
A primeira tentativa de ler Cem Anos de Solidão, Gabriel Garcia
Márquez, esbarrou na minha preferência por estórias mais centradas em
contextos reais e menos em possibilidades imaginárias, e irreais, da
existência humana.
Hoje, passados alguns anos, e menos sonso nesta onda das leituras,
realizei nova tentativa. E desta nem pestanejei. Porque afinal eu estava
errado. O pequeno mundo de Macondo, Melquíades, a família Buendía (nos seus emaranhados de Arcadios, Aurelianos, Úrsulas, Amarantas e Remédios), Pilar Ternera, outras personagens, podem ter o seu grau de fantasia mas
em nada se afastam do mundo social. Pelo contrário, pareceu-me mais uma
estratégia, muito bem sucedida, para descrever parte da nossa sociedade,
da nossa humanização e desumanização. E assim levo uma chapada na cara.
É que a fantasia (mais abrangente que a ficção) tem um poder
extraordinário para contrastar com a realidade, e se não exagerada, ou
não tomada num sentido utópico, apenas nos instiga a reflectir sobre o
que pensamos serem a verdade e a realidade. No fundo tem a capacidade de
nos expor ao nosso sentido crítico. E, talvez, o maior mérito de
Gabriel Garcia Márquez, será o de impor-nos brilhantes revelações e
conclusões, sem frases feitas, nem, muito menos, citações memoráveis e
inolvidáveis.
É assim que, sem o publicitar, ao longo do romance nos questionamos
sobre a civilização, o progresso, o desenvolvimento, as relações
humanas, as relações sociais, o valor de uma vida, e, até, ou sem
dúvida?, o tempo.
E um dos indicadores, na minha opinião, de este
ser um grande livro, é que, muito provavelmente, não esquecerei as suas
personagens, assim como não esqueci, dito de cor, Jean Valjean, Javert,
Thénardier, Éponine, Coseta, Fantine, os amigos do clube ABC, Marius...
E
a partir de hoje amplio as minhas opções de leituras à fantasia
crítica. E até já estou a pensar em algumas hipóteses... As viagens de
Gulliver???
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