sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

A criança que não queria falar

É um gesto. É o gesto de percorrer as prateleiras. Mania esta dos gestos. Uns mais importantes do que outros. Uns mais significantes do que outros. Tenho por hábito percorrer as prateleiras quando as lombadas as adornam. Percorro o título, o nome do autor, interessando-me ou não. Foi nas férias de Agosto, na casa de férias de um amigo meu, que descobri o livro que terminei de ler. Não me surpreendi pela cativante prateleira, porque há prateleiras e prateleiras. E já sei que aquelas prateleiras costumam estar literariamente bem recheadas, não conhecesse eu, a mãe do meu amigo. Não surpreendentemente trouxe um livro comigo. Uma história verídica, a história de uma menina e da sua professora.

Editorial Presença
Sheila era uma menina de seis anos, problemática, condenada pelo tribunal a internamento num hospital psiquiátrico, por ter atado um rapazinho de três anos a uma árvore e o ter queimado. É um gesto. Mas enquanto não existia uma vaga no hospital ela foi colocada na aula para alunos com necessidades especiais da professora Torey. Sheila era uma criança má, rejeitada em todas as escolas e por todos os professores. A sorte de Sheila resume-se em encontrar Torey, uma professora brilhante, que vai conseguir renascer Sheila para uma vida sociável. Alvo de agressões físicas pelo pai, é um gesto, diminuída por este, abandonada pela mãe numa auto-estrada, é um gesto, cresceu em Sheila um sentimento de medo e de falta de auto-estima. Estes acontecimentos traumáticos fizeram de Sheila a tal criança má, que não podia errar, porque se errasse batiam-lhe, tal como o pai lhe fazia, é um gesto, e se não fosse boa, abandonada, é um gesto, tal como lhe fez a mãe. Assim criou-se um pequeno monstro insociável, cujas acções eram propositadamente más, é um gesto, objectivo que só Sheila sabia porquê. Mas quando a professora Torey surgiu na sua vida, esta conseguiu chegar ao coração de Sheila e, com muito amor, retira Sheila de um futuro sombrio. Dada como maluca por todos, cujo internamento no hospital psiquiátrico é visto como uma medida irreversível, Torey conseguirá, num ano lectivo, provar a todos que Sheila é uma criança excepcional, inclusive com um QI acima da média, resolvendo testes psicotécnicos para crianças mais velhas.

As coincidências na vida são importantes. Este relato de vida marca-me profundamente. Relembra-me a fragilidade e o limbo em que vivemos. A sorte que precisamos. E que somente uma pequena coisa pode significar uma vida inteira. Uma pequena coisa? Para além da sorte de encontrar Torey, a sorte de o namorado de Torey ser um advogado. Apesar de ser um advogado que defendia alcoólicos, livrando-os da prisão, a falta de recursos de Torey, fê-lo aceitar, perante a insistência dela, em defender Sheila da erroneidade do seu internamento, quando a vaga surgiu. É um gesto. Mas. Mas o pai de Sheila era um alcoólico, rejeitando qualquer caridade para com a filha e, para com ele, sabotando qualquer tentativa de ajuda. Por vezes há um espaço indefinido algures entre a sorte e a coincidência. Chad, o namorado de Torey, era uma pessoa sensibilizada e acostumada a este tipo de pessoas, alcoólicas, com quem lidava diariamente. Assim, conseguiu envolver o pai de Sheila, numa atitude positiva para salvar a sua filha. É um gesto. Impressionante. Fiquei bastante sensibilizado com este livro. A vida de Sheila podia ter passado ao lado. A vida de Sheila podia nunca ter sido. Assustam-me as coisas que não controlamos. Impressiono-me com a fragilidade da nossa sorte.

O título engana. Sheila falava. Não muito, mas falava. Na verdade Sheila não chorava. Confessou que não chorava para as pessoas não verem que a faziam sofrer. É um gesto. Sheila nunca chorou mesmo quando era castigada fisicamente. É um gesto. Quando acabei de ler o livro pensei que o título deveria ser “A criança que nunca chorava”. Sheila só chorou no fim, quando finalmente quebrou, dando-se assim o passo para ela aceitar a sua inserção na vida social. Sheila só precisava que alguém lhe mostrasse que chorar não era fraqueza, mas para ela a salvação. É um gesto. É o gesto de Torey que salvou Sheila.
Ler uma história verídica tem as suas vantagens. Sabemos que há vida para além do fim da história. Perguntamo-nos o que aconteceu depois? Como cresceu Sheila? Que relação manteve com a professora que a salvou? O que significou aquele ano na vida daquelas pessoas? Fui à internet pesquisar. Descobri que: Sheila agora com trinta e poucos anos diz-se uma pessoa feliz; Torey a professora, lembrou-se durante anos de Sheila, e só voltaram a encontrar-se quando Sheila já era adolescente; Chad deu o nome de Sheila à sua primeira filha. É um gesto.

Transcrevo o Epílogo do livro:

“Há um ano, recebi pelo correio uma folha de caderno amarrotada, manchada de gotas de água, escrita com uma caneta de feltro azul. Não trazia qualquer carta.

A Torey com muito
“Amor”

Todos os outros vieram
Tentaram fazer-me rir
Brincaram comigo
Algumas vezes para rir e outras a sério
E depois partiram
Abandonaram-me nas ruínas das brincadeiras
E eu não sabia quais eram a sério.
Quais eram para rir e
Vi-me sozinha com os ecos de risos
Que não eram os meus.

E depois tu chegaste
Com os teus modos estranhos
Nem sempre humanos
E fizeste-me chorar
E não pareceste importar-te que chorasse.
Disseste que as brincadeiras tinham acabado
E esperaste
Até que as minhas lágrimas se transformassem
Em alegria!

É um gesto.
Na internet, na página da Torey está uma imagem do poema original.

É um gesto.


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