca
das tuas palavras ternas.
3 comentários:
Muito bom! Aventura-te num livro, vá lá ;)
E eu. Gostava. Consegui extorquir-te alguns desabafos e alguns queixumes, que te davam uma expressão de menino reguila, zangado, que, a mim, me despertaram um desejo de te proteger, de te apaziguar.
Na mouche
Sergix
Um livro? Isso é mesmo uma grande aventura! Eu sou da opinião que só valem ser imprimidos livros bons, e não tudo e mais alguma coisa que hoje se vende às carradas.
Um livro não pode ser uma perda de tempo para o leitor. Por enquanto, ainda me tenho como uma pessoa modesta :)
Obrigado.
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